Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Focos de Combate

Tal como a Doutrina de Choque exige quando se quer avassalar um povo psicologicamente não se pode dar descanso, há que ser incansável no fornecimento de (des)informação. Tem que existir um bombardeamento constante de novos dados em tal quantidade e velocidade que as pessoas comecem a perder não só o seu sentido de orientação como a noção da realidade. Não sabem o que é simplesmente um projecto ou que está a ser implementado. Não distinguem o que é uma ameaça de algo que pode ser real. É este caos mental total que é o resultado desejável para evitar contestação concreta e justificada – afinal de contas quem não sabe muito bem o que se passa não se consegue mobilizar contra nada em específico ou organizar-se com outros (nem conseguiriam concordar em qual é a realidade). A guerra cerrada e implacável ao conceito de “Público” avança a todo o gás e como não podia deixar de ser continuam a sair “notícias” que querem dar a entender que a culpa do défice é das empresas que ainda são geridas pelo Estado (quando no fundo muitas delas são de bens públicos e são as únicas no país onde existe qualquer tipo de controlo remuneratório à gestão de topo). Mais uma vez não se especifica nada, em que diferentes áreas estas empresas operam, quais os sectores em que a dívida foi acumulada, como foi acumulada, etc. É tudo metido no mesmo saco como interessa porque dessa forma dá para liquidar tudo simultaneamente numa onda gigante de dissoluções (ou aberturas de espaço de mercado para os privados) e privatizações (compra de bens públicos por meia dúzia de euros por privados bem colocados politicamente).

A insaciabilidade das elites portuguesas por negócios fáceis é lendária.

Mas isto é apenas o presente e as nossas elites até pensam no futuro, o deles (mas isso não vem ao caso). Como o condicionamento social deve ser começado o mais cedo possível (para evitar quebras comportamentais mais tarde na vida) os tais prémios aos melhores alunos do secundário foram abolidos. Assim sem mais nem menos resolveu-se acabar com o pequeno gesto simbólico que servia essencialmente como uma honra social para quem desenvolveu grande esforço académico; a mensagem é clara, não queremos saber destes alunos, sejam eles bons ou maus – claro que nos próximos dias sairá uma nota oficial do Ministério da Educação a explicar como isto faz parte do esquema de poupanças do Estado e que qualquer leitura ideológica seria desapropriada, ficamos é sem perceber como é que os 500 euros por aluno levariam a nação à bancarrota quando ninguém parece muito preocupado com um buraco de pelo menos 6 mil milhões de euros numa região autónoma. Do bloqueio aos incentivos para a excelência seguimos para a justificação moral dos efeitos dos despedimentos em massa que já forma feitos e ainda estão por fazer (e acreditem que mal se começou porque a avalanche de incentivos que este governo está a criar nesse sentido ainda não está a funcionar em pleno), afinal as pessoas reformam-se porque estão deprimidas. O que não duvido por um segundo. O que não se explica é a causa da depressão. Perda de status social? Poder de compra? Situação profissional? Salário mais baixo? Horas extra não remuneradas? Más condições de trabalho? É um vazio de explicações em que só cabe a palavra depressão, assim passa a ser um problema de incapacidade psiquiátrica da pessoa que sai e não o resultado de políticas sistemáticas.

A citação completa é a seguinte e explica porque se deve olhar para o longo prazo: "Only a crisis - actual or perceived - produces real change. When that crisis occurs, the actions that are taken depend on the ideas that are lying around. That, I believe, is our basic function: to develop alternatives to existing policies, to keep them alive and available until the politically impossible becomes the politically inevitable"

E, claro, tudo isto leva o selo de aprovação dos meios de comunicação respeitáveis que já dizem que o apoio a este governo é entusiástico. Fiquei com sérias dúvidas sobre onde terá sido realizada esta sondagem porque tenho um círculo de contactos ainda alargado e tirando pessoas filiadas nos partidos de governo não conheço ninguém que dê sequer uma nota positiva ao que estão a fazer, quanto mais que votasse, ou voltasse a votar, neles. Não corresponde de todo à minha experiência quotidiana. Mas se vem noticiado é porque sem dúvida é verdade e os portugueses não só estão a adorar isto como ainda estão mais entusiasmados que antes, quase parece que cada corte no seu poder compra e na sua dignidade como cidadãos os excita ainda mais. Afinal parece que somos um povo de masoquistas.

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9 responses

  1. “Enquanto um povo é constrangido a obedecer e obedece, faz bem: tão logo ele possa sacudir o jugo e o sacode, faz ainda melhor; porque, reconhecendo a liberdade graças ao mesmo direito com que o qual lha arrebataram, ou este lhe serve de base para retomá-lo ou não se prestava em absoluto para subtraí-la.”

    Jean-Jacques Rousseau, in Do Contrato Social

    Mais um post excepcional! As fotos dizem muitíssimo.

    Setembro 28, 2011 às 7:10 pm

    • Acho muito significativo que a Fada tenha ido buscar o contrato social… não sendo a nossa realidade algo meramente contratual é um bom mecanismo para explicar fenómenos e compromissos sociais de longo termo e é precisamente o que está a ser quebrado sem qualquer pudor. Estão a recriar o Estado, o País, e o próprio conceito de Cidadão de forma completamente autocrática, injustificada e abusadora da esmagadora maioria das pessoas.

      Ps: tento manter as fotos dentro do tema mas nem sempre é fácil 🙂

      Setembro 29, 2011 às 1:55 am

      • É disso que se trata …a urgência de um novo contrato social. No dia 27 de novembro de 2010 foi eleita, na Islândia, uma Assembleia Constituinte que se reuniu em fevereiro de 2011. Propostas: reafirmação da separação entre a igreja e o Estado, nacionalização de todos os recursos naturais e separação clara dos poderes executivo e legislativo. Trata-se no fundo da constituição de um novo contrato social.
        Cá vamos no sentido inverso, aliá como diz, estão a recriar! mas é isso que o Povo português deveria exigir…aliás, todos os povos ocidentais que estão debaixo do jugo predador do capitalismo selvagem.
        Assim, no próprio momento histórico no qual a alimentação, educação e habitação para toda a gente parece ser alcançável, números enormes de pessoas anteriormente bem pagas estão a ser lançadas na pobreza. As respostas repousam não na emissão de mais dívida e no financiamento de investimento cada vez mais competitivo. Antes de considerar os bancos, precisamos salvaguardar a produção e as qualificações das pessoas. A produção precisa ser organizada e distribuída de modo a que bastante do que é produzido atenda as necessidades de toda a gente… se isso puder ser feito em menos tempo de trabalho por semana, melhor. As pessoas deveriam ser capazes de se deterem e brincarem com seus filhos, fazerem desporto e música, voltarem à educação ou o que quer que seja que precisem. Para isto acontecer, os principais meios de produção, fábricas, terra, minerais e recursos petrolíferos, precisam estar sob o controle e a propriedade da maioria e desenvolver-se no interesse da maioria.

        Em relação à foto: “A capacidade contínua [do capital internacional] para extrair … ‘rendas’ depende de uma colcha de retalhos de países
        anteriormente subdesenvolvidos em industrialização os quais coexistem com a maciça pauperização do Terceiro Mundo bem como com a des-industrialização das regiões industriais mais antigas do Primeiro Mundo. Através deste prisma, o comércio internacional é uma das tábuas de um sistema capitalista internacional que tem êxito sobre a exploração e o desperdício dos recursos naturais e humanos do mundo em proporções monumentais”.
        “O Crash de 2008 e o colapso da Conferência de Copenhaga em 2009 são o topo do iceberg que se funde. Menos bem visto e muito perigoso é o esbanjamento de recursos naturais e humanos do capitalismo, assim como sua invasão da liberdade genuína. A razão principal? Porque o capitalismo está numa etapa evolutiva e por trás da capacidade produtiva da admirável ‘maquinaria’ que ele próprio criou. A tarefa actual da humanidade é, portanto, conceber nossa evolução contínua e dirigir o seu caminho numa direcção da nossa escolha, ainda que apenas em benefício do planeta.”
        Yanis Varoufakis
        Tantas vezes me refiro à capacidade de luta e coragem dos islandeses, mas a verdade seja dita, o seu Presidente Olafur Grimsson era uma pessoa de Valores e de Princípios e a Islandia recupera em tudo.

        Setembro 29, 2011 às 6:14 pm

      • O problema parece estar na definição do “limite aceitável”… não sei o que será preciso fazer às pessoas para se enervarem ao ponto de fazerem algo a sério. Mais que isso, o que será preciso acontecer para não terem uma atitude passiva face ao que acontece a um país que é seu. Infelizmente parece que vamos ter a oportunidade de descobrir isso mesmo, onde está o limite da população portuguesa já que este governo segue as receitas internacionais à risca e este modelo exige medidas a quilo por dia e um avançar constante dos abusos sociais, veremos quando é que alguém diz “chega”.

        A Islândia é um caso de um povo com um limite muito claro. Já não tinham gostado do que estava a ser feito ao país (a exploração de energia geotérmica por exemplo) em tempos de prosperidade e em crise aproveitaram para reformar todas essas áreas que colaboraram no seu desastre. Os Islandeses perceberam que a ilha é sua e não de meia dúzia de firmas de investimento, de 20 milionários ou de uma mão cheia de bancos. Pertence às pessoas que nela habitam e que sofrem as consequências do que nela se faz. Isto também é cultura cívica, saber o que é nosso e quais as bases do poder legítimo.

        Setembro 30, 2011 às 11:59 am

  2. Sobre a nova arma avassaladora, a engenharia social: http://fabricio.unis.edu.br/SI/Eng_Social.pdf

    Setembro 28, 2011 às 7:15 pm

  3. O link acima refere-se ao virtual…
    A engenharia social
    Porque estamos aprisionados? Por isto:
    Institutos como Carnegie, Rockefeller e Ford têm uma influência corrosiva na sociedade democrática, eles representam concentrações de poder e riqueza desregulados e irresponsáveis, que compram talentos para promover causas, e, com efeito, estabelecer uma agenda do que merece atenção da sociedade. Eles servem de agências de “cooling-out” atrasando e impedindo as mudanças radicais e/ou , estruturais. Eles ajudam a manter uma ordem econômica e política, de âmbito internacional, o que beneficia os interesses da classe dominante de filantropos e philanthropoids – um sistema que … trabalhou contra os interesses das minorias, da classe trabalhadora e os povos do Terceiro Mundo .

    Esses Institutos foram centrais na promoção da ideologia da “globalização”, que lançou as bases para organizações como o Conselho de Relações Exteriores e do Grupo de Bilderberg.
    A Fundação Rockefeller, em particular, apoia diversas organizações que promovem uma filosofia dos “internacionalistas liberais”, cujo objectivo é: Apoiar uma política externa dentro de uma nova ordem mundial, o imperialismo, que foi a característica dos Estados Unidos como a principal potência – um programa definido pela Fundação Rockefeller como “desinteressada”, “objetiva” e mesmo “não-política” … A construção de um novo consenso internacionalista exigiu o financiamento, consciente de indivíduos alvo, organizações que as questionavam e minaram os partidários da “velha ordem”, enquanto, simultaneamente, promovem a “nova” Ordem.

    O financiamento das principais fundações e institutos criados não só orientam a política, como grupos de reflexão, mas também foram fundamentais na organização e construção de universidades e da educação em si, em particular, o estudo das “relações internacionais”. [10] A influência da Fundação ou Instituto na educação e universidades é substancial e, assim o “conhecimento” em si, é incomparável. Como foi observado no livro do imperialismo Filantropia Cultural:

    As fundações filantrópicas criadas por grandes industriais da América “robber baron” e pelos banqueiros não foram estabelecidas em benefício da humanidade, como era seu propósito declarado, mas para beneficio d os banqueiros e das elites industriais, a fim de poderem envolver-se em engenharia social. Através dos bancos, estas poderosas famílias controlam a economia global; através de grupos de reflexão, que gerem os estabelecimentos da política e de política externa, e através das fundações, gerem a sociedade de acordo com seus projetos e interesses próprios. Através dessas fundações, as elites têm vindo a moldar os processos, ideias e instituições de ensino, garantindo assim a sua hegemonia sobre a sociedade. O processo continua através da produção e controle do conhecimento. As instituições de ensino são a auto-estrada das elites futuras para o governo, economia, ciências, e outros ambientes profissionais, bem como produzir académicos que compõem o principal componente de think tanks, como o Grupo Bilderberg.

    O poder da fundação não é a de ditar o que será estudado. O seu poder consiste em definir parâmetros profissionais e intelectuais, na determinação de quem receberá apoio para estudar. E o poder da fundação ou instituto, reside na sugestão de certos tipos de atividades que favorece e está disposta a apoiar. Como [teórico político e economista Harold] Laski observou, “as fundações não controlam, simplesmente porque, no sentido direto e simples da palavra, não há necessidade de o fazer. Eles têm apenas de indicar a direção do angulo da bússola intelectual e utilizar as “suas mentes” priveligiadasa para ensinar o mundo universitário inteiro. Assim descobrimos que a educação gravita sempre de acordo com os interesses das fundações.(…)

    Volto a deixar este comentário:
    A Constituição Europeia ( Tratado de Lisboa) foi um movimento para criar um super-Estado europeu, a criação de um ministro das Relações Exteriores da UE e com ele, a política externa coordenada, com a UE assumir o lugar da Grã-Bretanha no Conselho de Segurança da ONU, representando todos os Estados membros da UE, forçando as nações para “activamente e sem reservas” e seguir uma política externa da UE; estabelecem o quadro para criar uma política europeia de defesa, como um apêndice ou separadas da OTAN, a criação de um sistema de Justiça Europeu, com a UE definir “padrões mínimos para definir crimes e estabelecer penas”, e criar um asilo comum de imigração, e seria também entregar à UE o poder de “garantir a coordenação das políticas económicas e de emprego”. A legislação da UE supera todas as leis dos Estados-Membros, tornando assim os países membros, em meras províncias dentro de um sistema de governo centralizado federal.(…)
    Em Dezembro de 2010, ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble declarou que, “Em 10 anos teremos uma estrutura muito mais forte do que se descreve hoje como união política.”
    2009 é também o primeiro ano de governação global, com a criação do G20, no meio da crise financeira, a conferência do clima em Copenhague é mais um passo para a gestão global do nosso planeta “Herman Van Rompuy, Speech Upon Accepting the EU Presidency, BBC News, 22 November 2009:
    Fonte GlobalResearch
    Assim como se pode ver como a engenharia social impediu, pelo menos para já, uma oposição às elites dominantes, seja em Portugal, seja no mundo ocidental.

    Setembro 28, 2011 às 7:34 pm

    • Entre querer uma coisa e obter essa coisa vai um espaço muito grande… não duvido que haja interessados nesse tipo de União Europeia mas isso por muito que lhes custe nunca será imposto. Pela simples razão que em qualquer estado membro em que vá a votos (e algum dia terá que ir em algum ou vários deles – ou idealmente todos!) e a coisa estoira. As estruturas artificiais não chegam para criar uma unidade política nem sequer estou convencido que consigam vender uma Europa a duas velocidades. Tal seria uma estalada na cara a todos os países deixados para trás e há alguns que não aceitariam mesmo e precipitariam um processo de desintegração. Aliás parece ser esse o destino mais provável a desarticulação progressiva da União por falta de elemento democrático e artificialidade de estruturas políticas e sociais (isto e claro interesses económicos que não conseguem ser harmonizados nem por nada).

      Setembro 29, 2011 às 2:01 am

      • Soube-se hoje, pela publicação do documento estritamente confidencial no Corriére della Sera que o governo de Berlusconi recebeu instruções secretas do Banco Central Europeu (uma carta de Jean-Claude Trichet a Mario Draghi do Banco Central de Itália), para que mande cumprir um programa politico: desregulamentar mais a economia, tornar o trabalho mais flexivel e multiplicar as privatizações. http://www.corriere.it/economia/11_settembre_29/trichet_draghi_inglese_304a5f1e-ea59-11e0-ae06-4da866778017.shtml?fr=correlati
        Estamos a ver bem a política da UE, não estamos? Espero bem que isto impluda ou expluda…

        Setembro 29, 2011 às 10:49 pm

      • Quem se deixa dominar durante décadas depois não pode ficar muito surpreso quando começa a receber ordens daqueles em quem delegou o poder…

        Setembro 30, 2011 às 11:49 am

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