Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

O Elemento Democrático

A democracia, questão vital para qualquer país poder ser considerado para membro da União Europeia, está a dar uma dor de cabeça forte às elites económicas mundiais. Com o governo grego a ter que devolver o poder á sua população (era claro que se não o fizesse o próprio executivo seria removido forçosamente por iniciativa popular ou mesmo militar) começam a tocar sinais de alarme noutros sítios. Penso que não se trata tanto de um caso que o que está em causa seja o valor da dívida mas sim o princípio da recuperação da soberania nacional mesmo quando se tem 26 outros países do mesmo clube a sabotar essa tentativa de restabelecimento de justiça. Se a Grécia o fez então outros países, que ainda não tenham sido “castrados” politicamente, podem decidir fazer o mesmo (ou algo similar) e pura e simplesmente cumprir com as suas obrigações éticas, teoricamente, enquanto governos democráticos, e ouvir a população em questões chave que podem condicionar o desenvolvimento e nível de vida nacional durante décadas. Há claramente uma ameaça de derrocada do bloco de unidade artificial que Alemanha, França e FMI criaram.

Podem cair como dominós...

Claro que isto teve o seu preço e as chefias militares gregas foram substituídas para evitar a possibilidade de golpe (podem cansar-se de ficar à espera de um referendo que de momento ainda só está prometido) sendo que a credibilidade e prestígio dos oficiais substituídos só pode ter crescido e a sua autoridade moral, provavelmente, continuará intacta para efectuar as acções que forem necessárias (os burocratas de todos os países tendem a esquecer-se que as organizações não são apenas os organigramas que têm pendurados na parede). Em Portugal o governo começa a ficar preocupado com este estado de coisas porque, juntamente com várias entidades internacionais, investiu muito dos partidos e de algumas pessoas numa reforma radical do país seguindo o modelo grego. Ou seja, completamente à revelia do seu povo está a reconstruir o país à imagens dos seus ideólogos favoritos mudando radicalmente a natureza do estado, dos cargos públicos, das obrigações sociais, do nível de vida médio, do poder económico, das próprias relações sociais e acima de tudo da distribuição de poder entre classes e grupos. Isto é um verdadeiro golpe palaciano disfarçado de tecnocracia e obrigações internacionais.

Parecem existir dúvidas...

E é normal que comecem a estar preocupados. O prometido milagre dos conselheiros económicos que vieram de fora (pertençam ou não ao governo) não só não ocorreu como não houve qualquer recuperação de credibilidade económica internacional como, pior que tudo o resto, a situação social está a degenerar-se tão depressa que pode ameaçar o ritmo louco das reformas previstas. Um país na bancarrota não está em disposição de ouvir falar em sacrifícios da parte de quem não os partilha. Como avisei há já algum tempo Portugal chegará ao próximo Verão/Outono como um país bloqueado e parado perante o mesmo dilema que tem afligido a Grécia e que parece agora ir dar os primeiros passos numa solução credível.

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5 responses

  1. Carlos Costa

    Não foi essa soberania democrática que manteve o status quo dos funcionários públicos gregos, com salários acima do que o país podia suportar? Que manteve os níveis de corrupção e compadrio (os mais altos da europa) que em 2008 foram revelados? que escondeu sucessivos défices calamitosos enquanto recebia os fundos comunitários? A essa soberania, não se lhe pedem contas? Mantém-se tudo como está? Pago por quem? Por essa lógica, a UE simplesmente deixava de financiar a grécia, e os gregos que se amanhassem, muito democráticamente! Ao contrário do que os adeptos do modelo grego andam agora a apregoar (o sócrates era da mesma escola, o modus operandi foi quase o mesmo), os problemas da Grécia não começaram com a Troika! Parece-me claro que sem a Troika, hoje a Grécia não existia! É muito fácil culpar o credor (que neste caso até é financiador!) como o gerador de todos os males, mas a calamidade já estava lá! Ou tem ideia de como apagar o buraco grego sem pedir dinheiro emprestado ao exterior? Sem impôr contenção de despesas? Sem dinheiro para pagar, NO IMEDIATO, os tais direitos adquiridos, pela sua lógica, irreversíveis? Se sim, merece o Nobel da economia!

    Novembro 2, 2011 às 3:37 pm

    • Carlos Costa,

      Penso que as nossas “desavenças” são um daqueles lamentáveis casos de perspectivas diferentes sob um mesmo fenómeno. É de um facilitismo tremendo olhar para a situação final e não ver todos os factores que contribuíram para o que se passou, facilita imenso na altura de distribuir responsabilidades porque regra geral quem coloca os eventos em movimento fica fora da fotografia.

      Não foi o afastamento democrático (e a correspondente decadência e corrupção partidária e empresarial) que levou a Grécia ao estado em que ficou? Esta seria uma forma de colocar a questão como a qual eu concordaria parcialmente. Sim em parte. Depois há que incluir o efeito especulativo, as jogadas geoestratégicas e a forma irresponsável de funcionamento do sistema financeiro internacional. Por isso sim, da minha perspectiva quem está hoje a fornecer fundos (a preço de ouro diga-se) à Grécia é responsável pela quase totalidade do problema e seria preciso um grau de má fé que eu não possuo para culpar o cidadão médio de decisões e processos muito acima da sua realidade quotidiana. Precisamente por sentirem esse afastamento da realidade é que neste momento o povo grego reclama que o seu país volte a ser gerido para benefício daqueles que nele habitam (como seria de esperar).

      Novembro 2, 2011 às 4:45 pm

  2. Semântica (do grego σημαντικός, sēmantiká) é fundamental na transmissão das idéias. Não é à toa que os políticos europeus estão loucos para saber, qual a pergunta que será feita no referendo, a que os gregos responderão sim ou não…

    Novembro 2, 2011 às 8:42 pm

    • Penso que a forma da pergunta não fará muita diferença 🙂 os gregos já sabem o que vão responder. Por muito que se brinque com a semântica é algo tão curto que não dá para tecer grandes nós de engano.

      Novembro 3, 2011 às 12:30 pm

  3. ehehehehehhe!! Tem razão… mas que li num jornal online que andavam muito curiosos qual iria ser a pergunta é a verdade. É para ver o ridículo a que estas elites podres se expõem ! 🙂

    Novembro 3, 2011 às 3:18 pm

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