Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Planos Estratégicos

Forças de Mercado

É hilariante ver como quem defendia intransigentemente o pagamento integral da dívida grega vai agora aceitar pacatamente metade desse valor sem mais questões. É a prova que os próprios credores reconhecem que essa dívida não foi acumulada de forma honesta e que mesmo perdendo 50% dela continuarão a ganhar escandalosamente com a quase falência de uma país e o abandono de milhões de pessoas à mais pura selvajaria económica e injustiça social. Mais divertido ainda é ver como um dos principais sorvedouros de dinheiro deste país continua activo e de boa saúde. O desastre BPN foi posto aos pés do anterior governo (cada um que acredite nos contos de fada que quiser…) mas mesmo depois de vendido (a parte saudável – por um preço escandalosamente baixo que levante sérias dúvidas sobre quem definiu os prazos de venda) deixou-nos os activos tóxicos para serem financiados por nós.

Temos que compreender que há pessoas que não podem ser abandonadas à sua sorte... o comum dos mortais não faz mal mas membros das elites económicas? Seria o fim da civilização...

A banca mais uma vez recusa tomar qualquer acção que ajude a arcar com este fardo e levanta uma questão cada vez mais premente: para que serve? Não arca com o seu peso em impostos. Não financia a economia real como devia, pois tem a maioria dos seus activos em empréstimos à habitação e ao consumo. Não aceita um esquema de taxação especial de alguns dos seus accionistas mais ricos cujos ganhos são inteiramente de natureza especulativa. E por fim alguns exigem 12 mil milhões (valor mínimo) do dinheiro que vamos receber do FMI sem dar nada em troca. Dada esta situação começo a perguntar-me se não seria mais saudável para o país simplesmente ter o estado como entidade que concede empréstimos à economia e privados (de forma directa) em vez de termos os bancos como intermediários que não acrescentam nada à equação que não sejam custos e taxas extra ao cidadão (que não recebe nada em troca e ainda paga duas vezes o mesmo valor, uma vez aos estrangeiros em impostos e outra à banca nacional acrescida de uma gorda comissão). Numa altura que se fala de privatizar o que resta da banca estatal eu acho que era de considerar a criação de um modelo de empréstimo estatal directo, com ou sem a Caixa Geral de Depósitos, como forma de aliviar o custo do crédito útil.

Internacionalmente é quase deprimente olhar para a figura que fazem os políticos portugueses que regularmente se vão humilhar ritualmente perante outros líderes europeus (a si próprios e inevitavelmente, por associação, a nós) para dar provas que são mesmo bem mandados (ou “bons alunos” como eufemisticamente os media preferem). Sim estamos em dificuldades mas temos também um poder destruidor dentro da zona euro completamente desproporcional ao peso real da nossa economia o que nos torna perigosos e com mais a perder do que a ganhar com o status quo – a isto dá-se o nome de poder negocial, facto que o nosso governo parece desconhecer. Tudo isto parece passar ao lado das nossas elites (meritocráticas segundo dizem e está na moda) e preferimos continuar a apresentar-nos sem dignidade, orgulho ou honra face a uma Europa cheia de preconceitos contra a Europa do Sul. Queremos ser vistos como bons tecnocratas económicos, fiéis servos dos mecanismos de mercado nem que isso arruíne ainda mais o já muito fraco peso político internacional do país.

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O modelo insustentável

Ao longo do pouco tempo que este governo tem estado em funções (depois do que deve ter sido uma tomada de posse em tempo record e um número imbatível de decretos por dia) já se começa a ter uma ideia de qual é a Grande Estratégia que têm para o país. Devemos trabalhar para nos transformarmos nas Filipinas da Europa. Salários baixos permanentemente, educação mediana (com tendência a baixar drasticamente em poucas gerações), corrupção galopante (nenhum governo que se diga determinado a combater a corrupção pode permitir que aberrações fiscais como a Zona Franca da Madeira continuem a funcionar) e uma economia essencialmente virada para nichos de mercado de exportação e pouco preocupada (ou melhor, perfeitamente indiferente) em satisfazer as necessidades nacionais. É verdade que ainda não estamos bem ao nível que nos parecem querer colocar, faltam uns quantos toques de brutalidade policial, violações à privacidade, destruição do conceito de cidadania, criação de um clima de apatia e medo mas a verdade é que parecemos determinados em dar largos passos para preencher essas graves lacunas no nosso novo perfil internacional.

Bem-vindo ao paraíso, se tiver uns milhões a mais.

Este modelo, de um ponto de vista meramente económico, era irrealista desde o dia em que foi concebido visto que as exportações nunca poderiam crescer ao nível desejado tendo o euro como moeda e muito menos sem se reduzir o trabalhador médio ao nível salarial de um servo da gleba do século XI – e por muito que se faça para baixar o nível de vida médio e o salário a verdade é que nunca seriamos competitivos com os mercados asiáticos. Mas, para quem o desenhou, tinha outras vantagens que penso que terão contribuído a ter sido adoptado. Em primeiro lugar joga com todos os complexos de superioridade das nossas elites. Promete reduzir de forma brutal o que eles consideram ser o poder abusivo do servo, perdão assalariado, em reclamar direitos legais e coloca-o a todos os níveis na dependência do seu patrono (talvez “senhor” ou “amo” sejam mais adequados à nova realidade). Em segundo lugar mantém todo o país como aquilo que sempre desejaram que fosse, uma coutada privada de algumas famílias que tudo podem e que são absolutamente intocáveis (a todos os níveis). E finalmente drena as massas de energia que poderiam usar para combater a sua situação sem ter que recorrer ao modelo clássico de integração dos melhores. É um circulo perfeito e inquebrável, pelo menos em teoria.

Parece que das duas uma... ou se esqueceu que os próximos em tribunal poderiam ser eles próprios ou não têm intenções de largar o poder. Nunca. Será que também teremos responsabilidade criminal por outras coisas? E que tal um julgamento por juri sorteado da população geral? Não? Porquê?

Supostamente era isto que nos iria impedir de acabar como a Grécia (como se a Grécia, entre outros, em termos populares não estivesse anos-luz à nossa em frente em reivindicação). Não era acabar com o chocante facto de a esmagadora maioria das empresas de grade dimensão praticarem elisão fiscal numa escala que é, pelos vistos, só moralmente criminosa já que os lacaios políticos criaram as aberturas certas em termos de fuga financeira legal (empresários esses que não têm qualquer pudor em vir a público dar lições de moral sobre ética e o funcionamento do estado ou o que as classes desfavorecidas merecem) que nos podia levar a uma situação melhor. Não caro leitor. Era o modelo de desenvolvimento de emulação de um país disfuncional de terceiro ou quarto mundo. Volto a dizer que estas reformas políticas têm muito de agenda de domínio social para certos grupos e que até o que se está a querer vender como medidas de responsabilização e moralização da vida política nas mãos de algumas pessoas podem acabar em simples vendettas pessoais e políticas com vista a perpetuar o poder partidário e acima de tudo a preponderância pessoal dos controladores destas redes de influência.


O fim da bolha

Há décadas que Portugal vive uma bolha imobiliária (em particular nos distritos de maior densidade populacional, especialmente Lisboa) muito curiosa. Uma bolha que parecia não ter começo, meio e fim como todas as outras noutros países; apenas uma longa e contínua subida. Isto é facilmente explicável. O começo da bolha parece estar na descolagem de nível de vida que a classe média começou a ter em fins dos anos 70, inícios dos anos 80 e que foi continuado até aos 90s, mas, depois, deveria ter-se seguido um período de estagnação seguido de muito perto por uma queda real dos preços (na ordem dos dois dígitos percentuais dadas as valorizações excessivas) mas no entanto os preços continuaram estranhamente a subir. A partir de 2000 a situação começa a transformar-se numa verdadeira pintura verdadeiramente surreal à la Dali. Há sinais constantes de abrandamento económico, minicrises em vários sectores, um desemprego que vai lenta mas seguramente crescendo e os preços das habitações não sofrem qualquer oscilação negativa. Nada. Antes pelo contrário continuam uma escalada ascendente. É verdade que a escalada foi menor que noutros países (cerca de 45% entre 96 e 2007 contra os record 350% da Irlanda – falamos de médias nacionais em Lisboa e Vale do Tejo estes valores estão subavaliados) mas isso fica-se a dever a vários factores locais como o facto de ser um mercado mais maduro (menos clientes disponíveis) a todos os níveis, quer em termos da percentagem de quem já detém um empréstimo à habitação quer da saturação de construção, e com o agravamento da situação laboral da população mais jovem (com algumas excepções) que pelo seu tipo de trabalho se vê em grande parte excluída do crédito de longa duração.

A prova que a cura para a bolha especulativa não é o arrendamento, que não estamos fora da média europeia e que privar os portugueses do único activo que têm na meia idade, ou fim de vida, (a casa) não iria resolver nada.

Em termos reais (tendo em conta os custos de construção, mais as margens de lucro e não desconsiderando a qualidade) há claramente uma sobrevalorização do que é construído que só tem sido possível por um só factor. A banca. Que sustém os empréstimos que faz ao sector da construção por tempo indeterminado (o que impede grandes quedas de preço mesmo quando a procura abranda já que as empresas não têm grandes problemas de cashflows) e que continua a financiar a construção de novos projectos (privados ou públicos) para que essas mesmas empresas nunca sejam obrigadas a liquidar bens (baixar preços a níveis realistas). Porque o fazem? Penso que por duas razões essenciais e uma que secundária deriva das duas primeiras. Em primeiro lugar, como em quase toda a alta burguesia deste país, há laços familiares entre os bancos e as empresas (façam uma consulta pelos altos quadros e vejam quantos nomes “estranhos” se repetem, se forem mais fundo até descobrem o grau de parentesco). Em segundo lugar os bancos tornaram-se accionistas das construtoras e vice-versa o que cria uma teia de interesses cruzados (e a consequência lógica é que se um deles cair o outro vai atrás pouco depois). E por fim ao ter escolhido este modelo altamente personalizado de fazer negócio a banca portuguesa acabou por se fechar no nicho de concessão de crédito a habitação (tudo o resto é negligenciável em termos de proporção) o que torna os seus resultados a médio prazo completamente dependentes da bolha que ajudaram a criar.

A escolha destes dois sectores como centrais para Portugal foi um erro colossal e está a demonstrar ser um sorvedouro de dinheiro sem fim à vista.

Pela primeira vez em décadas este modelo está mesmo seriamente ameaçado. Os preços estagnaram desde 2007 e não mostram quaisquer sinais de recuperação (dado o estado das finanças familiares portuguesas só por milagre é que isso poderia acontecer – era mais provável apanhar com o satélite em cima) e começam mesmo a descer (e sente-se aqui o horror do sector como um todo). A necessidade de capitalização dos bancos nacionais (ou que operam por cá) está a criar tensões mesmo no seio das grandes famílias, sendo que os que gerem a parte bancária começam a precisar das dívidas que não cobraram até agora ou que reestruturaram. O que isto significa é que os dois maiores investimentos políticos na economia do pós-25  de Abril podem estar prestes a ruir (a escolha de serem estes dois foi, e é, muito duvidosa em todas as perspectivas mas não há dúvida que foi feita e assumida): a banca (para onde se têm canalizado mundos e fundos) e o principal sector de actividade económica do país até há bem pouco tempo, a construção civil. Dado o plano de fragilizar a classe média ainda mais nos seus direitos e o Estado ir, a curto prazo, criar mais 50000 desempregados directos (como mais uma vez já tinha sido dito em campanha e ninguém pareceu ouvir… esperemos que a urgência deste novo corte não se deva a outras situações dúbiascomo é que pensam que este cenário vai evoluir?


Golias e o défice de atenção

Esta administração americana é uma criatura curiosa. Nascida de uma promessa de mudança que era perfeitamente incapaz de cumprir (quanto mais não seja pela forma que o processo eleitoral americano toma) e que de facto nunca tentou, de forma séria, implementar. Apelou a todos os grupos que tinham queixas legítimas contra os republicanos (e a lista é imensa…) e na altura de decidir o que seria mesmo feito chamou os mesmos senhores do costume, de WallStreet, à Casa Branca para cozinharem uma solução que salvasse a “economia”. Nesta altura temos que definir o que é a economia; não deveria ser necessário definir o que se entende por este simples termo mas nos tempos que correm em que os discípulos de Friedman controlam instituições estatais, económicas e mesmo de ensino (incluindo em Portugal onde monetarismo passa por ser quase teoria económica universal) não temos outra escolha. É bastante simples, a economia inclui todas as actividades de bens ou serviços que não sejam de mera natureza financeira (cujo único papel saudável é como auxiliar de outras actividades), ou seja que pertençam à economia real, que acrescentem valor e que acima de tudo não sejam meros jogos especulativos (perdão modelos econométricos altamente fiáveis…). A solução está mais ou menos à vista e tem tudo a ver com Portugal. Foi decidido que os reguladores falharam (ou seja o Estado foi denegrido sem se entenda que muitos reguladores da economia americana não são estatais, mas representativos da indústria em causa) e que o povo americano se tinha endividado irresponsavelmente e teria que pagar o preço por isso (já ouviu isto noutro lado qualquer não é verdade? Parece que deve ter seguido um mesmo memorando para vários países).

O grande ícone da miséria global

Não tendo resolvido os seus problemas internos (nem pode resolver sem mudar estrategicamente o grupo de pessoas que quer privilegiar, ou seja, sem voltar a apoiar a classe média em detrimento dos 10% mais ricos da nação coisa que não está para breve a julgar pelos sinais) virou-se agressivamente para o exterior (e digo agressivamente porque qualquer potência anterior teria tentado fixar fronteiras e fortificar o interior antes de mais expedições diplomáticas, comerciais ou militares) e quis resolver o conflito na Palestina acabando apenas por irritar os dois lados ao ponto de ninguém o querer como mediador. Os israelitas ficaram furiosos de ele querer considerar as suas fronteiras de 1967 (à altura da Guerra dos Seis Dias) como referência e os palestinianos desconfiados não só da independência do negociador como da sua falta de vontade para forçar Israel às tais fronteiras com as quais se tinha publicamente comprometido. Também não conseguiu dar resolução a este impasse e é pouco provável que o venha a fazer mas claro que isso não impediu a administração de iniciar mais uma iniciativa internacional de grande envergadura. Agora envolveu-se, directa e indirectamente, numa série de processos de “democratização” do Médio-Oriente e Norte de África sem ter anunciado muito bem em que se justificava (recuso-me sequer a discutir a questão dos direitos humanos num país que não cumpre a própria promessa de fechar centros de tortura). Há várias formas de interpretar isto mas existem duas que parecem mais interessantes.

A fantástica teoria das redes sociais como motores ou meios de revoluções é das noções mais divertidas e ridículas que tenho encontrado nos últimos tempos. É bom para o ego de quem tem o rabo no sofá, carrega num botão e depois quer dizer que fez uma revolução 🙂

Cenário 1 (o mais provável): Obama está a continuar uma política que vem desde o inicio do seu país que é a exportação do seu modelo político como forma de dominação cultural e política de novos territórios que passam a estar ligados a todos os níveis a uma nova metrópole. E escolhe esta altura porque provavelmente é a última hipótese que os Estados Unidos terão nas próximas décadas de fazer ameaças militares em muitos pontos geográficos de forma simultânea e serem levados a sério, ou seja, antes que a dívida esmagadora e o valor real do dólar venham a público e arrastem o país para uma relativa impotência internacional e um grau de caos interno considerável. Pode haver também ambições quanto à implementação no terreno do AFRICOM como posto avançado permanente na região.

Cenário 2 (menos provável mas estrategicamente mais ambicioso): Sabe à partida que nenhum destes regimes tem qualquer hipótese de sobrevivência se forem desligados da “máquina” e o único objectivo disto é não só criar sementes de um determinado grupo de ideias (pró-americanas) como deixar metade da região de tal forma dividida internamente que isto resulte numa série de conflitos internacionais e guerras civis de longa duração que ninguém conseguirá gerir. Pondo as coisas de forma estratégica, estando fragilizados na sua capacidade de projectar poder a todas as regiões interessantes negam o acesso a essas regiões a todos os outros jogadores por pelo menos alguns anos ou décadas.

would you like to supersize that?

Para tornar as coisas interessantes vamos ter umas eleições americanas daqui a relativamente pouco tempo e mudando ou não de presidente será interessante testar estas hipóteses aqui expostas e verificar a progressão (ou abandono) da classe média local. Sinais do que nos espera.


Quem manda aqui

O governo alemão fez hoje uma séria ameaça a um outro Estado-Membro da União Europeia (deve ser a primeira vez desde a segunda guerra mundial que a Alemanha ameaça sanções, mesmo que sejam de natureza económica, de forma directa e unilateral contra outro país europeu). A Grécia vai ser deixada à deriva a não ser que se assine uma rendição incondicional aos seus credores internacionais (nomeadamente a Alemanha) independentemente das suas razões para a não implementação de certas medidas (como por exemplo sistematicamente o FMI propor cópias de sistemas anglo-saxónicos e nórdicos em países que não têm nem a mesma cultura, história ou funcionamento – há razões para os sistemas terem evoluído de forma diferente e também há razões para alguns executivos europeus e sectores empresariais associados estarem tão desejosos de seguir a receita). Essencialmente Wolfgang Schaeuble (ministro das finanças alemão) entregou aos gregos a sua versão do mapa cor-de-rosa deixando no ar a ameaça da falência do país, o caos social (como se eles não estivessem já a viver nessas condições e esse tipo de ameaça tivesse peso) e possível instabilidade geopolítica na região (para quem está mais desatento: militarmente a Grécia é uma potência regional algo relevante) que teria que ser colmatada por outra potência, benemérita claro, que por acaso tivesse interesse em expandir a sua influência na região (conseguem lembrar-se de alguém?). Nem é preciso dizer que isto serve de aviso a todos os outros países que estão ou possam vir a estar no mesmo barco, ou se faz à Alemã ou não se faz de todo e deixa-se as nações “aliadas” cair como dominós.

Alguém é servido? Uma dose de realidade para alguém?

Claro que há razões para a Alemanha estar a tomar estas atitudes leoninas. Em primeiro lugar conseguiram “raptar” (aliciar talvez seja um termo mais correcto) a França para o seu lado oferecendo-se para tapar as graves falhas económicas do país em troca do seu apoio político incondicional (indispensável nesta fase). Em segundo lugar sabem que a posição que ocupam nos mercados mundiais só pode decair com o tempo (os mercados emergentes têm consistentemente substituído a produção industrial alemã em quase tudo, começaram pela indústria pesada e agora já estão nos componentes de plástico – há mesmo produtos que são totalmente tecnologia alemã mas que não são de facto produzidos na Alemanha, ou sequer na Europa) o que quer dizer que o seu poder negocial está provavelmente num ponto máximo ou próximo disso. A altura ideal de estabelecer um novo equilíbrio continental, que os beneficia naturalmente. Em terceiro, e último, lugar as novas gerações alemãs têm uma mentalidade curiosa que por um lado já não está refém do complexo de culpa do período nazi e que por outro lado compreendeu muito bem que a dinâmica das nações continua a ser uma de conflito descarado, aberto quando a disparidade de poder é significativa (assegurando simultaneamente uma vitória rápida e um espólio compensador) ou discreto e económico quando o primeiro tipo de abordagem levaria a resultados incertos ou com custos demasiado elevados. Nesse aspecto são quase único na Europa já que muitos, especialmente os países periféricos, levam mesmo a ideia de algum grau de irmandade europeia a sério.

Para quem ainda não percebeu: nós não somos o futuro.

O que é talvez mais estranho é que estas declarações venham no seguimento da admissão, da própria chanceler, que se o Euro falhar a Europa, como projecto, está condenada. O que significaria mais uma vez o regresso a um manto de retalhos políticos mais ou menos frágeis contra outras potências (próximas ou distantes, antigas ou emergentes) e quase impossíveis de controlar ou coordenar. Dado este facto a arrogância de Schaeuble parece um pouco deslocada já que parece que quem tem as cartas na mão são os gregos, que podem fazer este castelo de cartas cair de um só sopro. É um bluff bem atempado (mesmo na altura da Grécia receber outro pagamento) mas parece não ter mesmo qualquer substância já que em termos de perdas geoestratégicas seriam os alemães a pagar a factura mais elevada a longo prazo e a ver as suas esperanças de relevância global esmagadas ou pelo menos seriamente danificadas e adiadas.


Treinou-se a juventude portuguesa para o quê?

No regime da “outra senhora” sabíamos com certeza completa que o objectivo de qualquer processo educativo e de socialização tinha que desembocar sempre na dupla: 1) criar católicos passivos e 2)carne para canhão para a manutenção do regime (e não falo só da guerra mas também de todo o sistema económico e social). Mas entretanto passaram quase quatro décadas e estará talvez na altura de avaliar o que se fez com o plano de educação das juventudes portuguesas. A resposta é necessariamente ambígua. Em termos de acesso a uma educação formal semidecente a grandes números de pessoas deram-se passos de gigante que permitem uma abertura mental impensável há poucas décadas pode ser esse o factor que impeça o país de se radicalizar ainda mais à medida que as coisas se forem deteriorando. Mas do outro lado da moeda está uma qualidade técnica nem sempre ao nível que seria desejável (por favor não leiam nisto um apoio às cátedras de Coimbrãs do antigamente…) e uma total falta de orientação dos jovens para as suas áreas de talento e depois planos para lidar com esse talento em termos profissionais (abandonar tudo o que não é a engenharia ao deserto é quase suicida).

Objectivo: servir o regime do útero à cova.

Em termos sociais “criminalizou-se” a acção colectiva e o conceito de ter algum ideal (os rótulos podem ir desde sonhadores, comunas, retrógrados, estúpidos ou, quando partem da fina flor da nossa sociedade, tapam-se em sarcasmos mais ou menos delicados para os outros membros do grupo apreciarem a subtileza da estalada social). O resultado em qualquer caso foi (e é) sempre o mesmo, a ostracização quase total de quem não aderisse às novidades que nos chegavam pelas mãos dos monetaristas, liberais, anarco-capitalistas, conservadores sociais entre tantos outros micro grupos que devido ao seu peso económico e influência social desproporcionais conseguiram dominar completamente a agenda mediática e cultural. O resultado foram gerações inteiras de indivíduos completamente fragmentados pelos seus desejos. Isolados socialmente restou-lhes a via do progresso material que nós bem sabemos como acabou pelo que nos rodeia no dia a dia. Ou seja, educação deficiente, muitas vezes em carreiras erradas e frustrantes, sem ideias ou sequer a crença que um ideal é possível, sem sentido de pertença a qualquer grupo (a começar pelo que mais importa, o país). Só podemos concluir que fomos quase que vítimas de um programa de experimentação social em larga escala. A tal engenharia social que só se tentava do outro lado da cortina de ferro. Qual o objectivo desta manipulação? Ainda não percebeu leitor?

Não pense muito na vida..... "eat drink and be merry for tomorrow we die"

Para nada mudar. Um laboratório em como limitar uma revolução ou qualquer onda de impacto dela resultante. Senão veja. Há liberdade de reunião mas a maioria é condicionada a nunca se associar a não ser por obrigação ou ganho imediato (sublinho o imediato). O único ideal que foi permitido sobreviver neste bombardeamento de propaganda conservadora? A Igreja Católica pois claro (nunca repararam na pobreza religiosa de Portugal? Tão poucas religiões representadas… e quase sempre só as mais reaccionárias é que aparecem…), o resto serve para ser demonizado como hedonista, niilista ou lunático. Existe um mercado laboral “livre” mas o poder está todo do lado patronal. Existe uma economia de mercado mas a iniciativa privada, fora de meia dúzia de exemplos, nada vale sem contactos. Não quero com isto dramatizar e dizer que nada mudou para melhor mas é preciso ter noção que esses benefícios, os que ainda existem, estão a escorrer pelos dedos como areia e não vão voltar independentemente das promessas que sejam feitas.


Este debate não foi feito

Cada um de nós pode pensar o que quiser sobre o tema mas a verdade é que aquilo que Vítor Gaspar fala, a escolha estratégica (presumo) de sectores onde o estado está ou não está presente, não foi discutido pelos cidadãos e muito menos por eles aprovada. Está-se a querer redefinir o que é o Estado e a Nação sem ter que se passar pela opinião pública.

Longe de estar perfeito mas com os devidos limites é o melhor que temos...

Seria possível dizer que muita coisa estava no programa de governo e que, como tal, não pode vir como surpresa mas há que considerar dois factos que quase que anulam essa afirmação totalmente: a) os programas de governo são feitos para não serem lidos senão a linguagem era clara e o tamanho cerca de 10% daquele que normalmente é além de ter quantificações justificadas e b) Assim que tomou posse o governo deitou fora o programa dizendo que ia muito mais além (ou seja para áreas que nem foram tornadas públicas quanto mais discutidas). Ou seja já estava a governar desde o primeiro dia além daquilo para o que foi mandatado.

Dizem que antes era presidente...

Num clima de propaganda em que a primeira vítima foi o funcionário público, transformado numa espécie de monstro mítico, e por associação a presença pública nos mercados até era provável que algumas medidas destas passassem mas a verdade é pura e simplesmente que tudo isso não foi discutido. Estamos a regredir para um estado vestigial como na monarquia, quer absolutista quer liberal, dos Braganças (que nem uma força policial de presença nacional foram capazes de assegurar) sem comunicar directamente aos portugueses o que se está a fazer. Dá vontade de perguntar se estas “reformas” (ou melhor refundações do conceito de Estado) estão a ser introduzidas a conta-gotas por medo de uma reacção maciça contra. Algo tão visceral e concreto que parasse a iniciativa política deste governo de vez antes de ter cumprido sequer os 3 meses.

There is no such thing as public opinion. There is only published opinion

Admito que com o domínio que um certo sector tem sobre os meios publicação e opinião um debate deste tipo, se fosse arrastado por muito tempo, até pode resultar em algo contrário às minhas posições pessoais mas neste momento o que tenho a dizer que é estão a mudar o meu contrato social sem comunicarem como, porquê, quando e acima de tudo sem submeterem tais mudanças à população.


A nova ruralização

É certo que desde há muitos anos que existem programas para combater a desertificação do interior (e todos fracassaram porque nunca tocaram nos factores económicos e sociais vitais) mas nos últimos meses tem existido um crescendo de vozes politicamente poderosas que apelam a uma ruralização de Portugal.  É surpreendente a que tal aconteça porque o país não mudou de elites desde 1976/77 o que só nos pode levar a duas conclusões: ou o plano que existia para Portugal falhou ou nunca chegou a existir e fomos andando ao longo de mais de três décadas mais ou menos ao sabor do vento e tivemos sorte de nunca sermos apanhados numa tempestade fatal.

Penso que todos temos o direito de perguntar: qual era o plano para este país??

Esta ideia (suponho ser algo pensado a longo prazo) começa mais uma vez por ser vendida através do sistema de educação massificado, ou seja, é introduzido a mentes e corpos sem experiência do que é uma vida rural e muito menos do que foi o passado das pessoas que seguiram esse percurso até hoje. Sem qualquer tentativa de suplantar as muitas falhas que o campo tem em relação à cidade (culturalmente, politicamente, socialmente, economicamente, etc) começa a ser vendida uma glorificação da vida agrícola que não tem qualquer base empírica na realidade histórica portuguesa. Mesmo no campo teórico a única coisa que encontramos que se assemelhe a um raciocínio para este incentivo à deslocação em massa de pessoas para o campo é a doutrina salazarista que via no camponês ignorante e submisso (às três autoridades locais: o Juiz, o Padre e o Professor) como o ideal de cidadania. Doutrina de idolatria rural que partilhava com todos os movimentos fascistas da Europa da primeira metade do século XX incluindo a violentíssima política “Blut und Boden” (Sangue e Terra) do Terceiro Reich que também tinha como ponto de partida uma versão imaginária do camponês “ariano”.

Que nova ruralidade é esta que está a ser imaginada?

Será que falamos de um projecto de repovoamento do interior ou de uma tentativa de esvaziar, ou pelo menos aliviar, os grandes centros urbanos para efeitos de controlo populacional? Vai-se mesmo esvaziar a turbulência da grande Lisboa prometendo um futuro, destituído de quase tudo, no campo aos jovens? Ou, como diz esta notícia, será apenas aos jovens “em risco” que esta mudança será proposta em massa? Existirão campanhas similares nos melhores colégios de Lisboa e Porto? Ou será que o destino de criador de porcos no interior do Portugal moderno é bom para uns mas mau para outros? É esta a resposta a uma contestação que só pode crescer? É esta a resposta a uma taxa de desemprego real que andará quase no dobro dos números oficiais? É isto que o regime tem a dizer a quem já não tem nada a perder? É esta a resposta aos milhões que se tornaram e irão tornar danos colaterais?

É esta a autoridade que nos dizem fazer falta?