Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Enquanto os segredos continuam secretos

Parece existir um certo esforço concertado no sentido de forçar a nossa atenção nos escândalos ligados às secretas que parece exceder o normal ou recomendável. Não faço ideia do que se passou ou não passou mas isso passa ao lado da questão central. Qualquer investigação real a este tema será secreta (surpresa!) e como tal o cidadão que anda tão consumido em descobrir meia dúzia de teias de corrupção e tráfico de influência vai ficar na mesma, às escuras. O curioso é que ainda não parecem ter percebido que mesmo que o inquérito fosse sério, e competente, e houvesse coragem de publicar resultados, e prosseguir para julgamento e consequências políticas estes dois tipos de crime são: 1) tolerados moralmente pela maioria da população, basta ver o comportamento eleitoral na política local e 2) Impossíveis (ou quase) de fazer prova em processo judicial. Ou seja o resultado final de tudo isto só pode ser um silêncio ensurdecedor quanto aos factos em questão seguido de um vazio de consequências. Assim sendo não era melhor ir olhando para outras coisas que não estão a ocupar o “prime time”?

O cidadão bem informado a ler informação devidamente uniformizada.

Como o facto de a banca estar a fazer exigências superiores a 400 milhões de euros ao Estado para que este pague a dívida de uma concessionária de auto-estradas (aqui não há preocupação com a despesa? Pagamos como contribuintes quando entidades privadas nos mandam? Pelas razões que lhes apetecem? Não se investigam como esta “dívida” foi adquirida?). Como o facto de a sua prestação de casa ter subido 15 euros em média em Julho (e continuar a sua escalada ascendente). Como o facto de os serviços públicos essenciais para a sobrevivência humana continuarem a ser vendidos a um ritmo tão alucinante que nos impede de acompanhar o que se passa com cada processo. Como o facto de dentro da União Europeia continuarmos a sofrer pressões enormes para destruir o que resta das nossas protecções laborais (eu sinceramente não sei o que ainda existirá para “liberalizar”… acabar com o salário mínimo? Acabar com o horário máximo semanal? Mais cortes salariais arbitrários? Acabar com o contrato de trabalho de todo e ser pago ao dia ou à hora? Ceder o nosso voto à entidade que nos emprega??). Como o facto dos preços dos combustíveis continuam completamente desregulados e continuarem a subir sem a opinião pública ter noção se existirá qualquer relação entre o preço e o custo real?

Quanto mais se fala de algo mais urgente é dar a impressão que esse algo é real. Conhece palavra mais usada que "liberdade"?

Afinal há muito mais a acontecer a que não é dado nem metade do destaque do processo das secretas. Coisas que o afectam a si de forma clara, imediata e permanente. Basta prestar um pouco de atenção e deixar as histórias “reluzentes” dos espiões das quais você, caro leitor, nunca irá saber nada de relevante. Olhe para a sua vida e não deixe que o distraiam ou choquem ao ponto da apatia. A sua voz devia estar a ser ouvida e tida em conta na maioria (senão todos) destes temas e no entanto foi remetido para um papel marginal de ser sem cidadania plena cujo único dever é pagar e cuja única demonstração de patriotismo aceitável é bater palmas a este sistema.

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10 responses

  1. Realmente não há nada a comentar… infelizmente está tudo dito. Acredite apenas numa coisa; para a maioria dos cidadãos, o que aqui nos faz ver e que eles sentem na pele, são teorias da conspiração. Eu digo isto, porque vivo isso no mundo que me rodeia e infelizmente noto que o Tavistock Institute fez um trabalho brilhante na lavagem cerebral de massas. Revoltante ao ponto de não ter TV há anos e todos me perguntarem como é que consigo viver.
    Deixo aqui um artigo de um blogue que sigo há anos e que vai direito ao que diz.
    Quanto a uma notícia com uma gravidade como esta, ninguém vê nos meios de comunicação de massas. Simplesmente a entrar no Mundo de Orwell, 1984. Que será da minha filha?… 😦
    Obrigada pelo seu trabalho.

    Agosto 29, 2011 às 10:35 pm

  2. Veja só as mensagens neste blogue http://kafekultura.blogspot.com/ … O Problema é que eu querendo ser céptica, pesquiso e quanto mais pesquiso e cruzo informação, mais me assusto.

    Agosto 29, 2011 às 11:01 pm

    • Fada,

      Em resposta aos seus comentários:

      Acredito que pensem assim, é o que lhes foi dito durante décadas. O bom funcionamento só pode ocorrer, na cabeça deles, com uma estrutura mais ou menos como aquela que temos (que isso não funcione a seu favor parece ser algo que preferem negar em vez de encarar de frente e por enquanto ainda o podem fazer). Mas também não quero vender nada a ninguém. Se acham que estou errado e isto é um perfeito disparate são livres de me ignorar e seguir os senhores de costume na habitual obediência cega – depois perdem é o direito de andar em queixume permanente, as escolhas, boas ou más, são para se seguirem até às consequências.

      A notícia é muito relevante mas infelizmente não trás novidades… como já deve ter percebido pelos posts mais antigos sempre suspeitei que não mudámos verdadeiramente de regime, apenas alguns detalhes estéticos e outros de requisito para entrar na UE, e milagrosamente algumas melhorias sociais e políticas, é por isso que ao contrário do Clavis não tenho muito desejo de sair da UE e ver estas elites em acção sem qualquer tipo de supervisão exterior. O que será da sua filha? Bem não tenho poderes de adivinhação mas imagino que vai depender do que nós fizermos os próximos 10/15 anos com o país… Pode ser um futuro mauzinho tenho que admitir.

      Começa a existir um conjunto de pessoas, muito muito disperso, que até vê algumas coisas mas o problema é a famosa mentalidade portuguesa: “O problema não é meu porque ainda não me vieram bater à porta, o meu vizinho que faça qualquer coisa” (pensamento interior: se algo correr mal ele que arque com as consequências). Quer se queira ou não vivemos num clima anti-cívico e de medo.

      Agosto 30, 2011 às 8:53 am

  3. Obrigada pela sua resposta Nicolau Wurmood. Aqui sentimo-nos em casa. A visão do mundo é a mesma embora eu não saiba expressar-me com tanta eloquência e sabedoria.
    É um blogue com muita qualidade… eu diria de um phd
    Vejo um “discurso” sereno e sem o menor alarmismo, apenas a realidade pura e dura, o que é raro na internet.

    “Começa a existir um conjunto de pessoas, muito muito disperso, que até vê algumas coisas mas o problema é a famosa mentalidade portuguesa: “O problema não é meu porque ainda não me vieram bater à porta, o meu vizinho que faça qualquer coisa” (pensamento interior: se algo correr mal ele que arque com as consequências). Quer se queira ou não vivemos num clima anti-cívico e de medo.”
    Pois parece que as coisas más vieram para ficar. Seria bom que a classe média, médicos, advogados, professores universitários, cientistas, etc. começassem a movimentare-se contra o estado de coisas mostrando um caminho e uma directriz para a acção aos mais desprotegidos, mas parece-me que podemos esperar sentados, pelas iniciativas dos que passaram da classe média a ricos… ou para pobres.

    Agosto 30, 2011 às 6:36 pm

    • Ora essa mais uma vez eu é que agradeço os elogios. Tento manter alguma calma no meio disto tudo porque a última coisa que precisamos é de pânico. Isso leva a decisões estúpidas e há pessoas, já organizadas, a apostar na nossa estupidez para imporem a sua agenda.

      Penso que existe um problema de dois níveis, o cultural que já mencionei (não tenho obrigação de intervir como se a cidadania não obrigasse por vezes a isso) e o do egoísmo humano puro que tem sido elevado ao estatuto de virtude (e do ponto de vista governativo é porque impede qualquer acção conjunta por parte de quem apanha com o chicote). Vejo muito queixume (a crescer significativamente) mas nenhuma vontade de quebrar realmente uma rotina que a maioria parece achar algo confortável – quem sou eu para os desdizer… se estão bem… força continuemos com este teatrinho…

      Agosto 31, 2011 às 9:54 am

  4. Por falar em secretismos, veja o que está a acontecer nos EUA e que ninguém ouve falar. Parece que estão pior que nós… mas sabemos que quando lhes toca a eles…
    Neste caso estamos à mercê do pior também. Isto é assustador.

    Agosto 30, 2011 às 7:06 pm

    • Eu dou sempre desconto a este tipo de teorias internas deles… pode haver muitas razões para os factos (a serem sequer reais) e eu não tenho qualquer possibilidade de um dia descobrir a realidade por isso…fico-me por coisas mais “prosaicas” 🙂

      Agosto 31, 2011 às 10:00 am

    • Mas isso não é grande segredo… eles vivem divididos entre quererem uma UE com força para compensar o poder que lhes começa a falhar e uma UE essencialmente comercial e militarmente dependente, a questão é que penso que nenhuma das facções nunca teve força interna suficiente para impor pressões de forma constante num só sentido. Mais preocupante é os próprios europeus não fazerem ideia do que querem e quando sabem o querem (existem alguns casos de referendos…) são-lhes negados os direitos e vozes e a estrutura europeia ganha uma vida própria um poder que ninguém nunca legitimamente lhe conferiu.

      O grande problema, para nós portugueses, da crítica severa à UE, as suas instituições e o seu funcionamento é que isso incentiva as pessoas a pensar numa rejeição total do projecto e depois lá ficamos nós sozinhos com as nossas elites sem qualquer supervisão e isso é de longe o cenário mais arriscado para Portugal.

      Agosto 31, 2011 às 9:58 am

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