Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

A servidão subsidiada

Quando pensamos que as coisas não podem piorar ou que não podem sair mais ideias absurdas de um governo eles tendem a surpreender-nos, pela negativa, e insistem em lançar mais pacotes todas as semanas que fariam os anjos chorar. Com um desemprego real que deve rondar os cerca de 1 milhão de trabalhadores (as estatísticas mais simpáticas que circulam tendem a excluir um certo número de categorias de pessoas que ainda são, de facto e para todos os efeitos, trabalhadores sem ocupação) vai ser lançado um novo programa piloto que visa pagar às empresas para empregar quem não tem ocupação há mais de 6 meses. Sim leram bem. As empresas vão passar a ser pagas a 420 euros mensais por cada desempregado de longo-prazo que “acolherem” (o mesmo que o dito desempregado recebe de subsídio). Não há qualquer referência ao nível de qualificação do desempregado o que provavelmente quer dizer que são pagos todos pelo mesmo valor, ou seja, é possível desde o momento em que este programa for lançado que uma empresa seja paga para obter um técnico qualificado que precisa de qualquer forma. O dito técnico no entanto é forçado a aceitar uma remuneração abaixo do salário mínimo (porque afinal de contas é contabilizado como uma compensação social e não um salário – como é bonito brincar com as palavras).

As saudades que a pobreza abjecta do antigamente gera no sector conservador…

Mesmo sendo anunciado como uma espécie de programa de estágios de longa duração qualquer pessoa que tenha tido o mais leve contacto, directo ou indirecto, com essa instituição (o estágio profissional) sabe que isso em Portugal equivale a um carrossel que não garante nem emprego nem futuro a ninguém (e agora pelos vistos nem salário, só uma mísera prestação social). No dia que sai um estagiário entra outro para a mesma vaga sendo o lugar nunca preenchido e nunca entrando ninguém para os quadros da empresa – agora claro passa a existir a vantagem de não se tratar de jovens de 21 anos mas sim de, potencialmente, técnicos que já têm anos de formação, experiência e hábitos de trabalho. A ser realmente implementado nesta fase piloto (a 35000 desempregados de longo termo, ou seja, cerca de 3,5% da população de desempregados reais) e a não existir contestação suficiente corremos o sério risco de isto se tornar a forma de contratação preferencial em Portugal nas próximas décadas (alguém acredita que o empresário português não vai abusar e esticar este regime até ao limite?).

Como todos sabemos as ajudas estatais a certos sectores servem apenas o bem comum! E quem diz o contrário não sabe os sacrifícios exigidos aos nossos magnatas especulativos…

Claro que nos próximos dias e semanas estão previstas dezenas (nas palavras do ministro da economia) de novas medidas nesta área e se fossemos algo cautelosos poderíamos dizer que quase que parece que se quer diluir o efeito mediático que uma bomba destas poderia ter na sociedade. Mas para o caso de isto não passar o crivo da opinião pública já foram lançadas para o ar novas ameaças quanto à gravidade crescente da crise e como consequência lógica, não explícita, a necessidade do trabalhador se sujeitar ainda mais, o que pode incluir adicar do conceito de salário, aceitar a prestação social como substituto e ainda subsidiar (provavelmente através de impostos indiscriminados ao consumo) as empresas que lucram como este novo sistema. É curioso que em medidas que era suposto ajudarem o cidadão comum (esta nem na teoria ajuda mas está a ser vendida como tal) este governo propõe-se gastar a fabulosa soma de 100 milhões de euros mas no entanto está mais que disposto a enterrar a título perdido 12 mil milhões num sistema bancário que cavou a sua própria sepultura. Até nestas coisas se vê o que é realmente importante.

 

Adivinhem quem está de volta?

Ps: Entretanto os factos estranhos ou quase que intimidatórios não se limitam a esta medida laboral, temos mesmo uma semana em grande. Temos o sector televisivo estatal a misteriosamente abster-se de licitar conteúdos de audiências garantidas, aparecem, mais uma vez em alturas chave, estudos que visam reforçar a normalidade da ideia de privatização de certas áreas vitais e é dado mais um passo de agressividade conservadora religiosa que silenciosamente cria as bases sociais para poder voltar em toda a sua força – mais um passo na reconstrução da sua legitimidade pública.

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10 responses

  1. Os seus artigos são de um realismo acutilante. No fim de os ler, só me apetece chorar…
    Portugal resolveu fazer jus ao nome do criminoso Tratado de Lisboa e pelos vistos, o nosso governo faz questão de ser o aluno exemplar!
    Neste momento tenho vergonha de ser portuguesa. A coincidência é que para qualquer lado que me volte na web, as notícias e os apelos são similares. Deixo aqui um excerto de um artigo do jornalista de investigação de Jonh Pilger, veja as semelhanças:

    (…)Há quatro anos atrás a Unicef publicou uma tabela relativa ao bem-estar das crianças em 21 países industrializados. O Reino Unido encontrava-se no fim da tabela. Um quinto das crianças britânicas vive na pobreza: um número que se prevê aumentar no ano das Olimpíadas. A prioridade da classe política britânica, independentemente do partido, é fazer o cidadão comum pagar o “défice”, termo cínico e capcioso usado para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.

    É um extremismo que castra as sociais-democracias, que foram a redenção europeia do pós-guerra. O empobrecimento forçado da Grécia, com as exorbitantes contrapartidas exigidas pela banca alemã e francesa, levará provavelmente a outro golpe fascista. O empobrecimento forçado de milhões de britânicos levado a cabo pelo “antigo regime” de David Cameron, com o seu crescente estado policial e burguesia complacente, especialmente nos media, produzira mais motins: nada é mais certo. Poderemos contar com o extremismo do apartheid para despoletar tal resultado, e pouco importará o lustro consumista hermeticamente fechado num gigantesco centro comercial. Perspectiva-se uma democracia para os ricos e totalitarismo para os pobres, e não só; e claro “intervenção liberal”, como lhe chamou num tom aprovador o The Guardian, para aquelas regiões demasiado frágeis para resistirem à “precisão” dos nossos mísseis Brimstone.

    Fui noutro dia ao Parliament Square. O gráfico que mostrava os crimes estatais, da autoria do activista pela paz e justiça Brian Haw, fora finalmente retirado pela polícia metropolitana. Ela sabia que Brian já não lhes podia fazer frente, tanto física como legalmente, como o fizera durante uma década. Brian morreu em Junho passado. Ao visitá-lo durante um natal gélido, fiquei emocionado pela maneira como persuadia os mais simples transeuntes e com a força da sua coragem. Necessitamos agora de milhões como ele. Urgentemente.

    Setembro 27, 2011 às 2:29 pm

    • Fada,

      Talvez a minha personalidade transpareça naquilo que escrevo :). Infelizmente todos estes problemas representam o padrão Europeu (periférico) e não apenas português, tal como a causa está numa elite económica estagnada que tem que ceder se não quer arrastar o continente consigo para a bancarrota. Tenho alguma vergonha de termos deixado as coisas chegar a este ponto. Como é que se permitiu que o país fosse transformado numa coutada para alguns senhores sem ninguém dizer sequer ai? É algo que até hoje me escapa. Consigo perceber a cumplicidade de quem espera vir a “pertencer ao clube” mas não há desculpa para a “colaboração” do cidadão médio.

      Setembro 28, 2011 às 12:24 am

      • Transparece algo que há muito tempo não ouso dizer… transparece que é dotado de um coração de ouro, de uma inteligência fora de série e de uma comunicabilidade através da escrita, de excepção. Bem haja. Obrigada.

        ps hoje em dia o elogio é visto como uma forma de fraqueza, isto faz parte da disseminação dos “novos valores” assentes no políticamente correcto. Ainda pertenço à “Velha Ordem”. Para mim, um elogio que tenha um fundamento real, deveria ser prioritário nas relações humanas. Eu gosto do culto do elogio quando este se reveste de verdade. A crítica negativa grassa, infelizmente, porque como lhe disse para a maioria um elogio é o passadiço para obter algo em troca, ou quando sincero, sinal de fraqueza de carácter.

        Setembro 28, 2011 às 6:29 pm

      • Deixa-me sem palavras cara Fada 🙂 Sem qualquer falsa modéstia. Só espero poder continuar a manter o nível!

        ps: quanto ao que a maioria pensa ou faz em termos de jogos sociais não vale a pena sequer pensar. É um mundo de manipulações que já sofri na pele (quem não sofreu?) e no qual não tenho qualquer vontade de voltar a participar. É o meu lado ermita/monge a vir ao de cima 🙂

        Setembro 29, 2011 às 2:08 am

  2. Agora veja isto: A minha filha veio dizer-me há uns dias assustada, que a factura da electricidade iria aumentar 30%, ao que respondi – não te alarmes, fazem isto todos os anos, depois dizem para não nos assustarmos que o aumento não vai ser tão alto. Aumentam 4% e o povo dá um suspiro de alívio, não deixando de ser um aumento colossal! Entretanto veio dizer, passados uns dias que a EDP negou ter dito isso e fiquei mais descansada. Ouvi agora Álvaro dos Santos Pereira, penso ser este o nome, na rádio, a dizer que o aumento não vai ser tão alto, não vai ser de 30% para as famílias nem de 55% para as empresas, que podemos estar descansados pois em Outubro dirão de quanto é o aumento! Eu fiquei roxa de raiva! mas então a EDP nega e eles apanham esse boato, ou rumor, para desenvolverem na mesma esse tipo de terrorismo?! Não sei Nicolau, onde isto vai parar, pois se a técnica é a mesma, menos de 4% não será, isto depois de já terem aumentado o IVA de 6% para 23%. Dá mesmo vontade de chorar. Já no ano passado só pudemos utilizar aquecimento naqueles dias de temperatura abaixo de zero. Mesmo assim a conta foi um roubo… não sei como sobreviveremos a este Inverno… 😦
    Entretanto a Ministra vem dizer que a privatização da água estava no progranma eleitoral e que portanto, não haverá referendo! Terroristas!!

    Setembro 27, 2011 às 3:20 pm

    • Fada,

      Mas isso é a técnica do costume. Lança-se o valor que se quer realmente através de uma “fuga de informação” conveniente e depois se a reacção for adversa nega-se e logo se pensa numa forma de diluir a coisa para que dê o mesmo valor mas de outra forma. Típico modo de operar das consultoras políticas da nossa praça. E para mal dos nossos pecados suspeito que os 30% não vão andar muito longe da realidade. É o que o FMI sempre apontou como desejável para cortes de poder compra em Portugal e estão aplicar de forma “admiravelmente” eficaz essa fasquia em quase todas as áreas de consumo obrigatório. Penso que chegada a data podem distribuir as coisas de outra forma mas o valor final andará por essas paragens, pelo menos de certeza acima dos 25%.

      Quanto ao referendo da Água só tenho a dizer que a culpa é do eleitorado. Estava lá tudo escrito (como em tantas outras coisas). É ler o raio dos documentos (claro que são feitos para não ser lidos mas a obrigação de quem chega à conclusão que não entende bem o que está em jogo é não votar para não prejudicar os outros). Agora claro que se agarram que nem lapas a essa desculpa especialmente quando em Itália fizeram o mesmo referendo há poucas semanas e o lado da privatização levou uma derrota na cada dos 90%! Nem pensar que pessoas orgulhosas como estas se sujeitavam a esse risco, nem que estivessem amendoins em jogo (e aqui a parada é bem mais alta).

      Setembro 28, 2011 às 12:24 am

  3. Otus scops

    NW

    só pela imagem de Abel Manta já valeu a pena a visita.
    quanto ao texto, não tenho nada para acrescentar, é simplesmente brilhante.

    Setembro 27, 2011 às 3:55 pm

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