Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Paradigmas

Os presentes de Pandora

À medida que a crise se arrasta e percebemos, a um nível quase molecular, que isto não é um simples “safanão” mas antes uma possível mudança permanente nas relações económicas e sociais (de degradação contínua) há grupos e pessoas que teimam em aparecer para no fundo fazerem uso das excelentes condições do país para alterações radicais – mais uma vez repito (pode ser que algum “boy” de um partido leia isto por acidente e aprenda) não é possível exigir civismo a quem nada tem e um sistema composto, em grande parte, por pessoas que nada têm investido nele e na sua continuação estão mais que dispostas a mandar tudo abaixo, é só uma questão do aperto e desespero continuarem. Os grupos não são homogéneos nem partilham opções ideológicas de forma monolítica (nem na forma de agir diga-se) mas têm algumas coisas em comum. Como por exemplo o facto de mesmo em tempo de crise conseguirem arranjar financiamento para continuar a operar quando são perfeitamente marginais em termos de sociedade (o que quer dizer que o peso económico de alguns dos seus membros não é de desconsiderar) e também conseguem captar tempo de antena mesmo não tendo peso social significativo (pelo menos até agora) o que nos leva a supor que além de terem alguns membros de carteira pesada também terão melhores posicionamentos sociais que a maioria. Ou seja são movimentos que parecem emanar, directa ou indirectamente, das nossas “elites”.

"Power is not an institution, and not a structure; neither is it a certain strength we are endowed with; it is the name that one attributes to a complex strategical situation in a particular society." - Michel Foucault

Em primeiro aparecem os monárquicos. Herdeiros de uma linha derrotada e escorraçada em 1834. Detentores de “títulos” que ninguém conhece ou reconhece. Pretendentes num país que não tem o que pretendem. Ultramontanos intransigentes numa nação secularizada e cada vez mais diversa. São a quintessência das contradições lógicas e históricas de um país de memória curta. Conviveram com a ditadura na esperança de um destino semelhante ao espanhol, em que Franco restaurou o privilégio de nascimento, mas as voltas saíram-lhes trocadas. Aparecem agora como defensores da moral e bons costumes e claro que não faltam oportunidades deste grupo perfeitamente exógeno à sociedade portuguesa se exprimir às massas. Como é que se justifica isto jornalisticamente não sei mas em termos ideológicos a mensagem é clara: estamos cá e até não somos tão maus como nos pintam.

“Everyone likes flattery; and when it comes to Royalty you should lay it on with a trowel." - Benjamin Disraeli

Em segundo lugar aparecem os grupos de extrema-direita de inspiração mesmo fascista. Existem por toda a Europa e partilham sempre a mesma técnica de organização e tipo de discurso. Medo e violência são o pão nosso de cada dia na mente destas pessoas, medo que visam inspirar nos outros (quer quem os contradiz quer quem os apoia) e violência que se manifesta no mínimo ao nível dos discursos (sempre contra grupos que formem bons bodes expiatórios e sem mecanismos de defesa) e não poucas vezes através de organizações paramilitares organizadas paralelamente (a relação entre partido e milícia é sempre negada mas as investigações feitas internacionalmente provam precisamente o contrário, há sempre um elo claro de ligação em ideologia e financiamento). Há também sempre a dicotomia entre a aparência democrática (instituição que desprezam de alma e coração) e a realidade das suas crenças internas, totalitárias, e da violência que em muitos países fazem recair sobre vítimas inocentes (espancamentos a imigrantes, minorias religiosas ou sexuais são ocorrências frequentes quando não terminam mesmo em mortos).

As novas e fantásticas escolhas que nos querem dar...

Enquanto estes ganham força política o cidadão, como figura central da sociedade, quase que desaparece. Aos medos de subsistência juntam-se o medo político de poder ter que viver num regime radicalmente diferente daquele que permite uma genuína individualidade (e não é este que temos mas que, apesar de tudo, está mais próximo, por anos-luz, que os outros dois deste ideal). A opressão semifeudal do sistema económico em construção acrescenta ainda mais limitações à nossa acção e pensamento e muitos já desistiram de viver e dedicam-se apenas a sobreviver. São tempos perigosos para Homens livres. Boa noite, e boa sorte caro concidadão.

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O modelo insustentável

Ao longo do pouco tempo que este governo tem estado em funções (depois do que deve ter sido uma tomada de posse em tempo record e um número imbatível de decretos por dia) já se começa a ter uma ideia de qual é a Grande Estratégia que têm para o país. Devemos trabalhar para nos transformarmos nas Filipinas da Europa. Salários baixos permanentemente, educação mediana (com tendência a baixar drasticamente em poucas gerações), corrupção galopante (nenhum governo que se diga determinado a combater a corrupção pode permitir que aberrações fiscais como a Zona Franca da Madeira continuem a funcionar) e uma economia essencialmente virada para nichos de mercado de exportação e pouco preocupada (ou melhor, perfeitamente indiferente) em satisfazer as necessidades nacionais. É verdade que ainda não estamos bem ao nível que nos parecem querer colocar, faltam uns quantos toques de brutalidade policial, violações à privacidade, destruição do conceito de cidadania, criação de um clima de apatia e medo mas a verdade é que parecemos determinados em dar largos passos para preencher essas graves lacunas no nosso novo perfil internacional.

Bem-vindo ao paraíso, se tiver uns milhões a mais.

Este modelo, de um ponto de vista meramente económico, era irrealista desde o dia em que foi concebido visto que as exportações nunca poderiam crescer ao nível desejado tendo o euro como moeda e muito menos sem se reduzir o trabalhador médio ao nível salarial de um servo da gleba do século XI – e por muito que se faça para baixar o nível de vida médio e o salário a verdade é que nunca seriamos competitivos com os mercados asiáticos. Mas, para quem o desenhou, tinha outras vantagens que penso que terão contribuído a ter sido adoptado. Em primeiro lugar joga com todos os complexos de superioridade das nossas elites. Promete reduzir de forma brutal o que eles consideram ser o poder abusivo do servo, perdão assalariado, em reclamar direitos legais e coloca-o a todos os níveis na dependência do seu patrono (talvez “senhor” ou “amo” sejam mais adequados à nova realidade). Em segundo lugar mantém todo o país como aquilo que sempre desejaram que fosse, uma coutada privada de algumas famílias que tudo podem e que são absolutamente intocáveis (a todos os níveis). E finalmente drena as massas de energia que poderiam usar para combater a sua situação sem ter que recorrer ao modelo clássico de integração dos melhores. É um circulo perfeito e inquebrável, pelo menos em teoria.

Parece que das duas uma... ou se esqueceu que os próximos em tribunal poderiam ser eles próprios ou não têm intenções de largar o poder. Nunca. Será que também teremos responsabilidade criminal por outras coisas? E que tal um julgamento por juri sorteado da população geral? Não? Porquê?

Supostamente era isto que nos iria impedir de acabar como a Grécia (como se a Grécia, entre outros, em termos populares não estivesse anos-luz à nossa em frente em reivindicação). Não era acabar com o chocante facto de a esmagadora maioria das empresas de grade dimensão praticarem elisão fiscal numa escala que é, pelos vistos, só moralmente criminosa já que os lacaios políticos criaram as aberturas certas em termos de fuga financeira legal (empresários esses que não têm qualquer pudor em vir a público dar lições de moral sobre ética e o funcionamento do estado ou o que as classes desfavorecidas merecem) que nos podia levar a uma situação melhor. Não caro leitor. Era o modelo de desenvolvimento de emulação de um país disfuncional de terceiro ou quarto mundo. Volto a dizer que estas reformas políticas têm muito de agenda de domínio social para certos grupos e que até o que se está a querer vender como medidas de responsabilização e moralização da vida política nas mãos de algumas pessoas podem acabar em simples vendettas pessoais e políticas com vista a perpetuar o poder partidário e acima de tudo a preponderância pessoal dos controladores destas redes de influência.


A Nova Pirâmide Social

Não que algum partido que tenha estado no governo tenha tido realmente boas intenções para com a área da educação mas esta coligação está realmente está a distinguir-se por levar as iniciativas de todos os outros à sua conclusão lógica: a transformação total do Ensino Público numa espécie de gueto onde se despejam ao abandono os filhos de quem não é “relevante” (caso esteja em dúvida se não está no percentil dos 10%, ou mesmo 5%, mais ricos do país então não é relevante para este sistema – e os seus filhos terão que se resignar a serem baixas numa guerra cultural não declarada). Os cortes que estão nesta altura previstos para o sector são o triplo (sim leu bem, o triplo!!) daquilo que até foi acordado quando recebemos o empréstimo à banca, do FMI e UE, que todos temos que pagar sabe-se lá como. Isto não tem qualquer justificação racional. Nem pode ter tendo em conta que este ministro da área passou a vida a criticar o anterior governo por “falsificar resultados” (com facilitismos). Se, supostamente, tinha problemas que, antes das eleições eram catastróficos, eles serão resolvidos com esta solução que o que faz é despedir 30000 professores e cortar o triplo da verba requerida? Além destas medidas que ultrapassam largamente o meramente draconiano, são genuinamente punitivas do sector da Educação Pública, ainda ficamos na dúvida sobre a validade do concurso que colocou os professores que sobraram, havendo suspeita de irregularidades (não que acredito por um segundo que qualquer investigação revele seja o que for mas de qualquer fica o alerta dos sindicatos).

O problema é que as pessoas já não fazem isto às nossas elites e eles, naturalmente, sentem-se ultrajados. Como se atrevem os campónios a não fazer o beija-mão? Já não bastava perder o título nobiliárquico e agora isto…

Para onde podemos caminhar com um cenário destes? Bem não será muito complicado adivinhar que o objectivo parece ser duplo. Por um lado a destruição da Educação Pública seguida de um mega processo de privatização das áreas do ensino mais apetecíveis deixando as zonas “problemáticas” nas mãos do que sobrar do Ministério da Educação (ou melhor ainda, se se quiser mesmo espalhar o caos total, colocar as escolas sob a tutela camarária). Após isto entramos num período de grande segmentação social dos alunos (se esse processo já hoje é visível imaginem depois disto tudo) em vários tipos diferentes de estabelecimentos e claro com o famoso cheque ensino o financiamento aberto de organizações religiosas elitistas que continuam a poder rejeitar qualquer aluno com base em qualquer critério imaginável. Avançando tudo estaremos perante um processo de segmentação populacional e engenharia social como já não se via desde os dias de ouro do Império Britânico. É o fim total da mobilidade social por via legal e ética.

Um novo slogan para as nossas elites? Podem acrescentar debaixo do brasão de família.

Dado que sempre considerei que acima de tudo os objectivos das elites portuguesas eram sociais e culturais, antes de serem económicos (basta ver o ineficaz sistema de cunhas que vigora com uma pujança nunca antes vista no sector privado – o objectivo não é capitalizar os ganhos ou maximizar o lucro, o objectivo é promover uma estrutura de poder com as “pessoas certas”), não é de estranhar que se use a crise para tapar o que, eu penso que, será um dos principais legados deste governo e o sistema político que está a compactuar com isto (o silêncio de alguns sectores é ensurdecedor). Com a ameaça de não querermos ser Gregos estão a ir conseguindo impor as coisas, pouco a pouco, mesmo quando no epicentro político e financeiro do mundo se começa repensar este tipo de políticas e a credibilidade deste tipo de elites.


O Mini Panóptico

À medida que o mal-estar avança na sociedade portuguesa e os sinais começam a não ser disfarçáveis (mesmo com o controlo da esmagadora maioria dos canais de informação) isto tem como consequência directa que as forças que tomaram o Estado como ferramenta de poder pessoal começam a ficar de alerta – afinal de contas parece que ficaram assustados quando uma só central sindical (supostamente a morrer como todos os sindicatos, ou assim os seus homens de mão têm prometido há mais de 20 anos… que lentamente iriam apagar a representação colectiva do mapa laboral português) consegue movimentar 180 mil pessoas só em Lisboa e Porto sem haver nenhuma medida em concreto como alvo. Vamos ser claros: as necessidades deste grupo de poder, desta elite se quisermos (no sentido de efectivamente comandarem poder não do representarem excelência), não vão diminuir com o tempo. O modelo económico que escolheram baseado em rendas semifeudais e acordos mútuos de partilha de mercados vão continuar a ter quebras por muito que usem o chicote nos seus funcionários ou por muito que forcem os seus servos políticos a criar legislação favorável a si. A razão é simples nenhuma nação pode ser moderna e civilizada sem uma grande classe média. Nenhuma economia deste tipo pode prosperar sem o poder de compra dessa mesma classe média cujo consumo não pode ser substituído em volume ou variedade pelo consumo de uma classe privilegiada minoritária, por muito abastada que seja. E ao condenar a classe média com a defesa sem excepções do interesse privado e mesquinho, estes grupos, selaram o seu próprio destino do qual ninguém, nem o Estado que tanto se esforçaram para tornar uma criatura sua, os pode salvar. A decadência seguida da inexistência.

Meus caros o fato pode ser Gucci mas a corda aperta e enforca à mesma...

Ou assim o temem. Pelo menos os mais previdentes das elites – e há alguns. Se os mecanismos normais não funcionam está na altura de entrarem os extraordinários. O que se chamaria noutros tempos a santíssima trindade: vigilância, censura e repressão. Já está no ar a ordem de começar a apertar a vigilância e a preparar as outras duas, só não sabemos que forma irão escolher para estas medidas. Provavelmente, sendo isto Portugal, vai-se começar com jogos linguísticos. O que engloba a liberdade de expressão (os que são imunes à crítica), quem engloba (licenciar ou pelo menos registar qualquer pessoa que emita uma opinião pública), criar nomes aos novos críticos; descamisados, incapazes, preguiçosos e sem talento para o cidadão médio que se recusar a venerar ao altar do regime;  hooligans, vândalos e escumalha se forem manifestantes no campo; traidores e demagogos se usarem o campo intelectual e criminosos e terroristas para os que puserem mesmo em risco a estabilidade e integridade física do sistema. Depois de findo este processo de recriação de todo um conjunto de pessoas podemos ter uma verdadeira caça ao dissidente usando todos os meios que a tecnologia moderna proporciona e o estado português usa.

Em teoria temos tudo garantido na realidade depende do uso que quiser fazer da maquinaria do poder...

Mesmo havendo sinais do exterior em como se deveria ir contra as políticas que estão a ser tomadas em vários campos a elite nacional está demasiado comprometida… Até de um ponto de vista quase que emocional são incapazes de mudar os seus ódios seculares, os seus sentimentos indevidos de superioridade face ao cidadão normal (noutros países situações similares levaram a extremos…), a sua forma de gerir os negócios ou mesmo a sua forma de domínio social. Preferem trazer todo o edifício abaixo a abrir mão de um só grão de areia que seja. Promete verdadeiramente ser um conflito sem remorso, piedade ou qualquer possibilidade de negociação.


Focos de Combate

Tal como a Doutrina de Choque exige quando se quer avassalar um povo psicologicamente não se pode dar descanso, há que ser incansável no fornecimento de (des)informação. Tem que existir um bombardeamento constante de novos dados em tal quantidade e velocidade que as pessoas comecem a perder não só o seu sentido de orientação como a noção da realidade. Não sabem o que é simplesmente um projecto ou que está a ser implementado. Não distinguem o que é uma ameaça de algo que pode ser real. É este caos mental total que é o resultado desejável para evitar contestação concreta e justificada – afinal de contas quem não sabe muito bem o que se passa não se consegue mobilizar contra nada em específico ou organizar-se com outros (nem conseguiriam concordar em qual é a realidade). A guerra cerrada e implacável ao conceito de “Público” avança a todo o gás e como não podia deixar de ser continuam a sair “notícias” que querem dar a entender que a culpa do défice é das empresas que ainda são geridas pelo Estado (quando no fundo muitas delas são de bens públicos e são as únicas no país onde existe qualquer tipo de controlo remuneratório à gestão de topo). Mais uma vez não se especifica nada, em que diferentes áreas estas empresas operam, quais os sectores em que a dívida foi acumulada, como foi acumulada, etc. É tudo metido no mesmo saco como interessa porque dessa forma dá para liquidar tudo simultaneamente numa onda gigante de dissoluções (ou aberturas de espaço de mercado para os privados) e privatizações (compra de bens públicos por meia dúzia de euros por privados bem colocados politicamente).

A insaciabilidade das elites portuguesas por negócios fáceis é lendária.

Mas isto é apenas o presente e as nossas elites até pensam no futuro, o deles (mas isso não vem ao caso). Como o condicionamento social deve ser começado o mais cedo possível (para evitar quebras comportamentais mais tarde na vida) os tais prémios aos melhores alunos do secundário foram abolidos. Assim sem mais nem menos resolveu-se acabar com o pequeno gesto simbólico que servia essencialmente como uma honra social para quem desenvolveu grande esforço académico; a mensagem é clara, não queremos saber destes alunos, sejam eles bons ou maus – claro que nos próximos dias sairá uma nota oficial do Ministério da Educação a explicar como isto faz parte do esquema de poupanças do Estado e que qualquer leitura ideológica seria desapropriada, ficamos é sem perceber como é que os 500 euros por aluno levariam a nação à bancarrota quando ninguém parece muito preocupado com um buraco de pelo menos 6 mil milhões de euros numa região autónoma. Do bloqueio aos incentivos para a excelência seguimos para a justificação moral dos efeitos dos despedimentos em massa que já forma feitos e ainda estão por fazer (e acreditem que mal se começou porque a avalanche de incentivos que este governo está a criar nesse sentido ainda não está a funcionar em pleno), afinal as pessoas reformam-se porque estão deprimidas. O que não duvido por um segundo. O que não se explica é a causa da depressão. Perda de status social? Poder de compra? Situação profissional? Salário mais baixo? Horas extra não remuneradas? Más condições de trabalho? É um vazio de explicações em que só cabe a palavra depressão, assim passa a ser um problema de incapacidade psiquiátrica da pessoa que sai e não o resultado de políticas sistemáticas.

A citação completa é a seguinte e explica porque se deve olhar para o longo prazo: "Only a crisis - actual or perceived - produces real change. When that crisis occurs, the actions that are taken depend on the ideas that are lying around. That, I believe, is our basic function: to develop alternatives to existing policies, to keep them alive and available until the politically impossible becomes the politically inevitable"

E, claro, tudo isto leva o selo de aprovação dos meios de comunicação respeitáveis que já dizem que o apoio a este governo é entusiástico. Fiquei com sérias dúvidas sobre onde terá sido realizada esta sondagem porque tenho um círculo de contactos ainda alargado e tirando pessoas filiadas nos partidos de governo não conheço ninguém que dê sequer uma nota positiva ao que estão a fazer, quanto mais que votasse, ou voltasse a votar, neles. Não corresponde de todo à minha experiência quotidiana. Mas se vem noticiado é porque sem dúvida é verdade e os portugueses não só estão a adorar isto como ainda estão mais entusiasmados que antes, quase parece que cada corte no seu poder compra e na sua dignidade como cidadãos os excita ainda mais. Afinal parece que somos um povo de masoquistas.


A servidão subsidiada

Quando pensamos que as coisas não podem piorar ou que não podem sair mais ideias absurdas de um governo eles tendem a surpreender-nos, pela negativa, e insistem em lançar mais pacotes todas as semanas que fariam os anjos chorar. Com um desemprego real que deve rondar os cerca de 1 milhão de trabalhadores (as estatísticas mais simpáticas que circulam tendem a excluir um certo número de categorias de pessoas que ainda são, de facto e para todos os efeitos, trabalhadores sem ocupação) vai ser lançado um novo programa piloto que visa pagar às empresas para empregar quem não tem ocupação há mais de 6 meses. Sim leram bem. As empresas vão passar a ser pagas a 420 euros mensais por cada desempregado de longo-prazo que “acolherem” (o mesmo que o dito desempregado recebe de subsídio). Não há qualquer referência ao nível de qualificação do desempregado o que provavelmente quer dizer que são pagos todos pelo mesmo valor, ou seja, é possível desde o momento em que este programa for lançado que uma empresa seja paga para obter um técnico qualificado que precisa de qualquer forma. O dito técnico no entanto é forçado a aceitar uma remuneração abaixo do salário mínimo (porque afinal de contas é contabilizado como uma compensação social e não um salário – como é bonito brincar com as palavras).

As saudades que a pobreza abjecta do antigamente gera no sector conservador…

Mesmo sendo anunciado como uma espécie de programa de estágios de longa duração qualquer pessoa que tenha tido o mais leve contacto, directo ou indirecto, com essa instituição (o estágio profissional) sabe que isso em Portugal equivale a um carrossel que não garante nem emprego nem futuro a ninguém (e agora pelos vistos nem salário, só uma mísera prestação social). No dia que sai um estagiário entra outro para a mesma vaga sendo o lugar nunca preenchido e nunca entrando ninguém para os quadros da empresa – agora claro passa a existir a vantagem de não se tratar de jovens de 21 anos mas sim de, potencialmente, técnicos que já têm anos de formação, experiência e hábitos de trabalho. A ser realmente implementado nesta fase piloto (a 35000 desempregados de longo termo, ou seja, cerca de 3,5% da população de desempregados reais) e a não existir contestação suficiente corremos o sério risco de isto se tornar a forma de contratação preferencial em Portugal nas próximas décadas (alguém acredita que o empresário português não vai abusar e esticar este regime até ao limite?).

Como todos sabemos as ajudas estatais a certos sectores servem apenas o bem comum! E quem diz o contrário não sabe os sacrifícios exigidos aos nossos magnatas especulativos…

Claro que nos próximos dias e semanas estão previstas dezenas (nas palavras do ministro da economia) de novas medidas nesta área e se fossemos algo cautelosos poderíamos dizer que quase que parece que se quer diluir o efeito mediático que uma bomba destas poderia ter na sociedade. Mas para o caso de isto não passar o crivo da opinião pública já foram lançadas para o ar novas ameaças quanto à gravidade crescente da crise e como consequência lógica, não explícita, a necessidade do trabalhador se sujeitar ainda mais, o que pode incluir adicar do conceito de salário, aceitar a prestação social como substituto e ainda subsidiar (provavelmente através de impostos indiscriminados ao consumo) as empresas que lucram como este novo sistema. É curioso que em medidas que era suposto ajudarem o cidadão comum (esta nem na teoria ajuda mas está a ser vendida como tal) este governo propõe-se gastar a fabulosa soma de 100 milhões de euros mas no entanto está mais que disposto a enterrar a título perdido 12 mil milhões num sistema bancário que cavou a sua própria sepultura. Até nestas coisas se vê o que é realmente importante.

 

Adivinhem quem está de volta?

Ps: Entretanto os factos estranhos ou quase que intimidatórios não se limitam a esta medida laboral, temos mesmo uma semana em grande. Temos o sector televisivo estatal a misteriosamente abster-se de licitar conteúdos de audiências garantidas, aparecem, mais uma vez em alturas chave, estudos que visam reforçar a normalidade da ideia de privatização de certas áreas vitais e é dado mais um passo de agressividade conservadora religiosa que silenciosamente cria as bases sociais para poder voltar em toda a sua força – mais um passo na reconstrução da sua legitimidade pública.


O fortalecimento das barreiras sociais

Não houve qualquer surpresa nas medidas anunciadas hoje pelo governo e muito menos em descobrir sobre quem vão incidir: o que ainda existe da classe média (caso não tenham percebido o IRS só taxa quem tem mesmo um emprego, ou seja, trabalha… ou seja não tem uma empresa para declarar que recebe um salário mínimo recebendo o grosso do bolo em dividendos ou outra figura legal equivalente ainda mais obscura). Como estava previsto impostos de herança sobre grandes fortunas ficaram na gaveta, tributar ganhos financeiros nem pensar, taxar propriedades acima de determinado valor (e falamos na ordem dos milhões por isso guardem as lágrimas derramadas em nome destas almas danadas que seriam penalizadas) nem está em cima da mesa para discussão. Claro que tivemos direito a um frenesim mediático o dia todo onde os comentadores bem domesticados comunicam a inevitabilidade das medidas e a sua justiça. A raiva que alguns sentem (resultado dos maus tratos e impotência total) é canalizada para meia dúzia de gritos semi-histéricos na Tv ou rádio, sem grande efeito, e ainda esta semana a maquinaria do Estado e grupos económicos privados associados começará, não só a respirar de alívio, como a implementar tudo o que foi “corajosamente” decidido.

A preocupação e cuidado humano que os nossos gloriosos mestres demonstram para connosco é comovente!

Outras medidas mais de longo prazo também vão começar a fazer efeito e a corroer o tecido social como por exemplo o facto de as bases dos serviços de educação (quando não mesmo a filosofia subjacente ao próprio conceito de educação) estarem essencialmente a ser demolidas em várias frentes. Num lado as creches são entregues a privados que usarão a partir deste momento trabalho voluntário (antes tinham mesmo que contratar profissionais mas pelos vistos em Portugal só algumas crianças é que merecem a atenção de pessoas devidamente treinadas o resto pode ficar nas mãos de amadores bem intencionados). Isto essencialmente vai degradar as condições de trabalho nesta área, já complicada, ao ponto de as tornar impossíveis (afinal de contas se legalmente posso lá ter alguém gratuitamente porque iria pagar?). Noutra frente da mesma batalha sacrifica-se completamente qualquer qualidade de ensino em nome de umas economias miseráveis e mal explicadas – dá a impressão que o objectivo de tudo isto é não só o de parar o elevador social (que já estava fora de serviço há mais de uma década) como de o desligar de vez e barricar as escadas contra qualquer intruso. As turmas aumentam, a pressão sobre os técnicos aumenta, a escola é partidarizada ainda mais e quase 40000 técnicos superiores ficam no desemprego. Outros países aproveitaram as suas grandes crises para criar grandes reformas na educação, em Portugal tomam-se medidas que só poderão contribuir para solidificar o sistema de castas sociais.

Se está a ler este blogue então tenho o triste dever de o informar que provavelmente estará do lado de fora da muralha…

Tudo indica que não haverá solidariedade entre classes sociais em Portugal. Esta muralha da China financeira e legal (e suspeito que mais tarde policial) já estabeleceu (em toda a sinceridade talvez seja melhor dizer que apenas clarificou já que o processo não foi iniciado hoje) aqueles que são os eleitos que pertencem ao “Império Celeste” e aqueles que pertencem às tribos bárbaras tributárias deste grande ponto de emanação de “ordem”. Esquecem-se, ou preferem esquecer, que do outro lado da barreira que criam pode nascer um grande Khan…

“Eu sou o castigo de Deus… se não tivessem cometido grandes pecados, Deus não teria enviado um tão severo castigo como eu sobre vocês.” – frase atribuida a Gengis Khan


O paradigma continua a mutar

Comecei este espaço a falar de um caso que na minha opinião reflectia uma tentativa mais ou menos transparente do sector conservador voltar a ter uma posição de relevo social. O que se calhar deveria ter deixado mais claro é que isso era apenas uma das muitas possíveis manifestações de um mesmo fenómeno. Quase que se poderia afirmar, se para estivéssemos para aí inclinados, que existiria um grupo conservador organizado em Portugal, fortíssimo, com laços políticos e financeiros que seriam verdadeiramente tentaculares que, tendo perdido em toda a linha (ao longo de quatro décadas) na revolução dos costumes e na batalha pela mente das pessoas, se retirou durante uns anos (alguns em exílio físico, outros só “espiritual”) mas que regressou rapidamente ao activo e estabeleceu bases de ataque permanentes em certos campos (dos quais nada está fora de consideração incluindo a ciência, a religião e a arte). Como é de conhecimento comum um paradigma não se muda rapidamente a não ser em situações de extrema pressão para a estrutura socioeconómica existente (que curiosamente é o nosso caso…) e normalmente começa com meia dúzia de iniciativas muito “low key” para poder medir a reacção popular (ou preferivelmente a falta dela) da segurança e conforto das sombras.

O ser perfeitamente adaptado às necessidades comerciais e da vida moderna.

Se o outro caso que me levou a este tema abordava o código de vestuário que se queria impor numa Universidade Portuguesa (à sombra de um estatuto legal algo dúbio que gerações de políticos ligados à esfera da educação se recusaram terminantemente a clarificar) este é sobre uma exposição de arte cancelada. E por motivos de várias ordens sou obrigado a admitir que é impossível traçar uma linha directa entre as duas coisas, para todos os efeitos são dois eventos díspares que têm apenas a particularidade de poderem encaixar numa determinada mudança de atitude pública face a certas liberdades. O leitor que decida o que fazer com a informação e a que conclusão chegar. Neste caso o artista, João Pedro Vale, vê a sua exposição cancelada pela companhia seguradora que o patrocinava. Segundo o artista porque lhe foi claramente dado a entender que era demasiado gay. A expressão usada foi “não compatível com os valores da empresa” o que nos deixa na dúvida se dizem isso a todos os clientes que lhe passam pela porta… “desculpe mas você não é compatível com os valores desta empresa”. Foi-lhe sugerida a hipótese de censura prévia pelos “stakeholders” (não especificados…) de forma a, supomos, torna-la mais “aceitável” (ao paladar de quem desconhecemos porque não sabemos especificamente quem se está a queixar). E assim começamos a standardizar até a produção artística segundo o padrão do Conselho de Administração. O gosto do homem comum (tal como a sua informação) passa a ser decido por meia dúzia de não-eleitos que não dão a cara).  Quase que parece um regresso ao capitalismo familiar na sua face mais opressiva. A do pequeno dono rural que quer controlar e moldar tudo e todos dentro do seu pequeno domínio.

Este provavelmente também teria que ser submetido a aprovação prévia...

Não estando provada a ligação dos eventos. Ou o envolvimento coerente da corrente conservadora. Ou de uma série de outras coisas que não se escrevem em documentos e como tal nunca serão passiveis de ser provadas. Resta-nos ver que num mês temos dois episódios mais ou menos significativos no sentido de regular o gosto e comportamentos gerais para um padrão mais aceitável para o conservadorismo de um determinado sector social. Para uma sociedade que se diz livre teremos ou um alto grau de conservadorismo reprimido ou estaremos a ser empurrados para determinados “corredores” de pensamento e comportamento como fomos noutros tempos. Pode ser mais subtil e ter como capa o direito (não sei se já foi considerado sagrado ou não…) de propriedade privada mas não o torna menos desagradável, opressivo ou indevidamente regulador.


Desilusões perigosas

Acho fantástico que se as pessoas pela primeira vez em décadas comecem a dar sinais de vida cívica, ou pública, e estejam já a preparar uma nova manifestação contra precariedade e todo o sistema que a mantém. Mostra que pelo menos ainda não estão completamente apáticos face ao que lhes está a ser imposto. Mas há graves problemas com a mentalidade que este tipo de iniciativa incentiva. Em primeiro lugar quase que dá a entender que isto é um passeio de Domingo em que até dá para ser divertido – o objectivo de qualquer movimentação social séria não é que as pessoas que nele participam estejam divertidas, para isso o sistema já proporciona, com uma vasta gama de preços e gostos, entretimento para todos; a intenção seria quebrar precisamente esse circulo vicioso diversão com aparência de contestação. Em segundo lugar, e isto é o mais importante, estas primeiras manifestações populares estão destinadas ao fracasso. Quando se sai para a rua é para das duas uma, ou fazer uma exigência concreta ou forçar alguém a abandonar o cargo. Neste caso não há nada disso no cardápio. É uma manifestação apenas por manifestação. Nada é pedido em concreto e como tal nada pode ser oferecido, não existem possibilidades negociais quando não há exigências concretas.

Brincamos?

Se me estivesse a sentir particularmente cínico diria que estão a cansar intencionalmente as pessoas com eventos que não podem pela sua natureza e organização (ou falta dela) produzir resultados reais com o objectivo de as imunizar a iniciativas que possam surgir, mais tarde, com algum potencial de sucesso e de mudança. Criar uma boa dose de desilusão com a vida pública (no verdadeiro sentido da palavra, de participação na Pólis, directamente e não apenas de forma afastada e inconstante como a nossa cultura política nos forçou) nas novas gerações para depois facilitar uma imposição de conformismo. Esperemos que não seja o caso e eu esteja apenas algo pessimista. Esperemos que se trate antes de um acordar de responsabilidade cívica por parte de pessoas que quase que se esqueciam que faziam parte de uma comunidade política. Mas por este ponto de vista convém então refrear, e muito, as esperanças que se possam ter sobre este primeiro tipo de iniciativas. Não vão dar em nada concreto, nem é suposto darem em nada (tal como pode comprovar pelo que aconteceu lá fora).

Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes...

No imediato o que há mesmo a esperar é que a continuação do teatrinho das “reformas” e da seriedade intocável. E da “enorme” preocupação com a despesa pública. Ou pelo menos aquela parte que é destinada à redistribuição social, fomento da economia real e manutenção de serviços públicos suficientes que nos permitam pelo menos aspirar ainda a ser um país senão do primeiro mundo pelo menos do segundo.


A demolição prossegue a bom ritmo

Se há algo que não me canso de repetir neste blogue é que o governo tem pressa. Tem pressa em legislar. Tem pressa em começar a aplicar. E acima de tudo tem pressa para fechar portas. Há que correr antes que alguém comece a fazer muitas perguntas ou muitas contas que não possam ser afastadas com a ajuda de um “jornalista/entrevistador” simpático como simples trica partidária, má fé, ou ideologia (como se esta última não fosse sequer uma crítica legítima! É quase a proibição formal de falar de modelos de funcionamento de sociedade). Há pressa porque quando esse dia chegar acabou. As portas fecham-se. As pessoas simplesmente bloqueiam todo o funcionamento do Estado e Empresas satélite podendo chegar ao extremo de exigir a reposição de pelo menos parte daquilo que lhes foi retirado sem consentimento. Portanto, como qualquer um pode ver, é do interesse do Estado apressar a transferência de riqueza o máximo possível antes que tal suceda e trave muitas ambições. Agora chegou a vez dos equipamentos sociais (não se enervem desmesuradamente porque chegará a hora de outros sectores).

Não se preocupem... a receita é única e serve para todos.

A fome de oportunidades de rendimento fixo garantido de certas entidades comerciais chega ao ridículo de o Estado só deter neste momento menos de 5% do total destas instituições mas estar previsto o seu quase total desmantelamento. É verdade que é um sector que só pode crescer pois afinal todos queremos o melhor para os nossos filhos e pais mas o que não está a ser equacionado (incompreensivelmente) é o poder económico da classe média. Especialmente o facto de estar em queda livre. A procura pode existir teoricamente mas nunca poderá ser satisfeita pelos privados que ou exigem pagamento directo (que para a maioria é simplesmente impossível em termos de orçamento familiar) ou indirecto (através de subvenções do estado numa altura em que a carga fiscal se aproxima perigosamente daquilo que é possível sustentar como ser humano ainda livre – com a notável excepção das empresas e especialmente do sector especulativo que parecem fazer parte de outra economia, com outras regras e outras exigências que não a sobrevivência do país).

Há temas que é melhor ser mesmo assim... na sombra, no silêncio... sem nunca se perceber muito bem o como e o porquê...

As racionalizações são as banalidades do costume usadas para tapar mais uma transferência colossal de bens e rendimento (e poder social), mais uma suposta eficiência acrescida (em quê pode-se perguntar? – o curioso é que para outros sectores bem menos vitais do estado esse standard parece que se evaporou) que se traduz ou em menos direitos para os utentes ou para os funcionários ou ambos (e o efeito de bola de neve de tudo isto no resto da economia fica, como sempre, enterrado em montanhas de propaganda sobre a superioridade do mercado). Como se isto fosse positivo. Mais engraçado é ver uma das instituições que mais envolvida está no sector social (por razões próprias…) manter um silêncio espantoso sobre este tema gritante ou os detalhes que o rodeiam. O melhor mesmo é mostrar carinhas novas na TV deslumbradas com esplendor da corte em viagem e desejosos de fazer o beija-mão. Muito mais impressionante e evita questões embaraçosas. Já agora para quem estiver curioso o sector em questão vale 5% do PIB. Uma boa maquia não vos parece?


Manobras de contenção

Por toda a Europa multiplicam-se as tentativas de acalmar o que pareceu ser um onda de agressão espontânea direccionada contra os grandes desequilíbrios sociais que se estão a construir de forma semiautoritária (sem submeter o grosso desta transferência de riqueza a referendos e outros métodos de escrutínio da opinião pública). Sobre a capa de se querer evitar a desagregação social (como se o facto de as pessoas se unirem para contestar o que está a acontecer não fosse prova do contrário) está-se a aplicar ora medidas repressivas ora medidas de distracção ou acalmia para continuar todo o processo até ao seu fim (o chicote e a cenoura para o burro não parar de vez). A parte mais deprimente de todo o processo é como tentam desviar as pessoas para o protesto banal e ineficaz que acaba por ter os mesmos efeitos do conformismo mais apático à face da Terra.

Mais uma enorme escolha desprovida de qualquer significado ou consequência.

Em Espanha andam todos distraídos, em véspera de eleições, com uma visita do papa, líder de uma Igreja que nunca teve pudor em dizer quem apoiava (a visita vai ter direito à presença da família real outra entidade completamente partidária e que serve, na opinião de muitos espanhóis, juntamente com a Igreja da baluarte do conservadorismo espanhol e do que resta do legado franquista). Ou seja não só as pessoas têm direito a um espectáculo público como também a comício para irem bem orientadas para as urnas (claro que tudo é feito sobre a mais estrita neutralidade legalista mas isso só mostra o lado perverso de se prestar atenção exclusivamente à formalidade – não haverá provavelmente uma palavra partidária directa nos discursos mas para bom entendedor…). Parece que, tal como na Noruega (só coincidências…), havia um plano de atentado (envolvendo por pelo menos um devoto cristão conservador) ao que poderia ser considerado a ala liberal do país (neste caso os que se opunham a que o Estado Espanhol arcasse com um cêntimo do custo desta visita papal). Neste caso, felizmente, foi possível evitar uma desgraça e apanharam-no antes que pudesse fazer estragos.

"Gangs isolados", "vandalismo" é o que mais se gosta de usar... e que tal: combate urbano e rebelião popular?

Pelo Reino Unido a técnica continua a ser a pálida imitação da baronesa Thatcher que o primeiro-ministro David Cameron parece empenhado em prosseguir. É prisões para os revoltosos e para quem “publicitou/incitou” a revolta. Ficamos sem saber se as tvs também serão multadas e os seus jornalistas principais encarcerados. Ou são apenas determinadas opiniões sobre o tema que dão direito a ir preso? Será mesmo que a causa de uma semana de caos urbano no Reino Unido pertence realmente a dois miúdos que usaram uns slogans? Quando se tornar muito incómodo também se fecharão as redes sociais e blogs como no médio oriente? Ficamos também sem saber qual é a moral de um governo que prende jovens adultos nestes casos mas permite que os seus “cidadãos mais respeitáveis”  investir (de forma legal) em armas proibidas. Será que irão colocar a cara dos presidentes dos Conselhos de Administração destes bancos em ecrãs ao longo de Londres para os encontrar e identificar? Em Portugal ficamos sem saber muito bem quando é que apoio ou palavras de ordem serão criminalizadas (esperemos não chegar a tanto porque as penalizações pessoais por emitir opiniões de qualquer ordem já são pesadas o suficiente). De qualquer forma ficamos a saber que a última reforma do governo prepara-se para criar mais 40000 desempregados (e neste ambiente económico são permanentes) como “dano colateral”. Estranha forma de contribuir para a estabilidade.


Os perigosos marginais

Que nos dizem compor de forma exclusiva as multidões puseram várias cidades do Reino Unido a ferro e fogo. Ou pelo menos as partes comerciais, e, no fundo, é isso a única coisa que interessa, a sacrossanta propriedade empresarial (diferente da meramente privada) e os seus fluxos de libras, e daí a tentativa de penalizar brutalmente os participantes. Resumindo para ficarmos todos entendidos, estamos autorizados a protestar no Ocidente desde que esse protesto não tenha qualquer efeito concreto. A partir do momento que coloca algo em risco, especialmente o fluxo económico, os cidadãos em causa quase perdem o estatuto de humanos e são atacados de todas as formas possíveis e imaginárias até se transforem apenas em exemplos repressivos sobre o que acontece a quem não é um “cidadão responsável”. Na Roma Antiga os seis mil soldados de Espártaco que sobrevieram à terceira Guerra Servil (70 A.C.) foram crucificados ao longo da Via Ápia (de Cápua a Roma) como exemplo, hoje evoluímos temos todo um sistema judicial para punir os revoltosos sem derramar uma gota de sangue. Que humano, higiénico e civilizado da nossa parte.

A fusão entre espectáculo e justiça

Todo o contexto destas revoltas está a ser ignorado e estão a dar às massas (especialmente uma ex-classe média que não percebeu que amanhã poderão ser eles nessa situação) um espectáculo de punição e agressão como elas sempre adoraram. Não saberemos se isto conterá a insatisfação crescente ou simplesmente criar uma barreira de medo adicional a todos os cidadãos. Mas de algumas coisas temos certezas. As pessoas que estão a ser tratadas como lixo humano e ignoradas não vão a lado nenhum. O número de pessoas que integra este grupo não pára de crescer (e só pode aumentar com a gravidade da crise económica que vivemos e aquela que ainda está para vir e se vai ter o seu coração na Ásia). E por fim qualquer barreira de medo pode ser ultrapassada quando as condições se deterioram o suficiente. Por isso as populações europeias têm que reflectir muito bem sobre que tipo de sociedades querem ou estão dispostos a ter e a que preço.

Somos livres de ser iguais, livres de não escolher, livres de produzir o que nos mandam. Viva a Liberdade!

Num aspecto puramente humano é deprimente ver como as pessoas embarcam tão depressa na desumanização dos seus concidadãos assim que os seus reflexos de Pavlov são activados ao verem alguns inconvenientes às suas vidinhas. Deixam de ver todas as perspectivas que não sejam punitivas e preferem esquecer as causas de tudo isto o mais cedo possível. Como se estas pessoas não existissem nem nunca tivessem existido. Rezem para não vir um dia ter que estar nesta situação e verem-se incluídos no grupo dos “delinquentes”.


O aristocrata e a plebe

David Cameron, primeiro-ministro inglês, ex-aluno de Eton, milionário, primo da rainha e casado com a herdeira de um título nobiliárquico propõe mais violência para lidar com a crise económica do país. Se não aceitam a bem perder tudo aceitarão a mal, à sombra de um poder policial total. A plebe, um misto de revoltados contra um sistema que os abandonou para morrerem e desintegrados, é pintada como já não se via desde os dias de Margaret Thatcher (ou melhor Lady Thatcher porque pelas suas medidas “heróicas” de violência contra o seu próprio povo e uma guerra de brincar nas Malvinas foi promovida a baronesa). São duros, burros, porcos e maus de forma universal como se quer numa boa demonização. Não há qualquer motivo para cometerem tais actos e o facto de serem vítimas de um dos maiores programas de choque da Europa é um facto completamente alheio a tudo isto. O sistema económico britânico praticamente colapsa (basta ver o estado do seu sector bancário) e isto não teria consequências nas pessoas. Que se assume que aceitariam ser reduzidas a uma pobreza humilhante (seriam socialmente anuladas) sem abrir a boca ou perturbar os cavalheiros e damas de bom nome e estatuto social.

Os cidadãos produtivos...

A imagem é convenientemente simplista como as pessoas tendem a gostar. O cavalheiro das boas famílias que defende a lei e a ordem a todo custo contra uns vilões que só falta serem descritos como fisicamente deformados (porque até tentativas de vender isto como fenómeno só racial já houve e falharam – tudo menos assumir as ramificações económicas). Independentemente dos excessos cometidos numa raiva cega, por quem já nada tem a perder, quem está de fora não deve engolir os mitos que parecem estar a ser criados por políticos que querem a sua própria imagem de “durões” – já que em em popularidade não conseguem e o seu governo só existe por um erro de cálculo dos Liberais Democratas que mais mês menos mês devem abandonar a coligação. Uma situação periclitante para o seu poder e imagem pessoais que exige uma resposta brutal que fique na memória das pessoas: “Os restauradores da Ordem”. A quem vê as coisas apenas pelos meios de comunicação oficiais pede-se o discernimento de ler entre as linhas da versão oficial que nos é filtrada. Isto parece ser mais complicado, feio e classista do que nos está a ser dado a entender. Além de estar a criar o precedente de usar as próprias forças de segurança (ou mesmo militares) contra a a própria população.


O não debate

Deveria talvez dizer outro “não debate” porque com a corrida às privatizações (perdão penso que actualmente o termo é “reformas”) que se está a fazer começa a ser complicado ter noção de quantas coisas estão em cima da mesa e de quem está a tomar decisões sobre o quê (reparem que neste caso o destino da empresa, RTP, é decidido por comissão – para minimizar a responsabilidade de cada um?) – aparentemente não há qualquer autoridade central que esteja a coordenar estas mudanças radicais da sociedade portuguesa, simplesmente grupos dispersos que obedecem a um mesmo interesse. Isto é a via mais fácil de mudar seja o que for sem ter que dar contas a ninguém. Já que nunca se tomou formalmente uma decisão de mudança radical de paradigma social não tem que se justificar o que está a acontecer aos bochechos. O primeiro ministro não assume responsabilidade pelo novo paradigma. Os ministros responsáveis de cada área muito menos (aliás muitos deles escudam-se atrás de uma suposta independência tecnocrática quando basta olhar para os CVs deles para perceber que tal é perfeitamente impossível). As comissões dividem ao máximo a carga moral e apenas recomendam acções. Parece que é tudo muito difuso mas cada dia que passa os portugueses acordam para um país ligeiramente diferente: mais pobre, menos livre, mais medroso, mais dependente das elites, e acima de tudo um país onde não fomos ouvidos sobre nada.

E claro que tudo tem que ser rápido para não nos dar tempo sequer de respirar. Suponho que assim seja porque a partir do Natal os próprios reconhecem que começarão a ter oposição séria – daquela nas ruas e nos locais de trabalho, não daquela que vem do gigantesco logro a que chamamos parlamento e que nunca atinge nada real. Não gosto deste tipo de pensamento, de política de rua, mas quando as instituições políticas, que deveriam ser o cerne da nossa comunidade Pública, estão mortas ou quase que conspiram contra o seu próprio povo não a posso considerar ilegítima (seria o mesmo que considerar a Revolução Francesa ilegítima porque não seguiu os canais próprios do regime absolutista). Cada dia duas reformas pelo menos. Uma verdadeira corrida em que nem sabemos quem são os corredores ou qual é o prémio. Só quando tudo for irreversível é que nos mostrarão a obra completa e irreversível do Novo Portugal (pelas “obras” parece pode vir a ficar surpreendentemente parecido a outra coisa que também se dizia “Novo”). Quando for tarde demais para reagir aí sim saberemos tudo. Tudo menos a quem atribuir responsabilidades claro.


Afinal não somos diferentes

Londres

Parece que finalmente, e já não era sem tempo, algumas pessoas começam a acordar para o que deveria ser óbvio. As diferenças nos países da Europa Ocidental e do Sul são superficiais. Londres está em chamas e em rebelião aberta contra o poder central. A crise do modelo político-económico é inegável (a julgar pelas chamas e violência que são argumentos bastante fortes – eu sei que por cá as autoridades preferem as opiniões higiénicas dos comentadores do costume mas, às vezes, a realidade vence mesmo esta nova forma de censura) e o que aconteceu na Grécia, na Irlanda e em Portugal vai acontecer noutros sítios nalguns casos com ainda mais violência. As autoridades governamentais, neste caso em Londres, fazem o costume, apelos à calma quer controlem ou não a situação, econdenam unilateralmente a violência como se os combates na rua fossem entre vários grupos manifestantes e não uma miniguerra urbana entre as forças policiais e os descontentes. A crença profunda Downing Street parece ter nascido no coração de outro regime, se repetirmos algo vezes suficientes as pessoas acabam por acreditar: Os responsáveis são só meia dúzia de criminosos de resto tudo está bem. Tudo está bem. Tudo está bem…

Atenas

Por cá ainda estamos a alguma distância de cenas destas (apesar de estar convencido que lá chegaremos como o devido desenrolar desta peça de teatro) quanto mais não seja porque ainda só há um mês é que começámos a apanhar com a Doutrina de Choque que nos querem impor. Haverá dissabores em meses futuros, reclamações para o ar, chega o natal e a Igreja (como boa aliada do poder que sempre foi) irá pôr água na fervura e no próximo ano é que as coisas vão mesmo aquecer quando se perceber que o poço dos sacrifícios pedidos não só não tem fundo como continuará a haver um conjunto de iluminados (com as melhores credenciais familiares e profissionais como se quer em Portugal) que continuará a gritar aos quatro ventos que a culpa é da falta de brutalidade das reformas aplicadas (fazendo lembrar os frades dominicanos da inquisição a avisarem que é preciso queimar mais hereges até a ira de Deus ser aplacada). A situação vai rapidamente ficar insustentável especialmente nos grandes centros urbanos. E aí veremos então se a violência que caracterizou a vida pública portuguesa nos últimos séculos desapareceu por completo, como nos querem fazer acreditar desde 1933, ou se somos os mesmos do costume e quando encostados à parede, e sem outras soluções, fazemos algo para nos defendermos e nesse caso poderão até surgir respostas piores que estas.

Madrid

Até esse altura ficamos com o triste espectáculo das capitais europeias a desintegrarem-se uma a uma e a transforem-se em espécies de zonas militarizadas com cada vez mais limitações à mobilidade de acção e opinião dos cidadãos – que se começam a questionar o que estão a ver ou a versão oficial dos eventos passam a ser descritos nos media e comunicados oficiais como “os poucos e perigosos delinquentes”.