Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Europa

Os presentes de Pandora

À medida que a crise se arrasta e percebemos, a um nível quase molecular, que isto não é um simples “safanão” mas antes uma possível mudança permanente nas relações económicas e sociais (de degradação contínua) há grupos e pessoas que teimam em aparecer para no fundo fazerem uso das excelentes condições do país para alterações radicais – mais uma vez repito (pode ser que algum “boy” de um partido leia isto por acidente e aprenda) não é possível exigir civismo a quem nada tem e um sistema composto, em grande parte, por pessoas que nada têm investido nele e na sua continuação estão mais que dispostas a mandar tudo abaixo, é só uma questão do aperto e desespero continuarem. Os grupos não são homogéneos nem partilham opções ideológicas de forma monolítica (nem na forma de agir diga-se) mas têm algumas coisas em comum. Como por exemplo o facto de mesmo em tempo de crise conseguirem arranjar financiamento para continuar a operar quando são perfeitamente marginais em termos de sociedade (o que quer dizer que o peso económico de alguns dos seus membros não é de desconsiderar) e também conseguem captar tempo de antena mesmo não tendo peso social significativo (pelo menos até agora) o que nos leva a supor que além de terem alguns membros de carteira pesada também terão melhores posicionamentos sociais que a maioria. Ou seja são movimentos que parecem emanar, directa ou indirectamente, das nossas “elites”.

"Power is not an institution, and not a structure; neither is it a certain strength we are endowed with; it is the name that one attributes to a complex strategical situation in a particular society." - Michel Foucault

Em primeiro aparecem os monárquicos. Herdeiros de uma linha derrotada e escorraçada em 1834. Detentores de “títulos” que ninguém conhece ou reconhece. Pretendentes num país que não tem o que pretendem. Ultramontanos intransigentes numa nação secularizada e cada vez mais diversa. São a quintessência das contradições lógicas e históricas de um país de memória curta. Conviveram com a ditadura na esperança de um destino semelhante ao espanhol, em que Franco restaurou o privilégio de nascimento, mas as voltas saíram-lhes trocadas. Aparecem agora como defensores da moral e bons costumes e claro que não faltam oportunidades deste grupo perfeitamente exógeno à sociedade portuguesa se exprimir às massas. Como é que se justifica isto jornalisticamente não sei mas em termos ideológicos a mensagem é clara: estamos cá e até não somos tão maus como nos pintam.

“Everyone likes flattery; and when it comes to Royalty you should lay it on with a trowel." - Benjamin Disraeli

Em segundo lugar aparecem os grupos de extrema-direita de inspiração mesmo fascista. Existem por toda a Europa e partilham sempre a mesma técnica de organização e tipo de discurso. Medo e violência são o pão nosso de cada dia na mente destas pessoas, medo que visam inspirar nos outros (quer quem os contradiz quer quem os apoia) e violência que se manifesta no mínimo ao nível dos discursos (sempre contra grupos que formem bons bodes expiatórios e sem mecanismos de defesa) e não poucas vezes através de organizações paramilitares organizadas paralelamente (a relação entre partido e milícia é sempre negada mas as investigações feitas internacionalmente provam precisamente o contrário, há sempre um elo claro de ligação em ideologia e financiamento). Há também sempre a dicotomia entre a aparência democrática (instituição que desprezam de alma e coração) e a realidade das suas crenças internas, totalitárias, e da violência que em muitos países fazem recair sobre vítimas inocentes (espancamentos a imigrantes, minorias religiosas ou sexuais são ocorrências frequentes quando não terminam mesmo em mortos).

As novas e fantásticas escolhas que nos querem dar...

Enquanto estes ganham força política o cidadão, como figura central da sociedade, quase que desaparece. Aos medos de subsistência juntam-se o medo político de poder ter que viver num regime radicalmente diferente daquele que permite uma genuína individualidade (e não é este que temos mas que, apesar de tudo, está mais próximo, por anos-luz, que os outros dois deste ideal). A opressão semifeudal do sistema económico em construção acrescenta ainda mais limitações à nossa acção e pensamento e muitos já desistiram de viver e dedicam-se apenas a sobreviver. São tempos perigosos para Homens livres. Boa noite, e boa sorte caro concidadão.

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Forças de Mercado

É hilariante ver como quem defendia intransigentemente o pagamento integral da dívida grega vai agora aceitar pacatamente metade desse valor sem mais questões. É a prova que os próprios credores reconhecem que essa dívida não foi acumulada de forma honesta e que mesmo perdendo 50% dela continuarão a ganhar escandalosamente com a quase falência de uma país e o abandono de milhões de pessoas à mais pura selvajaria económica e injustiça social. Mais divertido ainda é ver como um dos principais sorvedouros de dinheiro deste país continua activo e de boa saúde. O desastre BPN foi posto aos pés do anterior governo (cada um que acredite nos contos de fada que quiser…) mas mesmo depois de vendido (a parte saudável – por um preço escandalosamente baixo que levante sérias dúvidas sobre quem definiu os prazos de venda) deixou-nos os activos tóxicos para serem financiados por nós.

Temos que compreender que há pessoas que não podem ser abandonadas à sua sorte... o comum dos mortais não faz mal mas membros das elites económicas? Seria o fim da civilização...

A banca mais uma vez recusa tomar qualquer acção que ajude a arcar com este fardo e levanta uma questão cada vez mais premente: para que serve? Não arca com o seu peso em impostos. Não financia a economia real como devia, pois tem a maioria dos seus activos em empréstimos à habitação e ao consumo. Não aceita um esquema de taxação especial de alguns dos seus accionistas mais ricos cujos ganhos são inteiramente de natureza especulativa. E por fim alguns exigem 12 mil milhões (valor mínimo) do dinheiro que vamos receber do FMI sem dar nada em troca. Dada esta situação começo a perguntar-me se não seria mais saudável para o país simplesmente ter o estado como entidade que concede empréstimos à economia e privados (de forma directa) em vez de termos os bancos como intermediários que não acrescentam nada à equação que não sejam custos e taxas extra ao cidadão (que não recebe nada em troca e ainda paga duas vezes o mesmo valor, uma vez aos estrangeiros em impostos e outra à banca nacional acrescida de uma gorda comissão). Numa altura que se fala de privatizar o que resta da banca estatal eu acho que era de considerar a criação de um modelo de empréstimo estatal directo, com ou sem a Caixa Geral de Depósitos, como forma de aliviar o custo do crédito útil.

Internacionalmente é quase deprimente olhar para a figura que fazem os políticos portugueses que regularmente se vão humilhar ritualmente perante outros líderes europeus (a si próprios e inevitavelmente, por associação, a nós) para dar provas que são mesmo bem mandados (ou “bons alunos” como eufemisticamente os media preferem). Sim estamos em dificuldades mas temos também um poder destruidor dentro da zona euro completamente desproporcional ao peso real da nossa economia o que nos torna perigosos e com mais a perder do que a ganhar com o status quo – a isto dá-se o nome de poder negocial, facto que o nosso governo parece desconhecer. Tudo isto parece passar ao lado das nossas elites (meritocráticas segundo dizem e está na moda) e preferimos continuar a apresentar-nos sem dignidade, orgulho ou honra face a uma Europa cheia de preconceitos contra a Europa do Sul. Queremos ser vistos como bons tecnocratas económicos, fiéis servos dos mecanismos de mercado nem que isso arruíne ainda mais o já muito fraco peso político internacional do país.


Quem manda aqui

O governo alemão fez hoje uma séria ameaça a um outro Estado-Membro da União Europeia (deve ser a primeira vez desde a segunda guerra mundial que a Alemanha ameaça sanções, mesmo que sejam de natureza económica, de forma directa e unilateral contra outro país europeu). A Grécia vai ser deixada à deriva a não ser que se assine uma rendição incondicional aos seus credores internacionais (nomeadamente a Alemanha) independentemente das suas razões para a não implementação de certas medidas (como por exemplo sistematicamente o FMI propor cópias de sistemas anglo-saxónicos e nórdicos em países que não têm nem a mesma cultura, história ou funcionamento – há razões para os sistemas terem evoluído de forma diferente e também há razões para alguns executivos europeus e sectores empresariais associados estarem tão desejosos de seguir a receita). Essencialmente Wolfgang Schaeuble (ministro das finanças alemão) entregou aos gregos a sua versão do mapa cor-de-rosa deixando no ar a ameaça da falência do país, o caos social (como se eles não estivessem já a viver nessas condições e esse tipo de ameaça tivesse peso) e possível instabilidade geopolítica na região (para quem está mais desatento: militarmente a Grécia é uma potência regional algo relevante) que teria que ser colmatada por outra potência, benemérita claro, que por acaso tivesse interesse em expandir a sua influência na região (conseguem lembrar-se de alguém?). Nem é preciso dizer que isto serve de aviso a todos os outros países que estão ou possam vir a estar no mesmo barco, ou se faz à Alemã ou não se faz de todo e deixa-se as nações “aliadas” cair como dominós.

Alguém é servido? Uma dose de realidade para alguém?

Claro que há razões para a Alemanha estar a tomar estas atitudes leoninas. Em primeiro lugar conseguiram “raptar” (aliciar talvez seja um termo mais correcto) a França para o seu lado oferecendo-se para tapar as graves falhas económicas do país em troca do seu apoio político incondicional (indispensável nesta fase). Em segundo lugar sabem que a posição que ocupam nos mercados mundiais só pode decair com o tempo (os mercados emergentes têm consistentemente substituído a produção industrial alemã em quase tudo, começaram pela indústria pesada e agora já estão nos componentes de plástico – há mesmo produtos que são totalmente tecnologia alemã mas que não são de facto produzidos na Alemanha, ou sequer na Europa) o que quer dizer que o seu poder negocial está provavelmente num ponto máximo ou próximo disso. A altura ideal de estabelecer um novo equilíbrio continental, que os beneficia naturalmente. Em terceiro, e último, lugar as novas gerações alemãs têm uma mentalidade curiosa que por um lado já não está refém do complexo de culpa do período nazi e que por outro lado compreendeu muito bem que a dinâmica das nações continua a ser uma de conflito descarado, aberto quando a disparidade de poder é significativa (assegurando simultaneamente uma vitória rápida e um espólio compensador) ou discreto e económico quando o primeiro tipo de abordagem levaria a resultados incertos ou com custos demasiado elevados. Nesse aspecto são quase único na Europa já que muitos, especialmente os países periféricos, levam mesmo a ideia de algum grau de irmandade europeia a sério.

Para quem ainda não percebeu: nós não somos o futuro.

O que é talvez mais estranho é que estas declarações venham no seguimento da admissão, da própria chanceler, que se o Euro falhar a Europa, como projecto, está condenada. O que significaria mais uma vez o regresso a um manto de retalhos políticos mais ou menos frágeis contra outras potências (próximas ou distantes, antigas ou emergentes) e quase impossíveis de controlar ou coordenar. Dado este facto a arrogância de Schaeuble parece um pouco deslocada já que parece que quem tem as cartas na mão são os gregos, que podem fazer este castelo de cartas cair de um só sopro. É um bluff bem atempado (mesmo na altura da Grécia receber outro pagamento) mas parece não ter mesmo qualquer substância já que em termos de perdas geoestratégicas seriam os alemães a pagar a factura mais elevada a longo prazo e a ver as suas esperanças de relevância global esmagadas ou pelo menos seriamente danificadas e adiadas.


Manobras de contenção

Por toda a Europa multiplicam-se as tentativas de acalmar o que pareceu ser um onda de agressão espontânea direccionada contra os grandes desequilíbrios sociais que se estão a construir de forma semiautoritária (sem submeter o grosso desta transferência de riqueza a referendos e outros métodos de escrutínio da opinião pública). Sobre a capa de se querer evitar a desagregação social (como se o facto de as pessoas se unirem para contestar o que está a acontecer não fosse prova do contrário) está-se a aplicar ora medidas repressivas ora medidas de distracção ou acalmia para continuar todo o processo até ao seu fim (o chicote e a cenoura para o burro não parar de vez). A parte mais deprimente de todo o processo é como tentam desviar as pessoas para o protesto banal e ineficaz que acaba por ter os mesmos efeitos do conformismo mais apático à face da Terra.

Mais uma enorme escolha desprovida de qualquer significado ou consequência.

Em Espanha andam todos distraídos, em véspera de eleições, com uma visita do papa, líder de uma Igreja que nunca teve pudor em dizer quem apoiava (a visita vai ter direito à presença da família real outra entidade completamente partidária e que serve, na opinião de muitos espanhóis, juntamente com a Igreja da baluarte do conservadorismo espanhol e do que resta do legado franquista). Ou seja não só as pessoas têm direito a um espectáculo público como também a comício para irem bem orientadas para as urnas (claro que tudo é feito sobre a mais estrita neutralidade legalista mas isso só mostra o lado perverso de se prestar atenção exclusivamente à formalidade – não haverá provavelmente uma palavra partidária directa nos discursos mas para bom entendedor…). Parece que, tal como na Noruega (só coincidências…), havia um plano de atentado (envolvendo por pelo menos um devoto cristão conservador) ao que poderia ser considerado a ala liberal do país (neste caso os que se opunham a que o Estado Espanhol arcasse com um cêntimo do custo desta visita papal). Neste caso, felizmente, foi possível evitar uma desgraça e apanharam-no antes que pudesse fazer estragos.

"Gangs isolados", "vandalismo" é o que mais se gosta de usar... e que tal: combate urbano e rebelião popular?

Pelo Reino Unido a técnica continua a ser a pálida imitação da baronesa Thatcher que o primeiro-ministro David Cameron parece empenhado em prosseguir. É prisões para os revoltosos e para quem “publicitou/incitou” a revolta. Ficamos sem saber se as tvs também serão multadas e os seus jornalistas principais encarcerados. Ou são apenas determinadas opiniões sobre o tema que dão direito a ir preso? Será mesmo que a causa de uma semana de caos urbano no Reino Unido pertence realmente a dois miúdos que usaram uns slogans? Quando se tornar muito incómodo também se fecharão as redes sociais e blogs como no médio oriente? Ficamos também sem saber qual é a moral de um governo que prende jovens adultos nestes casos mas permite que os seus “cidadãos mais respeitáveis”  investir (de forma legal) em armas proibidas. Será que irão colocar a cara dos presidentes dos Conselhos de Administração destes bancos em ecrãs ao longo de Londres para os encontrar e identificar? Em Portugal ficamos sem saber muito bem quando é que apoio ou palavras de ordem serão criminalizadas (esperemos não chegar a tanto porque as penalizações pessoais por emitir opiniões de qualquer ordem já são pesadas o suficiente). De qualquer forma ficamos a saber que a última reforma do governo prepara-se para criar mais 40000 desempregados (e neste ambiente económico são permanentes) como “dano colateral”. Estranha forma de contribuir para a estabilidade.


Afinal não somos diferentes

Londres

Parece que finalmente, e já não era sem tempo, algumas pessoas começam a acordar para o que deveria ser óbvio. As diferenças nos países da Europa Ocidental e do Sul são superficiais. Londres está em chamas e em rebelião aberta contra o poder central. A crise do modelo político-económico é inegável (a julgar pelas chamas e violência que são argumentos bastante fortes – eu sei que por cá as autoridades preferem as opiniões higiénicas dos comentadores do costume mas, às vezes, a realidade vence mesmo esta nova forma de censura) e o que aconteceu na Grécia, na Irlanda e em Portugal vai acontecer noutros sítios nalguns casos com ainda mais violência. As autoridades governamentais, neste caso em Londres, fazem o costume, apelos à calma quer controlem ou não a situação, econdenam unilateralmente a violência como se os combates na rua fossem entre vários grupos manifestantes e não uma miniguerra urbana entre as forças policiais e os descontentes. A crença profunda Downing Street parece ter nascido no coração de outro regime, se repetirmos algo vezes suficientes as pessoas acabam por acreditar: Os responsáveis são só meia dúzia de criminosos de resto tudo está bem. Tudo está bem. Tudo está bem…

Atenas

Por cá ainda estamos a alguma distância de cenas destas (apesar de estar convencido que lá chegaremos como o devido desenrolar desta peça de teatro) quanto mais não seja porque ainda só há um mês é que começámos a apanhar com a Doutrina de Choque que nos querem impor. Haverá dissabores em meses futuros, reclamações para o ar, chega o natal e a Igreja (como boa aliada do poder que sempre foi) irá pôr água na fervura e no próximo ano é que as coisas vão mesmo aquecer quando se perceber que o poço dos sacrifícios pedidos não só não tem fundo como continuará a haver um conjunto de iluminados (com as melhores credenciais familiares e profissionais como se quer em Portugal) que continuará a gritar aos quatro ventos que a culpa é da falta de brutalidade das reformas aplicadas (fazendo lembrar os frades dominicanos da inquisição a avisarem que é preciso queimar mais hereges até a ira de Deus ser aplacada). A situação vai rapidamente ficar insustentável especialmente nos grandes centros urbanos. E aí veremos então se a violência que caracterizou a vida pública portuguesa nos últimos séculos desapareceu por completo, como nos querem fazer acreditar desde 1933, ou se somos os mesmos do costume e quando encostados à parede, e sem outras soluções, fazemos algo para nos defendermos e nesse caso poderão até surgir respostas piores que estas.

Madrid

Até esse altura ficamos com o triste espectáculo das capitais europeias a desintegrarem-se uma a uma e a transforem-se em espécies de zonas militarizadas com cada vez mais limitações à mobilidade de acção e opinião dos cidadãos – que se começam a questionar o que estão a ver ou a versão oficial dos eventos passam a ser descritos nos media e comunicados oficiais como “os poucos e perigosos delinquentes”.


Somos diferentes

Já começou a dança dos espanhóis e italianos com a UE e o FMI. O grito de guerra já foi dado antes pela Irlanda e depois por Portugal: somos diferentes! Não funcionou da primeira vez, não funcionou da segunda e já vai a caminho de não funcionar uma terceira vez. Mas com os egos nacionais, sendo o que são, ninguém nos respectivos países vai querer acreditar que os seus parceiros estratégicos estão dispostos a atirá-los pela ravina abaixo. As racionalizações são demasiado agradáveis para encarar essa alternativa; somos culturalmente relevantes, sem nós a zona Euro sofreria demasiado, temos um passado glorioso, etc.

O passado "glorioso"... ou... "ópio para países irrelevantes"

A continuar por este caminho (e não sabendo a evolução a curto-médio prazo das relações China-EUA ou a resolução da crise de liquidez do governo americano – que penso ser um fenómeno mais aparente que real já que nenhum republicano aceitaria as consequências de tal acção seja em nome de que princípios forem) começarão a aparecer estudos, tudo teórico claro, sobre a hipótese da zona Euro a duas velocidades, ou seja, a Europa a sério e os protectorados e estados vassalos. Penso que até os mais distraídos perceberão que isso seria a morte do projecto Europeu e não apenas do Euro. Ninguém vai aceitar um papel de subordinação formal a um outro estado Europeu. Há demasiada história e demasiadas tensões envolvidas para isso ser sequer considerável e não existem amarras financeiras fortes o suficiente para parar esta dissolução uma vez que tiver começado.  Estamos todos esquecidos que ao longo de 1500 anos o que os Europeus melhor fizeram foi lidar com um mundo de alianças flutuantes, guerras constantes, internas e externas, e acima de tudo a união contra qualquer potência hegemónica que surgisse no continente.

Em nome "de la civilisation"?

A segunda guerra mundial mudou muito mas não muda a essência do ser humano e infelizmente começa a ser uma memória de fraco poder vinculativo. É preciso mais que isto para sobreviver à tempestade. Ser bom aluno não chega. As receitas dos mágicos não funcionam, pelo menos, para a maioria das pessoas. A Grécia é diferente e isso não a salvou, a Irlanda é diferente e isso não a salvou, Portugal é diferente e isso não o salvou… Espanha e Itália são também diferentes e isso não as vai salvar.

Ou será em nome da "Zivilisation"?

O único poder deste seguidismo assegurar a construção de uma cintura periférica de “subúrbios/guetos” miseráveis à volta de Europa Central do qual todos faremos parte independentemente das nossas “tão relevantes” diferenças. As empresas que receberão a sua exploração agradecem a confiança e a carta branca que irão ter para ignorar o próprio povo a que presidem – para os mais formalistas não se preocupem porque continuarão sempre a existir eleições e a aparência de um sistema de justiça porque num mundo visual as aparências contam e muito.

Em nome de uma nova política urbanística, compre dentro das suas possibilidades reais.

Nota: No seguimento das minhas notas sobre a privatização como modelo de desenvolvimento já temos como certo um aumento de mais de 25% para comboios na linha Sintra e 22% para o metro de Lisboa. Isto não pode levar a fechar as pessoas em guetos dos quais nem para trabalhar podem sair??? É isto que queremos das nossas cidades? Uma cópia da Europa? Um centro rico com tudo civilizado e uma periferia fechada sobre si própria e entregue aos lobos servindo apenas para espremer rendimentos?? Podemos ser todos diferentes mas corremos o sério risco de ficar todos fechados em infernos incrivelmente similares.