Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

O paradigma continua a mutar

Comecei este espaço a falar de um caso que na minha opinião reflectia uma tentativa mais ou menos transparente do sector conservador voltar a ter uma posição de relevo social. O que se calhar deveria ter deixado mais claro é que isso era apenas uma das muitas possíveis manifestações de um mesmo fenómeno. Quase que se poderia afirmar, se para estivéssemos para aí inclinados, que existiria um grupo conservador organizado em Portugal, fortíssimo, com laços políticos e financeiros que seriam verdadeiramente tentaculares que, tendo perdido em toda a linha (ao longo de quatro décadas) na revolução dos costumes e na batalha pela mente das pessoas, se retirou durante uns anos (alguns em exílio físico, outros só “espiritual”) mas que regressou rapidamente ao activo e estabeleceu bases de ataque permanentes em certos campos (dos quais nada está fora de consideração incluindo a ciência, a religião e a arte). Como é de conhecimento comum um paradigma não se muda rapidamente a não ser em situações de extrema pressão para a estrutura socioeconómica existente (que curiosamente é o nosso caso…) e normalmente começa com meia dúzia de iniciativas muito “low key” para poder medir a reacção popular (ou preferivelmente a falta dela) da segurança e conforto das sombras.

O ser perfeitamente adaptado às necessidades comerciais e da vida moderna.

Se o outro caso que me levou a este tema abordava o código de vestuário que se queria impor numa Universidade Portuguesa (à sombra de um estatuto legal algo dúbio que gerações de políticos ligados à esfera da educação se recusaram terminantemente a clarificar) este é sobre uma exposição de arte cancelada. E por motivos de várias ordens sou obrigado a admitir que é impossível traçar uma linha directa entre as duas coisas, para todos os efeitos são dois eventos díspares que têm apenas a particularidade de poderem encaixar numa determinada mudança de atitude pública face a certas liberdades. O leitor que decida o que fazer com a informação e a que conclusão chegar. Neste caso o artista, João Pedro Vale, vê a sua exposição cancelada pela companhia seguradora que o patrocinava. Segundo o artista porque lhe foi claramente dado a entender que era demasiado gay. A expressão usada foi “não compatível com os valores da empresa” o que nos deixa na dúvida se dizem isso a todos os clientes que lhe passam pela porta… “desculpe mas você não é compatível com os valores desta empresa”. Foi-lhe sugerida a hipótese de censura prévia pelos “stakeholders” (não especificados…) de forma a, supomos, torna-la mais “aceitável” (ao paladar de quem desconhecemos porque não sabemos especificamente quem se está a queixar). E assim começamos a standardizar até a produção artística segundo o padrão do Conselho de Administração. O gosto do homem comum (tal como a sua informação) passa a ser decido por meia dúzia de não-eleitos que não dão a cara).  Quase que parece um regresso ao capitalismo familiar na sua face mais opressiva. A do pequeno dono rural que quer controlar e moldar tudo e todos dentro do seu pequeno domínio.

Este provavelmente também teria que ser submetido a aprovação prévia...

Não estando provada a ligação dos eventos. Ou o envolvimento coerente da corrente conservadora. Ou de uma série de outras coisas que não se escrevem em documentos e como tal nunca serão passiveis de ser provadas. Resta-nos ver que num mês temos dois episódios mais ou menos significativos no sentido de regular o gosto e comportamentos gerais para um padrão mais aceitável para o conservadorismo de um determinado sector social. Para uma sociedade que se diz livre teremos ou um alto grau de conservadorismo reprimido ou estaremos a ser empurrados para determinados “corredores” de pensamento e comportamento como fomos noutros tempos. Pode ser mais subtil e ter como capa o direito (não sei se já foi considerado sagrado ou não…) de propriedade privada mas não o torna menos desagradável, opressivo ou indevidamente regulador.

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7 responses

  1. Não está em causa uma situação de discriminação. A Tranquilidade é livre de apoiar, ou não, quem bem entender. A Constituição obriga-nos a todos a não discriminar ninguém em função da sua orientação religiosa ou sexual. E bem. Mas isso não significa que sejamos todos obrigados a gostar da temática gay. Da mesma forma que não somos todos obrigados a gostar da temática religiosa católica, ou muçulmana ou budista. Vivemos em democracia e somos livres de gostar ou não. O politicamente correcto não passa de uma forma de tirania encapotada. Além disso, neste caso há outro factor a ter em conta, que é o bom gosto (ou a falta dele). Repare, eu adoro mulheres; será que posso colocar um cartaz gigante na porta da seguradora, com a imagem de uma vagina enorme acompanhada de uns bonecos a enfeitar?

    Agosto 25, 2011 às 1:55 am

    • A Companhia apoia quem quiser (a sacrossanta propriedade privada assim o permite. Ámen. O nome de Hayek seja louvado.) e eu, dentro da liberdade que ainda me resta (por enquanto), crítico as suas acções neste caso e as suas implicações espelhadas no texto. Além da ironia que é não parecerem terem problemas em aceitar “dinheiro gay” mas para obras sobre a temática parecem estar desejosos de as apagar do mapa. Controlo social a partir de uma empresa não obrigado. Já temos mais que suficiente disso.

      Numa nota à parte: Normalmente quem recorre ao “politicamente correcto” quer apenas voltar aos bons velhos tempos do insulto aberto e descriminação legal mas não tem coragem para afirmar esses preconceitos em voz alta. Ou os argumentos fazem sentido ou não fazem, recorrer à desculpa do “politicamente correcto” é quase uma admissão de falência intelectual daquilo que se está a defender. É um pouco como a Lei de Godwin.

      Agosto 25, 2011 às 9:45 am

    • A questão para si é: o que é a arte?
      O incrível é que ainda não li nenhum dos homofóbicos mascarados falar da obra artística de João Pedro Vale. É só a homossexualidade estar em discussão, que logo se atiçam os policias “dos bons costumes” a virem debitar razões que envergonham o pensamento honesto.

      Agosto 25, 2011 às 10:31 am

      • André Santos,

        Já aprenderam a não usar a expressão “bons costumes”. Sabem que ainda há muita gente viva que se lembra muito bem para que servia essa desculpa. Mas mesmo sem expressão parece haver uma tentativa de nos voltar a colocar no espaço mental dessa época.

        Agosto 25, 2011 às 10:57 am

  2. leopardo

    o artista conseguiu muita publicidade. Quem paga manda no seu dinheiro. Se quer uma exposição sobre a temática homossexual ou sobre a sardinha assada tem um bom remédio, pague-a.

    Agosto 25, 2011 às 10:28 am

    • O artista, como é óbvio, não se calou perante uma situação que brada aos céus. Aliás é isto que qualquer pessoa de bem que se visse numa situação similar deveria fazer. E mais uma vez digo se têm problemas com a população ou a temática gay é irónico que continuem a aceitar o seu dinheiro sem avisarem previamente que só o fazem sobre protesto e que eles “não são compatíveis com os valores da empresa”. Quanto ao resto do que disse já foi abordado no outro comentário (é curioso como se gosta de reduzir isto sempre a uma mera factura como se não houvessem outros aspectos bem preocupantes com este tipo de intervenções privadas).

      Agosto 25, 2011 às 10:54 am

      • Nicolau Wurmood,
        Queria ver alguém, depois da sua última frase, refutar as suas ideias tão bem estruturadas. 😉

        Agosto 30, 2011 às 9:47 pm

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