Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Manobras de contenção

Por toda a Europa multiplicam-se as tentativas de acalmar o que pareceu ser um onda de agressão espontânea direccionada contra os grandes desequilíbrios sociais que se estão a construir de forma semiautoritária (sem submeter o grosso desta transferência de riqueza a referendos e outros métodos de escrutínio da opinião pública). Sobre a capa de se querer evitar a desagregação social (como se o facto de as pessoas se unirem para contestar o que está a acontecer não fosse prova do contrário) está-se a aplicar ora medidas repressivas ora medidas de distracção ou acalmia para continuar todo o processo até ao seu fim (o chicote e a cenoura para o burro não parar de vez). A parte mais deprimente de todo o processo é como tentam desviar as pessoas para o protesto banal e ineficaz que acaba por ter os mesmos efeitos do conformismo mais apático à face da Terra.

Mais uma enorme escolha desprovida de qualquer significado ou consequência.

Em Espanha andam todos distraídos, em véspera de eleições, com uma visita do papa, líder de uma Igreja que nunca teve pudor em dizer quem apoiava (a visita vai ter direito à presença da família real outra entidade completamente partidária e que serve, na opinião de muitos espanhóis, juntamente com a Igreja da baluarte do conservadorismo espanhol e do que resta do legado franquista). Ou seja não só as pessoas têm direito a um espectáculo público como também a comício para irem bem orientadas para as urnas (claro que tudo é feito sobre a mais estrita neutralidade legalista mas isso só mostra o lado perverso de se prestar atenção exclusivamente à formalidade – não haverá provavelmente uma palavra partidária directa nos discursos mas para bom entendedor…). Parece que, tal como na Noruega (só coincidências…), havia um plano de atentado (envolvendo por pelo menos um devoto cristão conservador) ao que poderia ser considerado a ala liberal do país (neste caso os que se opunham a que o Estado Espanhol arcasse com um cêntimo do custo desta visita papal). Neste caso, felizmente, foi possível evitar uma desgraça e apanharam-no antes que pudesse fazer estragos.

"Gangs isolados", "vandalismo" é o que mais se gosta de usar... e que tal: combate urbano e rebelião popular?

Pelo Reino Unido a técnica continua a ser a pálida imitação da baronesa Thatcher que o primeiro-ministro David Cameron parece empenhado em prosseguir. É prisões para os revoltosos e para quem “publicitou/incitou” a revolta. Ficamos sem saber se as tvs também serão multadas e os seus jornalistas principais encarcerados. Ou são apenas determinadas opiniões sobre o tema que dão direito a ir preso? Será mesmo que a causa de uma semana de caos urbano no Reino Unido pertence realmente a dois miúdos que usaram uns slogans? Quando se tornar muito incómodo também se fecharão as redes sociais e blogs como no médio oriente? Ficamos também sem saber qual é a moral de um governo que prende jovens adultos nestes casos mas permite que os seus “cidadãos mais respeitáveis”  investir (de forma legal) em armas proibidas. Será que irão colocar a cara dos presidentes dos Conselhos de Administração destes bancos em ecrãs ao longo de Londres para os encontrar e identificar? Em Portugal ficamos sem saber muito bem quando é que apoio ou palavras de ordem serão criminalizadas (esperemos não chegar a tanto porque as penalizações pessoais por emitir opiniões de qualquer ordem já são pesadas o suficiente). De qualquer forma ficamos a saber que a última reforma do governo prepara-se para criar mais 40000 desempregados (e neste ambiente económico são permanentes) como “dano colateral”. Estranha forma de contribuir para a estabilidade.

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2 responses

  1. A família real não é nenhuma “entidade partidária”: é a instituição mais popular em Espanha, responsável pelo regresso da democracia e das autonomias regionais ao país, e que normalmente adopta um sábio silêncio na maior parte dos casos. Quanto à “ala liberal” a que se refere, trata-se de um punhado de gente que acha que só eles é que têm o direito a manifestar-se, que insultam sem qualquer pudor e muitas vezes com mentiras quem não partilhe a sua visãozinha ateísta e materialista, que acham que o Estado não pode gastar dinheiro com a segurança de um milhão de pessoas que vão encher Madrid (fariam a mesma coisa tratando-se de um investimento desportivo?), mesmo que contribuam decisivamente para a economia da cidade, e que gostariam provavelmente de voltar aqueles tempos em que as igrejas eram queimadas, e os padres torturados, enterrados vivos, enforcados e fuzilados aos milhares. É que repressão em Espanha não partiu apenas do franquismo, sabia?

    Agosto 17, 2011 às 9:50 pm

    • A família real é um quisto (metafórico) de conservadorismo no coração do sistema político Espanhol e está longe de ter a adoração que por cá querem vender. Só teoricamente é neutra. Nos sectores liberais (que só são considerados um punhado de gente em jantares da causa monárquica…) continua a ser visto pelo que sempre foi, o escolhido de Franco e o percurso que o país fez teve tanto de outros actores e episódios que dizer que é produto da mente do rei é anedótico.

      Quanto ao catolicismo já sabemos que tudo o que não reza pela mesma cartilha além de não ter “salvação” é sempre movido pelos valores mais baixos e mesquinhos. Isso tem um nome, demonização do adversário. É um jogo divertido mas eu já não tenho vontade para brincar ao “nós somos os bons e vocês todos são os maus”. Com todo o respeito ao leitor, que até se deu ao trabalho de comentar, falta-me a paciência para desmontar (de novo) a mentalidade de cerco que é incutida aos fiéis ultramontanos (que lhe permite deixar friamente insinuado que afinal o fervoroso terrorista católico estaria a fazer um favor a todos). Sobre este tema só tenho a acrescentar que considero a laicidade uma conquista especificamente ocidental, que gostaria de ver preservada e que a considero essencial à estabilidade da nossa estrutura social.

      O reajuste das contas da guerra civil terá que esperar por outra altura porque não é entre nós que essa conversa terá que ocorrer, é entre o povo espanhol. Houve um vencedor militar e uma vingança a todos os níveis que até hoje deixou marcas de ódio ao poder central e uma resistência acesa em quase todas as regiões às sobrevivências aberrantes do franquismo. É um tema longe de encerrado.

      Agosto 18, 2011 às 12:17 am

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