Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

A Nova Pirâmide Social

Não que algum partido que tenha estado no governo tenha tido realmente boas intenções para com a área da educação mas esta coligação está realmente está a distinguir-se por levar as iniciativas de todos os outros à sua conclusão lógica: a transformação total do Ensino Público numa espécie de gueto onde se despejam ao abandono os filhos de quem não é “relevante” (caso esteja em dúvida se não está no percentil dos 10%, ou mesmo 5%, mais ricos do país então não é relevante para este sistema – e os seus filhos terão que se resignar a serem baixas numa guerra cultural não declarada). Os cortes que estão nesta altura previstos para o sector são o triplo (sim leu bem, o triplo!!) daquilo que até foi acordado quando recebemos o empréstimo à banca, do FMI e UE, que todos temos que pagar sabe-se lá como. Isto não tem qualquer justificação racional. Nem pode ter tendo em conta que este ministro da área passou a vida a criticar o anterior governo por “falsificar resultados” (com facilitismos). Se, supostamente, tinha problemas que, antes das eleições eram catastróficos, eles serão resolvidos com esta solução que o que faz é despedir 30000 professores e cortar o triplo da verba requerida? Além destas medidas que ultrapassam largamente o meramente draconiano, são genuinamente punitivas do sector da Educação Pública, ainda ficamos na dúvida sobre a validade do concurso que colocou os professores que sobraram, havendo suspeita de irregularidades (não que acredito por um segundo que qualquer investigação revele seja o que for mas de qualquer fica o alerta dos sindicatos).

O problema é que as pessoas já não fazem isto às nossas elites e eles, naturalmente, sentem-se ultrajados. Como se atrevem os campónios a não fazer o beija-mão? Já não bastava perder o título nobiliárquico e agora isto…

Para onde podemos caminhar com um cenário destes? Bem não será muito complicado adivinhar que o objectivo parece ser duplo. Por um lado a destruição da Educação Pública seguida de um mega processo de privatização das áreas do ensino mais apetecíveis deixando as zonas “problemáticas” nas mãos do que sobrar do Ministério da Educação (ou melhor ainda, se se quiser mesmo espalhar o caos total, colocar as escolas sob a tutela camarária). Após isto entramos num período de grande segmentação social dos alunos (se esse processo já hoje é visível imaginem depois disto tudo) em vários tipos diferentes de estabelecimentos e claro com o famoso cheque ensino o financiamento aberto de organizações religiosas elitistas que continuam a poder rejeitar qualquer aluno com base em qualquer critério imaginável. Avançando tudo estaremos perante um processo de segmentação populacional e engenharia social como já não se via desde os dias de ouro do Império Britânico. É o fim total da mobilidade social por via legal e ética.

Um novo slogan para as nossas elites? Podem acrescentar debaixo do brasão de família.

Dado que sempre considerei que acima de tudo os objectivos das elites portuguesas eram sociais e culturais, antes de serem económicos (basta ver o ineficaz sistema de cunhas que vigora com uma pujança nunca antes vista no sector privado – o objectivo não é capitalizar os ganhos ou maximizar o lucro, o objectivo é promover uma estrutura de poder com as “pessoas certas”), não é de estranhar que se use a crise para tapar o que, eu penso que, será um dos principais legados deste governo e o sistema político que está a compactuar com isto (o silêncio de alguns sectores é ensurdecedor). Com a ameaça de não querermos ser Gregos estão a ir conseguindo impor as coisas, pouco a pouco, mesmo quando no epicentro político e financeiro do mundo se começa repensar este tipo de políticas e a credibilidade deste tipo de elites.

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9 responses

  1. Até dói ler este artigo. a forma crua e dinâmica como descreveu o alicerce essencial de um povo, a Educação, mostra-nos a realidade. Essa infra-estrutura está a ruir…
    “Nunca duvide que um grupo de pessoas conscientes e decididas a mudar o mundo; de facto, sempre foi assim que o mundo mudou.”

    Frijof Capra

    Outubro 7, 2011 às 11:22 am

    • A intenção parece ser essa… a ideia de que as novas gerações passarão a ter apenas um arremedo de formação técnica (se resistirem tempo suficiente no sistema de ensino) é assustadora pelo que representa. Seria um retrocesso civilizacional. É negar que a Cultura possa existir em Portugal, é negar que todos são Iguais perante o Estado, é negar que valemos pelo que somos capazes e não pelo útero que nos expeliu, é negar a Civilização Ocidental moderna quase em bloco, enfim é negar todo o percurso que temos vindo a fazer como nação, lentamente, muito lentamente, quase desde a Guerra Civil (1834).

      Mas politicamente há que reconhecer o génio da coisa. A primeira coisa que se faz para dominar uma população é negar-lhes o direito a ter armas, e é isso que o ensino (que para mim inclui desejavelmente uma série de coisas: informação, ferramentas de análise, cultura e claro a parte técnica) é para o cidadão comum, a única arma de que dispunha até agora para lidar com uma sociedade já cheia de vícios. Não era perfeita mas era o que tínhamos. E a partir de agora?

      Outubro 7, 2011 às 12:19 pm

  2. Estão a aplicar o lado mais negro do pensamento maquiavélico. Ou seja, o Estado e seus governantes têm o poder de praticar todo e qualquer acto de terrorismo contra os cidadãos. Onde isto vai parar não sei, mas se isto não leva um revés, entraremos numa segunda Idade das Trevas, bem pior que a primeira. A tecnologia ao serviço do poder vai fazer com que os cidadãos além de ignorantes, passem a não dispor de qualquer tipo de liberdade individual. Basta ver como são já controlados os cidadãos através de satélites.
    Não estou a ver também, um grupo de pessoas no mínimo influentes, com vontade de mudar o rumo que as coisas levam. Talvez até haja, mas estão incapacitados de se organizarem e de poderem actuar de uma forma que não seja incipiente. Não há hipótese dessa ideia ter impacto na sociedade., exactamente como descreveu no artigo Focos de Combate.

    Outubro 8, 2011 às 11:51 am

    • Bem mas esperar pelas pessoas influentes não lembra ao diabo… eles têm recursos próprios que os tornam imunes a esta situação. Se o cidadão médio não quiser saber de nada disto mais ninguém tem interesse em tocar no tema. As pessoas têm que se convencer que a passividade só as enterra mais, até chegarem a essa conclusão não há muito a fazer. Têm que ser elas a formar a tal “sociedade civil” que tanto se fala na tv. Mas neste caso que seja algo inclusivo dos portugueses e não apenas representativo de meia dúzia de fundações (ligadas a interesses económicos e sociais) e mecenas de bolsos fundos que usam esse termo para tapar as pressões que fazem directamente e indirectamente sobre tudo e todos.

      Outubro 8, 2011 às 2:13 pm

  3. Bem… pelos vistos apliquei mal a palavra influentes… eu queria dizer com carisma para mobilizar muitas outras pessoas…

    Outubro 8, 2011 às 8:26 pm

    • Ups… Desculpe lá então o testamento Fada 🙂 . Realmente percebi mal o que quis dizer.

      Eu não me arrogo a ser carismático mas faço o que posso, mantenho este espaço aberto para partilha de informação real e discussão útil, manifesto-me politicamente (e não é pelo raio do facebook, essa “ferramenta do diabo” para iludir as pessoas na sensação de pertença), voto sempre, tento informar, dentro do que sei, todas as pessoas com quem entro em contacto quando sinto que há essa abertura. Há algo mais que deveria estar a fazer que esteja ao meu alcance? A mim não me ocorre, pelo menos sozinho.

      Outubro 8, 2011 às 8:37 pm

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