Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

O medo

O clima que actualmente existe dentro das empresas portuguesas é de medo profundo. Medo esse derivado não só de factores “normais” (numa crise é habitual que com os cortes de pessoal exista um receio acrescido de que tudo o que se faz ou diga seja causa de despedimento) mas também de factores intrínsecos aos hábitos empresariais do nosso país. Há uma cultura de impunidade para o chefe abusador que sabe que o trabalhador neste momento já não pode contar sequer com um representante sindical (ou pensavam que a insistência na contratação individual, para o trabalhador não qualificado, era para “flexibilizar” o quê senão a dignidade moral do trabalhador?) e muito menos pode recorrer a tribunais lentos, caros e de resultados mais que incertos.

Cada um no seu sítio....

O que fica? Um combate de cães raivosos em cada fábrica ou cada escritório que não percebem que por muito que se humilhem e se traiam uns aos outros isso nunca os protegerá. Medo de denunciar abusos, medo de falar sobre alguns temas, medo até de partilhar informação pessoal com os colegas. Tornou-se uma espécie de corrida para o fundo sem se saber bem onde isso será. Será que o patrão poderá um dia vir a aplicar testes de lealdade emocional à empresa? E que tal questionários pessoais invasivos a ver se é o “tipo de pessoa” que interessa? Entrega do poder de voto ao empregador? A situação tem vindo a evoluir no sentido de um descontrolo dos mecanismos de equilíbrio laborais a favor das entidades empregadoras de tal forma que é complicado conseguir imaginar algo que não possa vir a ser justificado em nome da competitividade, estabilidade e da recuperação económica.

Prove a sua lealdade na "Guerra à crise"!

A nova arma de intimidação já saiu do armeiro é a redução faseada da indeminização por despedimento. Este ano passa de 30 dias por ano para 20, em 2012 cai para 10 e em 2013 deixa de existir. 37 anos depois do Estado Novo cair o despedimento está de novo a caminho de ser gratuito (arbitrário já o é apesar da legislação formal). Existem ainda ambientes de trabalho saudáveis? Sim. Poucos mas existem (daí não poderem ser tomados como a regra). Felizmente. Mas existem porque as lideranças dessas empresas assumiram, por teimosia ou princípio ético, o dever de tratar condignamente os seus trabalhadores e não porque o sistema seja conducente a esse tipo de atitude como deveria ser o caso.

Alguém o disse...

Nesta “guerra contra a crise” a insegurança é a nova segurança, escravatura é liberdade e ignorância é lealdade.

Anúncios

One response

  1. Pingback: O medo racional « Guerras Culturais

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s