Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Golias e o défice de atenção

Esta administração americana é uma criatura curiosa. Nascida de uma promessa de mudança que era perfeitamente incapaz de cumprir (quanto mais não seja pela forma que o processo eleitoral americano toma) e que de facto nunca tentou, de forma séria, implementar. Apelou a todos os grupos que tinham queixas legítimas contra os republicanos (e a lista é imensa…) e na altura de decidir o que seria mesmo feito chamou os mesmos senhores do costume, de WallStreet, à Casa Branca para cozinharem uma solução que salvasse a “economia”. Nesta altura temos que definir o que é a economia; não deveria ser necessário definir o que se entende por este simples termo mas nos tempos que correm em que os discípulos de Friedman controlam instituições estatais, económicas e mesmo de ensino (incluindo em Portugal onde monetarismo passa por ser quase teoria económica universal) não temos outra escolha. É bastante simples, a economia inclui todas as actividades de bens ou serviços que não sejam de mera natureza financeira (cujo único papel saudável é como auxiliar de outras actividades), ou seja que pertençam à economia real, que acrescentem valor e que acima de tudo não sejam meros jogos especulativos (perdão modelos econométricos altamente fiáveis…). A solução está mais ou menos à vista e tem tudo a ver com Portugal. Foi decidido que os reguladores falharam (ou seja o Estado foi denegrido sem se entenda que muitos reguladores da economia americana não são estatais, mas representativos da indústria em causa) e que o povo americano se tinha endividado irresponsavelmente e teria que pagar o preço por isso (já ouviu isto noutro lado qualquer não é verdade? Parece que deve ter seguido um mesmo memorando para vários países).

O grande ícone da miséria global

Não tendo resolvido os seus problemas internos (nem pode resolver sem mudar estrategicamente o grupo de pessoas que quer privilegiar, ou seja, sem voltar a apoiar a classe média em detrimento dos 10% mais ricos da nação coisa que não está para breve a julgar pelos sinais) virou-se agressivamente para o exterior (e digo agressivamente porque qualquer potência anterior teria tentado fixar fronteiras e fortificar o interior antes de mais expedições diplomáticas, comerciais ou militares) e quis resolver o conflito na Palestina acabando apenas por irritar os dois lados ao ponto de ninguém o querer como mediador. Os israelitas ficaram furiosos de ele querer considerar as suas fronteiras de 1967 (à altura da Guerra dos Seis Dias) como referência e os palestinianos desconfiados não só da independência do negociador como da sua falta de vontade para forçar Israel às tais fronteiras com as quais se tinha publicamente comprometido. Também não conseguiu dar resolução a este impasse e é pouco provável que o venha a fazer mas claro que isso não impediu a administração de iniciar mais uma iniciativa internacional de grande envergadura. Agora envolveu-se, directa e indirectamente, numa série de processos de “democratização” do Médio-Oriente e Norte de África sem ter anunciado muito bem em que se justificava (recuso-me sequer a discutir a questão dos direitos humanos num país que não cumpre a própria promessa de fechar centros de tortura). Há várias formas de interpretar isto mas existem duas que parecem mais interessantes.

A fantástica teoria das redes sociais como motores ou meios de revoluções é das noções mais divertidas e ridículas que tenho encontrado nos últimos tempos. É bom para o ego de quem tem o rabo no sofá, carrega num botão e depois quer dizer que fez uma revolução 🙂

Cenário 1 (o mais provável): Obama está a continuar uma política que vem desde o inicio do seu país que é a exportação do seu modelo político como forma de dominação cultural e política de novos territórios que passam a estar ligados a todos os níveis a uma nova metrópole. E escolhe esta altura porque provavelmente é a última hipótese que os Estados Unidos terão nas próximas décadas de fazer ameaças militares em muitos pontos geográficos de forma simultânea e serem levados a sério, ou seja, antes que a dívida esmagadora e o valor real do dólar venham a público e arrastem o país para uma relativa impotência internacional e um grau de caos interno considerável. Pode haver também ambições quanto à implementação no terreno do AFRICOM como posto avançado permanente na região.

Cenário 2 (menos provável mas estrategicamente mais ambicioso): Sabe à partida que nenhum destes regimes tem qualquer hipótese de sobrevivência se forem desligados da “máquina” e o único objectivo disto é não só criar sementes de um determinado grupo de ideias (pró-americanas) como deixar metade da região de tal forma dividida internamente que isto resulte numa série de conflitos internacionais e guerras civis de longa duração que ninguém conseguirá gerir. Pondo as coisas de forma estratégica, estando fragilizados na sua capacidade de projectar poder a todas as regiões interessantes negam o acesso a essas regiões a todos os outros jogadores por pelo menos alguns anos ou décadas.

would you like to supersize that?

Para tornar as coisas interessantes vamos ter umas eleições americanas daqui a relativamente pouco tempo e mudando ou não de presidente será interessante testar estas hipóteses aqui expostas e verificar a progressão (ou abandono) da classe média local. Sinais do que nos espera.

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