Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Os perigosos marginais

Que nos dizem compor de forma exclusiva as multidões puseram várias cidades do Reino Unido a ferro e fogo. Ou pelo menos as partes comerciais, e, no fundo, é isso a única coisa que interessa, a sacrossanta propriedade empresarial (diferente da meramente privada) e os seus fluxos de libras, e daí a tentativa de penalizar brutalmente os participantes. Resumindo para ficarmos todos entendidos, estamos autorizados a protestar no Ocidente desde que esse protesto não tenha qualquer efeito concreto. A partir do momento que coloca algo em risco, especialmente o fluxo económico, os cidadãos em causa quase perdem o estatuto de humanos e são atacados de todas as formas possíveis e imaginárias até se transforem apenas em exemplos repressivos sobre o que acontece a quem não é um “cidadão responsável”. Na Roma Antiga os seis mil soldados de Espártaco que sobrevieram à terceira Guerra Servil (70 A.C.) foram crucificados ao longo da Via Ápia (de Cápua a Roma) como exemplo, hoje evoluímos temos todo um sistema judicial para punir os revoltosos sem derramar uma gota de sangue. Que humano, higiénico e civilizado da nossa parte.

A fusão entre espectáculo e justiça

Todo o contexto destas revoltas está a ser ignorado e estão a dar às massas (especialmente uma ex-classe média que não percebeu que amanhã poderão ser eles nessa situação) um espectáculo de punição e agressão como elas sempre adoraram. Não saberemos se isto conterá a insatisfação crescente ou simplesmente criar uma barreira de medo adicional a todos os cidadãos. Mas de algumas coisas temos certezas. As pessoas que estão a ser tratadas como lixo humano e ignoradas não vão a lado nenhum. O número de pessoas que integra este grupo não pára de crescer (e só pode aumentar com a gravidade da crise económica que vivemos e aquela que ainda está para vir e se vai ter o seu coração na Ásia). E por fim qualquer barreira de medo pode ser ultrapassada quando as condições se deterioram o suficiente. Por isso as populações europeias têm que reflectir muito bem sobre que tipo de sociedades querem ou estão dispostos a ter e a que preço.

Somos livres de ser iguais, livres de não escolher, livres de produzir o que nos mandam. Viva a Liberdade!

Num aspecto puramente humano é deprimente ver como as pessoas embarcam tão depressa na desumanização dos seus concidadãos assim que os seus reflexos de Pavlov são activados ao verem alguns inconvenientes às suas vidinhas. Deixam de ver todas as perspectivas que não sejam punitivas e preferem esquecer as causas de tudo isto o mais cedo possível. Como se estas pessoas não existissem nem nunca tivessem existido. Rezem para não vir um dia ter que estar nesta situação e verem-se incluídos no grupo dos “delinquentes”.

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4 responses

  1. Carlos Filipe Costa

    O seu raciocínio falha essencialmente porque se deixa cair na falácia que quem transgride a lei, pilha, ou mata, só o faz porque está desesperado ou porque foi maltratado. Não é assim. A prova está nos furtos em sí, que de necessidade não tinham nada e que foram claramente uma consequência do sentimento do “eu faço porque posso, tenho direitos, não me podem fazer mal, eu não tenho culpa nenhuma” criado essencialmente pelo que defende. O ser humano não é nem nunca será naturalmente bom. Precisa de regras, disciplina e punição. Não existe nenhuma sociedade (tribal ou civilizada) que não seja regida por regras e que não tenha consequências caso essas regras sejam quebradas. A anarquia não passa de uma utopia e como tal é impraticável. Falar de resoluções pacificas e conciliadoras além de ingénuo é perigoso, porque abre espaço de manobra para os radicais (inclusive os que pensam ao contrário do sr.) e pessoas violentas. Em suma, não existe uma sociedade perfeita, delinquentes haverá sempre, mas quando deixa de haver autoridade e sentido de respeito, a consequência inevitável é a do aumento dos comportamentos deviantes. Não queira voltar as sociedades de outros tempos. É que apesar de tudo, vivemos na sociedade mais justa da história da humanidade.

    Agosto 11, 2011 às 6:41 pm

    • Nunca afirmei que excessos e oportunismos não tivessem ocorrido (movimentos sociais em épocas conturbadas têm sempre a sua dose de oportunistas e abusadores), simplesmente neguei que fosse essa a essência do que está a acontecer. Muito menos defendo anarquia como sistema político. O que defendo é que a anarquia entendida como estado temporário de suspensão de determinadas regras (um período de transição) pode ser necessário para mudar certos elementos instalados ou impedir sectores inteiros da população de serem votados à extinção (e nada impede que muitos mais se lhes juntem em breve). Pode ser uma via aceitável se o resto dos poderes de crítica popular forem reduzidos a uma impotência patética que nunca alteram coisa nenhuma, transformam-se em letra morta envolvidos num caixão de legalismos. E menos ainda ouso defender a bondade intrínseca do Homem. Sei simplesmente que é muito fácil (e fica muito bem pela moralidade convencional) criticar o tipo que leva um telefone de uma loja a arder mas muito mais complicado (e corajoso e honesto) criticar os mercadores do medo de todo este sistema de repressão que é ainda mais violento por se aplicar a pessoas e não objectos. Por isso segundo o seu próprio comentário o meu raciocínio não falha. Quanto às pessoas violentas que pensam de forma diferente de mim sei de quem fala e garanto-lhe que não cedo um centímetro ao medo e intimidação que se baseiam para angariar poder, a europa já viveu isso uma vez e já chega! E como já escrevi aqui algures não percebo o porquê da falta de investigação séria na Europa sobre alguns destes movimentos (veja o caso norueguês…) – aqui percebo que estou a responder a uma crítica que o Carlos só fez porque me pensou anarquista mas não é o caso, simplesmente acho que neste momento está-se a abusar do poder para defender agendas muito obscuras.

      A parte de querer voltar a outro tempo não percebi muito bem mas posso dizer-lhe já que não acredito que sejamos, em todos os níveis, a melhor sociedade que já caminhou sobre a terra (e tenho muito orgulho no nosso percurso ocidental mas isso não me torna cego) e muito menos acredito numa narrativa de progresso uniforme. Estes tempos são melhores que uns (algum conforto material pelo menos por enquanto e para alguns) e piores que outros (mais incertos e mesmo no epicentro de algumas viragens históricas desagradáveis).

      Agosto 11, 2011 às 8:39 pm

  2. Jacquerie

    Clap! Clap! Clap!

    Brilhante.

    Agosto 12, 2011 às 2:34 pm

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