Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

A socialização como mentira e fuga

Se calhar o que venho para aqui escrever não vem como um choque para a maioria (ou talvez até venha, a certa altura neste caos torna-se complicado entender a maioria das pessoas) mas a mim choca-me o suficiente para lhe dedicar umas linhas. Os portugueses têm terríveis falhas no que diz respeito à sua ética pública (por oposição ao que fazem na sua vida privada, não interessa nada se reciclam ou gostam de gatinhos… exemplos esses que não passam de tentativas “filosóficas” baratas de fragmentar e privatizar o comportamento político) que os tornou co-autores da sua situação presente e que até este momento (ou em qualquer outro da nossa história) não parecem estar dispostos a fazer uma auto-análise fria que pudesse, com tempo, corrigir a situação. O que me chama mais a atenção é o facto de nada ser verdadeiramente levado a sério (e isto é fenómeno quase único na Europa). Rigorosamente nada consegue ser elevado a um nível superior à conversa de café (daquelas em que depois cada um vai à sua vida depois de ter mandado duas bocas sobre temas que desconhece intencionalmente) e nada foge a esse mecanismo de defesa psicológica primário que é a piada tonta. O mundo colapsa aos pés dos portugueses mas não faz mal porque é sexta e o jantar com os amigos vai-os animar de certeza. Como se no Sábado de manhã o seu mundo não estivesse tão destruído e arruinado como sempre, como se fosse possível uma fuga da realidade através do contacto social. A socialização “excessiva” funciona quase como uma droga de escape que os portugueses não conseguem largar ou pelo menos abrandar o consumo.

A segurança de saber que os nossos pares não podem estar todos errados...

Esta socialização extrema não só inibe a ansiedade face ao desconhecido mas, como qualquer pensamento de grupo, tende a inibir a individualidade e o desejo de diferenciação. De certa forma grande parte da população poderia ser comparada a adolescentes que apenas querem assegurar a sua pertença ao “grupo” (seja ele qual for) e a perpetuação das poucas coisas que realmente os definem (daí nesta sociedade a individualidade genuína, complexa por definição, ser estigmatizada como excentricidade ou mesmo loucura, conforme o caso e o grau de ameaça à estrutura socioeconómica como um todo). Neste verdadeiro submundo que criámos para nós próprios (e onde certos grupos gostam de nos manter, entretidos com personalidades vácuas e inconsequentes de carácter) vigoram certas regras muito próprias. É por isso que a palavra do português (até num contexto puramente de negócios) vale tão pouco. Ele espera mentir e que o receptor da mensagem entenda que ele está a mentir e aja de acordo com essa informação. A seriedade nem é tomada como opção. O mesmo se aplica à política onde se fazem as “escolhas menos más”, mais uma vez a ideia de existir um projecto sério (nem que seja em potência) nem sequer entra na mente do eleitor. É um jogo de mentiras que se estende dos palacetes de Sintra e Cascais até ao nível mais corriqueiro do camionista a tomar uma cerveja com os amigos na tasca.

Já tirou a maçã para poder finalmente descobrir quem você é?

Claro que tudo isto nos torna, aos olhos de turistas e nacionais mais optimistas (ou bem servidos), uns tipos castiços com uma cultura interessante de explorar. O problema caro leitor é que isto não é um safari ou uma expedição antropológica, são as nossas vidas. O tecido da realidade social foi tão corroído pela nossa incapacidade de lidar com a verdade (e daí o recurso sistemático à mentira a todos os níveis) que corre o risco de se desfazer com um sopro forte. O grupo social, que é onde todos parecem procurar refúgio, não pode afogar as nossas mágoas porque as partilha e não nos pode salvar porque em primeiro lugar não quer mudança e em segundo partilha a mesma triste sina que nós. Ninguém se salva. Mais importante que isso, o grupo não nos pode fornecer um álibi moral. A nossa responsabilidade nunca será diluída pela multidão. Somos responsáveis pelo que acontece no nosso país. Somos responsáveis pelas acções que tomamos e por aquelas que não tomamos. Ou aceitamos responder perante o tribunal da história (que não quer desculpas! Quer factos e razões para o actual estado de coisas) ou não merecemos sequer, o pouco poder simbólico que nos concederam, o voto.

PS: Sei que para a maioria das pessoas colocar as coisas nestes termos (obrigações de “ética pública” ou “honra pessoal”) é algo incompreensível, nem sequer entendem os termos em que se faz a discussão, mas eu não poderia ser “eu” sem valorizar estes elementos e dizer estas coisas.

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15 responses

  1. Nicolau Wurmood,
    Esse artigo está fabuloso! Sem mais comentários pois está tudo dito! Parabéns!!!
    Apenas lhe digo que está aí a razão de me ter isolado. É melhor assim… especialmente para os outros, pois eu até podia com a indiferença… eles é que não podem comigo por lhes chamar a atenção exactamente para o que aponta e por isso, marginalizam. Acredite que não consigo ter uma conversa séria e responsável a não ser com o meu marido e filha! Vejo-me “obrigada” a comentar em blogues, para fazer o que não posso ao vivo!Credo que País!

    Setembro 7, 2011 às 8:06 pm

    • Obrigado mais uma vez pelos elogios Fada. Realmente a maioria das pessoas que não andam pelo “mainstream” acabam por se isolar um pouco para evitar o que encaram como um mar de loucura e negação que conseguem à sua volta. O mais irritante é que eu conheço pessoas que em teoria subscreveriam o artigo e depois vivem a sua vida em completa oposição ao que dizem defender – provando o artigo de forma não intencional! É do mais frustrante que pode existir.

      Setembro 7, 2011 às 11:37 pm

  2. Os sectores do sistema “doutrinário” servem para desviar as massas “plebéias e reforçar os valores sociais básicos da sociedade de consumo: a submissão, a passividade, a autoridade, a virtude fundamental da ganância e ganho pessoal, a falta de preocupação com os outros, o medo de inimigos reais ou imaginários, etc O objectivo é manter o rebanho desnorteado . É desnecessário para eles preocuparem-se com o que está acontecer no mundo. Na verdade, é indesejável; se vir muito da realidade esta pode mudá-los definitivamente. É isso que está a acontecer com a minha filha… é por isso que sou considerada uma mãe má; porque tudo o que sei, que é muito pouco, mas por doloroso que seja, transmito à miúda que para os outros, com 21 aninhos, não devia ser exposta a estas loucuras, muito pelo contrário, segundo eles deveria ser poupada!
    Lê todo o seu blogue com o maior interesse e diz que aprende muito! Obrigada.

    Setembro 7, 2011 às 10:49 pm

    • Ficaria satisfeito se as pessoas se começassem a preocupar com elas próprias! Já nem falo num sentido de bem-estar geral! Parece que não querem mesmo saber, enfiaram a cabeça na areia e para eles o assunto está resolvido.

      Com 21 anos???? Lol está em mais que hora de aprender umas coisas! Dê-lhe todas as armas e informação que puder porque poucos mais o farão (eu tento aqui, mas tenho os meus limites). No que poder fazer não fujo aos meus deveres cívicos.

      Setembro 7, 2011 às 11:39 pm

      • Sim, tem 21 e como vê os outros acham que ela está com a cabeça feita das loucuras da mãe. Obrigada pelo apoio e grande ajuda Nicolau.
        Depois de ler este texto, virou-se para mim e disse :- É Verdade tudo o que aqui está! Agora entendes mãe quando eu digo que vou ao café socializar? Quero dizer que para ficar estúpida durante uns minutinhos, vou ao café socializar, porque para ter conversas sérias nunca pode ser em grupo, tem de ser apenas com uma ou duas pessoas… e tu teimas sempre em dizer que vou ter com os meus amigos, mãe.
        E não é que a miúda diz sempre, vou socializar ou estupidificar-me um bocadito, já volto???? LOOOL!!

        Setembro 9, 2011 às 12:03 am

  3. Otus scops

    “Esta socialização extrema não só inibe a ansiedade face ao desconhecido mas, como qualquer pensamento de grupo, tende a inibir a individualidade e o desejo de diferenciação.”
    Nicolau, só por esta frase já merece uma estátua, muito bom e lúcido!

    aplicação da cartilha do nº 1 da estratégia de manipulação mediática anunciada e enunciada por Noam Chomsky:

    As 10 estratégias de manipulação mediática
    1. A estratégia da distracção. – O elemento primordial do controle social é a estratégia da distracção, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

    Setembro 8, 2011 às 4:38 pm

    • Obrigado pelo elogio Otus!

      Zizek tem um nome para um conceito bastante similar a esse que é particularmente válido na nossa era de redes sociais, a interpassividade, ou seja, a multiplicação de actos (muitas vezes virtuais) que servem de substituto emocional ao ter que agir no “Real”, contribuindo desta forma para a manutenção do status quo.

      Setembro 8, 2011 às 6:35 pm

  4. Nem me diga isso Nicolau!… um substituto para o Mundo real?! Mas isso é muito mau… Agora que tenho visto bloggers que decidem criar um blogue para uma causa e depois na vida real serem diferentes, isso já vi. Daí que como posso eu interferir? que posso eu fazer?

    Setembro 8, 2011 às 11:56 pm

    • Fada,

      Os blogues são plataformas algo diferentes do resto… inferiores (em muito) aos livros mas superiores a qualquer rede social pela capacidade de transmitir volume útil de informação e proporcionar espaço de diálogo mais ou menos livre e gratuito. Agora que a esmagadora maioria das pessoas só existe no “virtual” é um facto. Na sua vida “real” seriam incapazes de criticar o sistema mesmo estando sozinhos numa sala fechada.

      O combate à virtualidade teria que passar pela “associação cívica” mas mais uma vez tirando projectos muito concretos (de agenda dúbia como os partidos políticos ou a Igreja) ou agrupamentos ultra vagos nos seus objectivos (as manifs que vão sendo promovidas) não há pontos aglutinadores naturais na sociedade portuguesa, daí ela ser tão frágil e tão submetida às suas elites. Uma questão interessante é saber se portugueses quereriam esses pontos de união a sério ou se até isso seria um compromisso demasiado forte para alguém que vive na sociedade da mentira e virtualidade.

      Setembro 9, 2011 às 11:46 am

  5. É… infelizmente tem toda a razão… é terrível. Se fosse há umas dezenas de anos atrás, eu estaria já num núcleo de rebeldes contra os conspiradores de certeza, mas agora tal não é possível. Começa logo pela reacção de negação das pessoas à realidade e isso está visto.

    Aqui vai um blogue que acho conter boa informação… http://informacaoincorrecta.blogspot.com/

    Setembro 9, 2011 às 12:23 pm

    • Fada,

      Pois… toda a gente acha que nada é possível e como tal fazem o mesmo. Nada. E a situação degrada-se. Agora… quando se bater no fundo do poço e se começarem a apontar responsabilidades vou dizer que é culpa de quem? Do meu vizinho? Ele tem mais responsabilidade de fazer seja o que for que eu? Ninguém sente que seja sua responsabilidade fazer nada. Pois é…

      Setembro 9, 2011 às 1:52 pm

      • Não posso saír de caçadeira ou metralhadora na mão e obrigar os meus congéneres a associar-se a mim e a terem as mesmas ideias que eu… ou seja, a acreditarem que o que eu digo é a verdade, quando para eles não passam de teorias da conspiração…
        Eu bem tento, até com pessoas que têm blogues para difundir essas mensagens, mas na vida real, está quieta… A minha responsabilidade para já, é educar a minha filha na responsabilidade, Quanto ao pertencer a um movimento cívico, qual seria o indicado? O Nicolau sabe responder-me a esta pergunta?

        Setembro 9, 2011 às 7:51 pm

      • Não leve a coisa a peito porque não era um apontar de dedo pessoal 🙂

        Sem organizações e códigos com grande poder aglutinador nada feito. O problema é que não sei se mesmo estando as coisas neste estado os portugueses estariam interessados em subir um pouco a fasquia ética e da exigência pessoal…. As pessoas habituaram-se a uma inimputabilidade pessoal confortável.

        Setembro 9, 2011 às 8:33 pm

  6. Pedro

    E a falta dos hábitos de socialização à sul da Europa é substituída no norte por sessões de alcoolismo quase ritual às sextas e aos sábados.

    Setembro 13, 2011 às 12:21 pm

    • Pedro,

      Fantástico. É pena eles serem potências (cada um à sua escala) e nós estarmos (mais uma vez) em vias de ter decidir se queremos sequer continuar como entidade soberana autónoma. Ligeira diferença não? Venham esses casos de alcoolismo (que por acaso até já temos em doses razoáveis…) se isso for o necessário para acabar com alguma bandalheira cultural (não gosto do termo mas realmente não há outro, bandalheira).

      Setembro 13, 2011 às 6:36 pm

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