Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

A nova ruralização

É certo que desde há muitos anos que existem programas para combater a desertificação do interior (e todos fracassaram porque nunca tocaram nos factores económicos e sociais vitais) mas nos últimos meses tem existido um crescendo de vozes politicamente poderosas que apelam a uma ruralização de Portugal.  É surpreendente a que tal aconteça porque o país não mudou de elites desde 1976/77 o que só nos pode levar a duas conclusões: ou o plano que existia para Portugal falhou ou nunca chegou a existir e fomos andando ao longo de mais de três décadas mais ou menos ao sabor do vento e tivemos sorte de nunca sermos apanhados numa tempestade fatal.

Penso que todos temos o direito de perguntar: qual era o plano para este país??

Esta ideia (suponho ser algo pensado a longo prazo) começa mais uma vez por ser vendida através do sistema de educação massificado, ou seja, é introduzido a mentes e corpos sem experiência do que é uma vida rural e muito menos do que foi o passado das pessoas que seguiram esse percurso até hoje. Sem qualquer tentativa de suplantar as muitas falhas que o campo tem em relação à cidade (culturalmente, politicamente, socialmente, economicamente, etc) começa a ser vendida uma glorificação da vida agrícola que não tem qualquer base empírica na realidade histórica portuguesa. Mesmo no campo teórico a única coisa que encontramos que se assemelhe a um raciocínio para este incentivo à deslocação em massa de pessoas para o campo é a doutrina salazarista que via no camponês ignorante e submisso (às três autoridades locais: o Juiz, o Padre e o Professor) como o ideal de cidadania. Doutrina de idolatria rural que partilhava com todos os movimentos fascistas da Europa da primeira metade do século XX incluindo a violentíssima política “Blut und Boden” (Sangue e Terra) do Terceiro Reich que também tinha como ponto de partida uma versão imaginária do camponês “ariano”.

Que nova ruralidade é esta que está a ser imaginada?

Será que falamos de um projecto de repovoamento do interior ou de uma tentativa de esvaziar, ou pelo menos aliviar, os grandes centros urbanos para efeitos de controlo populacional? Vai-se mesmo esvaziar a turbulência da grande Lisboa prometendo um futuro, destituído de quase tudo, no campo aos jovens? Ou, como diz esta notícia, será apenas aos jovens “em risco” que esta mudança será proposta em massa? Existirão campanhas similares nos melhores colégios de Lisboa e Porto? Ou será que o destino de criador de porcos no interior do Portugal moderno é bom para uns mas mau para outros? É esta a resposta a uma contestação que só pode crescer? É esta a resposta a uma taxa de desemprego real que andará quase no dobro dos números oficiais? É isto que o regime tem a dizer a quem já não tem nada a perder? É esta a resposta aos milhões que se tornaram e irão tornar danos colaterais?

É esta a autoridade que nos dizem fazer falta?

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