Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

O medo racional

O filósofo José Gil vem afirmar o que para ele é por demais óbvio e representa o nosso principal problema: “[os portugueses] têm medo da vida deles; têm medo de desencadear vida neles; têm medo de ultrapassar uma regra, uma norma que possa ser para um risco e comportar um risco ou um excesso”. Isto pareceria óbvio, estilo verdade de La Palice, não se fosse ser o caso de, aparentemente, querer misturar política partidária no meio disto tudo (a referência a “discutir” o legado do último governo) como se não se tratasse de um processo que começou na mente das elites que emergiram do pós-estado novo (muitas delas colaborantes ou bem posicionadas nessa altura diga-se de passagem) que acharam por bem simplesmente reeditar o regime, agora com votos de 4 em 4 anos e menos violência. O medo está lá. Admite-se que está lá mas o proposto pelas autoridades (políticas, intelectuais e económicas) parece ser pedir umacompleta falta de espírito crítico ao povo português (como se não fosse esse facilitismo que nos tivesse levado até aqui).

Será preciso uma terapia de choque para os nossos medos??

Não discordando daquilo que o filósofo afirma (que eu próprio já tinha afirmado juntamente com qualquer pessoa que tenha olhos – o medo é rei neste país) tenho que discordar da apresentação que ele faz do tema porque dá a entender que o problema é meramente interior. Como se fosse apenas um recalcamento gigante de quase 50 anos de Estado Novo e séculos de inquisição. Ou seja apresenta isto quase como um problema psicanalítico que o “paciente” terá que resolver para fazer integração e viver uma vida mais saudável livre de demónios interiores. Mas a questão é que falha em abordar o ponto central: existem motivos racionais para o medo das pessoas. O cidadão não tem medo de sombras ou entidades abstractas. Tem medo de coisas muito concretas. O patrão, os colegas, as empresas, os partidos, as seitas, etc. todos estes entes têm poder real e não apenas simbólico. Não são produto da psique de algumas pessoas e põem e dispõem, muitas vezes de forma arbitrária e destrutiva, da vida de todos nós.    

 

Ao incluir o elemento de racionalidade no medo que se sente nas pessoas a situação muda de figura. Qualquer pedido sem garantias de simplesmente seguir em frente é desconsiderar a realidade. Poderia ser interpretado como um pedido de não avaliar criticamente o que está a ser feito porque qualquer receio que sejam más soluções é apenas produto das nossas mentes pouco saudáveis retorcidas por uma fobia patológica de ser ousados. Negar a causas e consequências reais do medo é pedir um cheque em branco a qualquer pessoa que diga ter uma ideia. E isso já este país fez demasiadas vezes.

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