Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Quem manda aqui

O governo alemão fez hoje uma séria ameaça a um outro Estado-Membro da União Europeia (deve ser a primeira vez desde a segunda guerra mundial que a Alemanha ameaça sanções, mesmo que sejam de natureza económica, de forma directa e unilateral contra outro país europeu). A Grécia vai ser deixada à deriva a não ser que se assine uma rendição incondicional aos seus credores internacionais (nomeadamente a Alemanha) independentemente das suas razões para a não implementação de certas medidas (como por exemplo sistematicamente o FMI propor cópias de sistemas anglo-saxónicos e nórdicos em países que não têm nem a mesma cultura, história ou funcionamento – há razões para os sistemas terem evoluído de forma diferente e também há razões para alguns executivos europeus e sectores empresariais associados estarem tão desejosos de seguir a receita). Essencialmente Wolfgang Schaeuble (ministro das finanças alemão) entregou aos gregos a sua versão do mapa cor-de-rosa deixando no ar a ameaça da falência do país, o caos social (como se eles não estivessem já a viver nessas condições e esse tipo de ameaça tivesse peso) e possível instabilidade geopolítica na região (para quem está mais desatento: militarmente a Grécia é uma potência regional algo relevante) que teria que ser colmatada por outra potência, benemérita claro, que por acaso tivesse interesse em expandir a sua influência na região (conseguem lembrar-se de alguém?). Nem é preciso dizer que isto serve de aviso a todos os outros países que estão ou possam vir a estar no mesmo barco, ou se faz à Alemã ou não se faz de todo e deixa-se as nações “aliadas” cair como dominós.

Alguém é servido? Uma dose de realidade para alguém?

Claro que há razões para a Alemanha estar a tomar estas atitudes leoninas. Em primeiro lugar conseguiram “raptar” (aliciar talvez seja um termo mais correcto) a França para o seu lado oferecendo-se para tapar as graves falhas económicas do país em troca do seu apoio político incondicional (indispensável nesta fase). Em segundo lugar sabem que a posição que ocupam nos mercados mundiais só pode decair com o tempo (os mercados emergentes têm consistentemente substituído a produção industrial alemã em quase tudo, começaram pela indústria pesada e agora já estão nos componentes de plástico – há mesmo produtos que são totalmente tecnologia alemã mas que não são de facto produzidos na Alemanha, ou sequer na Europa) o que quer dizer que o seu poder negocial está provavelmente num ponto máximo ou próximo disso. A altura ideal de estabelecer um novo equilíbrio continental, que os beneficia naturalmente. Em terceiro, e último, lugar as novas gerações alemãs têm uma mentalidade curiosa que por um lado já não está refém do complexo de culpa do período nazi e que por outro lado compreendeu muito bem que a dinâmica das nações continua a ser uma de conflito descarado, aberto quando a disparidade de poder é significativa (assegurando simultaneamente uma vitória rápida e um espólio compensador) ou discreto e económico quando o primeiro tipo de abordagem levaria a resultados incertos ou com custos demasiado elevados. Nesse aspecto são quase único na Europa já que muitos, especialmente os países periféricos, levam mesmo a ideia de algum grau de irmandade europeia a sério.

Para quem ainda não percebeu: nós não somos o futuro.

O que é talvez mais estranho é que estas declarações venham no seguimento da admissão, da própria chanceler, que se o Euro falhar a Europa, como projecto, está condenada. O que significaria mais uma vez o regresso a um manto de retalhos políticos mais ou menos frágeis contra outras potências (próximas ou distantes, antigas ou emergentes) e quase impossíveis de controlar ou coordenar. Dado este facto a arrogância de Schaeuble parece um pouco deslocada já que parece que quem tem as cartas na mão são os gregos, que podem fazer este castelo de cartas cair de um só sopro. É um bluff bem atempado (mesmo na altura da Grécia receber outro pagamento) mas parece não ter mesmo qualquer substância já que em termos de perdas geoestratégicas seriam os alemães a pagar a factura mais elevada a longo prazo e a ver as suas esperanças de relevância global esmagadas ou pelo menos seriamente danificadas e adiadas.

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10 responses

  1. Otus scops

    “…cópias de sistemas anglo-saxónicos e nórdicos em países que não têm nem a mesma cultura, história ou funcionamento…”
    apesar de ser verdadeiro, não será um pouco condescendente e desresponsabilizador???
    então os mediterrânicos não querem ter o nível de vida dos do norte??? então tem que fazer como eles senão não dá.
    ou então assumimos um corte, não podemos estar no clube ou deixa-mo-nos governar por “eles”.
    veja-se o exemplo da Auto-Europa, ali existe concertação social à alemã e a coisa funciona!!! são exemplos bons, para seguir, porque o pior que a nossa sociedade tem são “apenas” os lideres e os patrões (os únicos da OCDE que tem habilitações académicas médias inferiores à dos empregados…).

    de resto concordo, mais um estupendo exercício de lucidez.

    Setembro 8, 2011 às 4:47 pm

    • Otus,

      É discutível que essas sociedades sejam 100% daquilo que desejamos para nós próprios, há muitos problemas que costumam ficar por mencionar. Mas mesmo de um ponto de vista mais limitado, de reformas de instituições, há que ver que não se pode aplicar a mesma receita em todos os lados sem ter em atenção as condições locais porque senão o resultado costumam ser instituições abastardadas com formas “estéticas” e tiques culturais lá de fora mas com todos os vícios que sempre tiveram, a solução “certa” tem que a certo nível sempre ser interna e algo única (quanto mais não seja porque somos os únicos verdadeiramente interessados). E convém também não esquecer que a cultura quer se queira ou não influencia a forma como as coisas são feitas (aceites ou boicotadas).

      Setembro 8, 2011 às 6:43 pm

      • Otus scops

        NW

        quando diz que “É discutível que essas sociedades sejam 100% daquilo que desejamos para nós próprios” estou (mais uma vez) em total concordância.
        eu não quero ser alemão (aliás, mesmo que quisesse nunca o conseguiria), quem dia alemão diz essas civilizações mais avançadas (por acaso sou fã dos holandeses) mas reconheço que existe muita coisa que podíamos adoptar e/ou adaptar para nós.

        mas percebo quando diz que a transplantação cultural pode não funcionar.

        Setembro 9, 2011 às 1:39 am

  2. Mais um artigo muitíssimo bom, para não variar e graças ao Nicolau, este blogue é fabuloso!
    Mas então, o apoio político francês indispensável nesta fase e depois?! Chuto na França e outra guerra nos mesmos trâmites que a 2ª Guerra Mundial? Invadem a França ou como se livram os alemães dos franceses?
    Algo de muito grave irá acontecer, pois se já temos cá a força policial Eurogendforce que pode estar até debaixo da alçada do FMI … O Presidente da EU Herman van Rompuy numa carta memorando, enviada aos governos momentâneos dos estados membros da União Europeia, chama a atenção para a necessidade da criação de um “new regime of economic governance”.
    Visto haver muitos sinais de que se pretende colocar o Fundo Monetário International acima da União Europeia, parece ter-se criado a EGF não a favor da segurança interna das Nações da Europa mas para impedir aos europeus caminhadas próprias.
    Ao que parece, a EGF está a ser preparada para bater nas cabeças dos europeus que ainda se identificam com as suas pátrias mães e não desejam ser escravos de um sistema global!
    Depois disto o MNE Paulo Portas dá a conhecer que outra força da NATO vem para cá, a Strike Force! Que diabo se passa, pois desde que entrou cá o FMI e foram estabelecidas medidas de “aperto do cinto” até inconstitucionais?! os portugueses ainda e vergonhosamente não fizeram nenhum protesto! Mansinhos como cordeiros!… Que se estará a passar?!

    Setembro 8, 2011 às 11:41 pm

    • Para quê entrar em qualquer tipo de animosidade, mais ou menos, aberta quando a nossa posição já é dominante? Penso que será este o pensamento da Alemanha, e tem funcionado.

      O que tenho a dizer sobre a credibilidade de ceder mais soberania à União é o seguinte: perderam-na toda quando não referendaram nada do que foi feito na última década. Não têm qualquer legitimidade popular e sabem-no. Por isso é que tudo é sempre vendido como solução técnica, para não precisar de selo de aprovação pública. Quanto às jogadas de poder internas (das várias organizações internacionais) é-nos irrelevante… saímos sempre a perder seja qual for a combinação.

      Setembro 9, 2011 às 11:38 am

  3. Veja esta solução … isto está mesmo assustador!

    banca controlada pelos políticos da NWO, um sonho neo-nazi do novo mundo pós-9/11

    A banca europeia pode precisar de até 92 mil milhões para responder a reestruturações de dívida pública, escreve a Goldman Sachs. É esta a principal mensagem de um ‘research’ do Goldman Sachs que está a condicionar a negociação nas bolsas europeias, nomeadamente no sector financeiro, que perde mais de 2%. A Goldman construiu um cenário de choque no mercado de dívida soberana para testar o comportamento da banca europeia nessa adversidade. A conclusão é a de que 38 bancos poderão precisar de aumentar capital entre 30 a 92 mil milhões de euros para responder a reestruturações de títulos de dívida pública que têm nos seus balanços. E nos casos das instituições financeiras gregas, italianas, irlandesas, portuguesas e espanholas haverá dificuldades para, sem o patrocínio do Estado, conseguir levantar esses fundos. Isso pode significar nacionalizações: http://amafiaportuguesa.blogspot.com/2011/09/reestruturacao-da-divida-implica.html

    O Tratado de Lisboa foi para isso mesmo… retirar a Soberania aos Países…. e colocá-los na mão dos banqueiros. Ninguém ou quase sabe do que trata esse Tratado… e pior, não ligam ao que se está a passar como se tudo fosse normalíssimo.

    Setembro 9, 2011 às 12:15 pm

    • Fada,

      Aí começamos a ter um problema (pelo menos para mim)… que é a fusão de alguns elementos de realidade com, o que eu considero serem, teorias da conspiração. Não se deve encarar toda a informação que se encontra a “face value” porque ela não é toda da mesma qualidade.

      ps: só uma pequena nota sobre o tratado, como já tinha dito todo o edifício precisa desesperadamente de uma gota de aprovação pública se não for para ruir sobre o peso da desaprovação colectiva em tempo de crise. Mas a verdade é que se fez essa aprovação mais ou menos legal e as pessoas calaram-se. Quem cala consente não diz o ditado?

      Setembro 9, 2011 às 12:47 pm

  4. Sim, quem cala consente, mas como a maioria anda a ver navios a passar, nem quis saber do que se tratava e acreditaram nos aldrabões dos políticos do corrupto bloco central e em sua exª o mentiroso Sócrates. agora temos isto e não é conspiração:

    A Constituição Europeia ( Tratado de Lisboa) foi um movimento para criar um super-Estado europeu, a criação de um ministro das Relações Exteriores da UE e com ele, a política externa coordenada, com a UE a assumir o lugar da Grã-Bretanha no Conselho de Segurança da ONU, representando todos os Estados membros da UE, forçando as nações para “activamente e sem reservas” seguirem uma política externa da UE. Estabelece o quadro para criar uma política europeia de defesa, como um apêndice ou separada da OTAN, a criação de um sistema de Justiça Europeu, com a UE a definir “padrões mínimos para crimes e estabelecer penas”, e criar um asilo comum de imigração, e também entregar à UE o poder de “garantir a coordenação das políticas económicas e de emprego”. A legislação da UE supera todas as leis dos Estados-Membros, tornando assim os países membros, em meras províncias dentro de um sistema de governo centralizado federal!!

    Mario Draghi é o atual presidente do Banco da Itália, bem como um membro do conselho do Banco de Compensações Internacionais – BIS a (o banco central dos bancos centrais do mundo). Numa entrevista publicada no site do BIS, em março de 2010, Mario Draghi afirmou em resposta à crise grega:- “Na área do euro, precisamos de um governo económico mais forte e que seja mais coordenado, com reformas estruturais e mais disciplina.” Talvez sem surpresa, Mario Draghi tem sido apoiado pelos ministros das finanças da zona do euro para ser o sucessor de Jean-Claude Trichet no Banco Central Europeu, que Trichet terá de abandonar em Outubro de 2011.
    Agora sabemos para que são as novas forças policiais, tanto federais como da NATO.

    Setembro 10, 2011 às 5:06 pm

  5. pedro

    Às vezes, as virtudes estrangeiras são mais propaganda do que efectiva realidade. Por exemplo, nos países anglo-saxónicos fala-se de “corruption” a propósito dos países do sul da Europa; quando falam exactamente dos mesmos fenómenos nos países deles, falam de “networking”. Cuidado com a autoflagelação…

    Setembro 13, 2011 às 11:25 am

    • Pedro,

      De notar que a minha análise não coloca nenhum país no pináculo moral (não tenho qualquer ilusão a esse respeito) nem aponta para o modelo anglo-saxónico como mais desejável, apenas constatei que as instituições dessas culturas têm uma tendência, destrutiva para o hospedeiro, de quererem replicar à força os seus modelos económicos, sociais e culturais em casa alheia.

      O meu eufemismo favorito, de momento, para a corrupção é “lobbying”…

      Setembro 13, 2011 às 6:30 pm

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