Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Entorpecendo as massas

Com cada semana que vai passando o clima social em Portugal torna-se algo mais tenso. A cada comunicação (imaculadamente estudada em antecipação pelos gestores de relações públicas – cujo custo desconhecemos na sua totalidade ou sequer parcialmente) dos poderes instituídos (governos, patronato, comentadores de serviço, etc) o mal-estar adensa-se e dado que a recuperação prometida não vai ocorrer nem em 2012 nem 2013, como tinha sido prometido, torna-se preocupante para estes mesmos poderes verem as massas inquietas. Enquanto só forem gemendo e resmungando não há grande problema porque para todos os efeitos estão desmobilizados e não são capazes de colocar qualquer travão ao que lhes está a ser feito; o grande problema (na óptica dos poderes) é o risco crescente (de forma quase exponencial) de que haja realmente não apenas uma mobilização aqui e ali mas que se crie um estado de mobilização geral da população gerido por vários sectores político-ideológicos variados mas todos opostos ao “sistema”. Aí, em linguagem muito simples, o governo tomba, os partidos arriscam-se a um descrédito quase total e, no pior dos cenários, a III República cai (não é o mais provável mas até essa possibilidade está em cima da mesa).

O que nos resta realmente?

Eis que surgem os analgésicos. É preciso deixar as pessoas sem sensação, sem opinião, confusas e essencialmente quietas. O mais recente pode ser um estudo de opinião da Deloitte (uma consultora que, em Portugal, se especializou em fiscalidade, contabilidade e temas associados) que parece revelar que a maioria dos portugueses não só apoia as medidas que estão a ser tomadas pelo executivo como as entende e as acha mesmo necessárias – a parte mais deliciosa é quando afirma que os jovens parecem estar mais optimistas (resta saber se esses jovens ocupam lugares de consultores ou se serão mesmo jovens normais num país com uma taxa de desemprego jovem real que provavelmente se aproxima dos 40%). De uma amostra não muito significativa (pouco mais que 700 inquiridos), escolhida por critérios que desconhecemos (em nenhum momento é noticiado que a amostra seja aleatória) quer-se criar uma nova legitimidade para um governo que já está fora das suas promessas eleitorais há meses – já que o selo de aprovação democrática parece mais ténue a cada manifestação e movimento que surge. É de notar também que não sabemos quais os laços económicos entre a Deloitte e o governo, alguns dos seus membros ou mesmo com os sectores económicos que saem a ganhar com este orçamento de estado (mais uma vez em lado algum é afirmado, muito menos provado, este distanciamento e imparcialidade) – a existir uma relação comercial continuada com o executivo, com pessoas a ele próximas ou interesses económicos beneficiados passaríamos a estar perante uma peça de propaganda encomendada e abençoada pelos media que a aceitaram publicar. Mesmo não existindo interesses económicos cruzados (os mesmo jornais que alegremente publicaram o estudo deveriam é claro ter feito jornalismo de investigação para assegurar a veracidade do que publicam…) há matéria suficiente para questionar seriamente as afirmações do estudo.

O anestésico social não tem que ser químico.

Não penso que este tipo de manobras surta grande efeito junto da população geral que já suspeita por natureza (e com toda a razão) das empresas privadas e dos consultores em particular. Não só isso como a sua própria realidade diária desmente este nível de apoio ao governo (nem em épocas de vacas gordas se conseguem estes números de aprovação que rondam, supostamente, os dois terços). Pode quanto muito apaziguar algumas consciências dentro do PSD que começam a estar algo preocupadas com o rumo que as coisas estão a seguir e que temem pela sobrevivência do partido após a partida de Passos Coelho (eu apontava para cerca de mais 8 meses a 1 ano de governação, dependendo da evolução internacional). A nível mundial, e Portugal não é excepção, a artificialidade de acordos e apoios dentro do sistema e um suporte não democrático de algumas organizações pretensamente “tecnocráticas” não silenciam as vozes cada mais fortes de populações que foram excluídas da governação dos seus próprios países.

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3 responses

  1. Olá Nicolau,

    As massas estão já completamente entorpecidas. Nada como esta música “subversiva” dos Perfect Circle, acompanhada de um vídeo excelente, para mostrar que o entorpecimento é já crónico nas ditas “democracias” ocidentais:

    Mais um óptimo post de Alerta! 😉

    Novembro 21, 2011 às 7:17 pm

  2. Pingback: Pela Blogosfera – Guerras Culturais « A Educação do meu Umbigo

  3. Os pensamentos da classe dominante são também em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja a classe que tem o poder material numa dada sociedade, é também a potência dominante espiritual. A classe que dispõe dos meios materiais é a que dispõe também dos meios de produção espiritual, de tal modo que o pensamento daqueles a quem são recusados os meios de produção intelectual está da mesma forma submetido à classe dominante. . Os pensamentos dominantes são apenas a expressão ideal das relações materiais dominantes concebidas sob a forma de idéias e portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a dominante, dizendo de outro modo,, são as idéias do seu domínio.(…)

    A concorrência isola os indivíduos uns doss outros, não apenas os burgueses, mas também e mais ainda os proletários, se bem que os concentre. É por este motivo que decorre sempre um longo período antes que os indivíduos se possam unir, abstraindo do facto de que – se se pretender que a sua união não seja puramente local – esta exige préviamente a construção dos meios necessários pela grande indústria, tais como as grandes cidades industriais e as comunicações rápidas e baratas, razões porque só depois de longas datas se torna possível vencer qualquer força organizada com indivíduos isolados e vivendo em condições que recriam quotidianamente esse isolamento. Exigir o contrário equivaleria a exigir que a concorrência não devesse existir em determinada época histórica ou que os indivíduos inventassem condições sobre as quais não têm qualquer controlo enquanto indivíduos isolados. (…)

    Karl Marx in: A Ideologia Alemã

    Novembro 24, 2011 às 7:08 pm

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