Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

Segurança

Entorpecendo as massas

Com cada semana que vai passando o clima social em Portugal torna-se algo mais tenso. A cada comunicação (imaculadamente estudada em antecipação pelos gestores de relações públicas – cujo custo desconhecemos na sua totalidade ou sequer parcialmente) dos poderes instituídos (governos, patronato, comentadores de serviço, etc) o mal-estar adensa-se e dado que a recuperação prometida não vai ocorrer nem em 2012 nem 2013, como tinha sido prometido, torna-se preocupante para estes mesmos poderes verem as massas inquietas. Enquanto só forem gemendo e resmungando não há grande problema porque para todos os efeitos estão desmobilizados e não são capazes de colocar qualquer travão ao que lhes está a ser feito; o grande problema (na óptica dos poderes) é o risco crescente (de forma quase exponencial) de que haja realmente não apenas uma mobilização aqui e ali mas que se crie um estado de mobilização geral da população gerido por vários sectores político-ideológicos variados mas todos opostos ao “sistema”. Aí, em linguagem muito simples, o governo tomba, os partidos arriscam-se a um descrédito quase total e, no pior dos cenários, a III República cai (não é o mais provável mas até essa possibilidade está em cima da mesa).

O que nos resta realmente?

Eis que surgem os analgésicos. É preciso deixar as pessoas sem sensação, sem opinião, confusas e essencialmente quietas. O mais recente pode ser um estudo de opinião da Deloitte (uma consultora que, em Portugal, se especializou em fiscalidade, contabilidade e temas associados) que parece revelar que a maioria dos portugueses não só apoia as medidas que estão a ser tomadas pelo executivo como as entende e as acha mesmo necessárias – a parte mais deliciosa é quando afirma que os jovens parecem estar mais optimistas (resta saber se esses jovens ocupam lugares de consultores ou se serão mesmo jovens normais num país com uma taxa de desemprego jovem real que provavelmente se aproxima dos 40%). De uma amostra não muito significativa (pouco mais que 700 inquiridos), escolhida por critérios que desconhecemos (em nenhum momento é noticiado que a amostra seja aleatória) quer-se criar uma nova legitimidade para um governo que já está fora das suas promessas eleitorais há meses – já que o selo de aprovação democrática parece mais ténue a cada manifestação e movimento que surge. É de notar também que não sabemos quais os laços económicos entre a Deloitte e o governo, alguns dos seus membros ou mesmo com os sectores económicos que saem a ganhar com este orçamento de estado (mais uma vez em lado algum é afirmado, muito menos provado, este distanciamento e imparcialidade) – a existir uma relação comercial continuada com o executivo, com pessoas a ele próximas ou interesses económicos beneficiados passaríamos a estar perante uma peça de propaganda encomendada e abençoada pelos media que a aceitaram publicar. Mesmo não existindo interesses económicos cruzados (os mesmo jornais que alegremente publicaram o estudo deveriam é claro ter feito jornalismo de investigação para assegurar a veracidade do que publicam…) há matéria suficiente para questionar seriamente as afirmações do estudo.

O anestésico social não tem que ser químico.

Não penso que este tipo de manobras surta grande efeito junto da população geral que já suspeita por natureza (e com toda a razão) das empresas privadas e dos consultores em particular. Não só isso como a sua própria realidade diária desmente este nível de apoio ao governo (nem em épocas de vacas gordas se conseguem estes números de aprovação que rondam, supostamente, os dois terços). Pode quanto muito apaziguar algumas consciências dentro do PSD que começam a estar algo preocupadas com o rumo que as coisas estão a seguir e que temem pela sobrevivência do partido após a partida de Passos Coelho (eu apontava para cerca de mais 8 meses a 1 ano de governação, dependendo da evolução internacional). A nível mundial, e Portugal não é excepção, a artificialidade de acordos e apoios dentro do sistema e um suporte não democrático de algumas organizações pretensamente “tecnocráticas” não silenciam as vozes cada mais fortes de populações que foram excluídas da governação dos seus próprios países.

Anúncios

Os presentes de Pandora

À medida que a crise se arrasta e percebemos, a um nível quase molecular, que isto não é um simples “safanão” mas antes uma possível mudança permanente nas relações económicas e sociais (de degradação contínua) há grupos e pessoas que teimam em aparecer para no fundo fazerem uso das excelentes condições do país para alterações radicais – mais uma vez repito (pode ser que algum “boy” de um partido leia isto por acidente e aprenda) não é possível exigir civismo a quem nada tem e um sistema composto, em grande parte, por pessoas que nada têm investido nele e na sua continuação estão mais que dispostas a mandar tudo abaixo, é só uma questão do aperto e desespero continuarem. Os grupos não são homogéneos nem partilham opções ideológicas de forma monolítica (nem na forma de agir diga-se) mas têm algumas coisas em comum. Como por exemplo o facto de mesmo em tempo de crise conseguirem arranjar financiamento para continuar a operar quando são perfeitamente marginais em termos de sociedade (o que quer dizer que o peso económico de alguns dos seus membros não é de desconsiderar) e também conseguem captar tempo de antena mesmo não tendo peso social significativo (pelo menos até agora) o que nos leva a supor que além de terem alguns membros de carteira pesada também terão melhores posicionamentos sociais que a maioria. Ou seja são movimentos que parecem emanar, directa ou indirectamente, das nossas “elites”.

"Power is not an institution, and not a structure; neither is it a certain strength we are endowed with; it is the name that one attributes to a complex strategical situation in a particular society." - Michel Foucault

Em primeiro aparecem os monárquicos. Herdeiros de uma linha derrotada e escorraçada em 1834. Detentores de “títulos” que ninguém conhece ou reconhece. Pretendentes num país que não tem o que pretendem. Ultramontanos intransigentes numa nação secularizada e cada vez mais diversa. São a quintessência das contradições lógicas e históricas de um país de memória curta. Conviveram com a ditadura na esperança de um destino semelhante ao espanhol, em que Franco restaurou o privilégio de nascimento, mas as voltas saíram-lhes trocadas. Aparecem agora como defensores da moral e bons costumes e claro que não faltam oportunidades deste grupo perfeitamente exógeno à sociedade portuguesa se exprimir às massas. Como é que se justifica isto jornalisticamente não sei mas em termos ideológicos a mensagem é clara: estamos cá e até não somos tão maus como nos pintam.

“Everyone likes flattery; and when it comes to Royalty you should lay it on with a trowel." - Benjamin Disraeli

Em segundo lugar aparecem os grupos de extrema-direita de inspiração mesmo fascista. Existem por toda a Europa e partilham sempre a mesma técnica de organização e tipo de discurso. Medo e violência são o pão nosso de cada dia na mente destas pessoas, medo que visam inspirar nos outros (quer quem os contradiz quer quem os apoia) e violência que se manifesta no mínimo ao nível dos discursos (sempre contra grupos que formem bons bodes expiatórios e sem mecanismos de defesa) e não poucas vezes através de organizações paramilitares organizadas paralelamente (a relação entre partido e milícia é sempre negada mas as investigações feitas internacionalmente provam precisamente o contrário, há sempre um elo claro de ligação em ideologia e financiamento). Há também sempre a dicotomia entre a aparência democrática (instituição que desprezam de alma e coração) e a realidade das suas crenças internas, totalitárias, e da violência que em muitos países fazem recair sobre vítimas inocentes (espancamentos a imigrantes, minorias religiosas ou sexuais são ocorrências frequentes quando não terminam mesmo em mortos).

As novas e fantásticas escolhas que nos querem dar...

Enquanto estes ganham força política o cidadão, como figura central da sociedade, quase que desaparece. Aos medos de subsistência juntam-se o medo político de poder ter que viver num regime radicalmente diferente daquele que permite uma genuína individualidade (e não é este que temos mas que, apesar de tudo, está mais próximo, por anos-luz, que os outros dois deste ideal). A opressão semifeudal do sistema económico em construção acrescenta ainda mais limitações à nossa acção e pensamento e muitos já desistiram de viver e dedicam-se apenas a sobreviver. São tempos perigosos para Homens livres. Boa noite, e boa sorte caro concidadão.


A aprendizagem

Sabendo nós que um país, a Grécia, em tudo parecido com o nosso, está à beira de uma guerra civil ou pelo menos caos social de grandes dimensões – sendo os grandes responsáveis a classe política grega que se recusa terminantemente a servir o seu povo, pôr os instrumentos democráticos de que dispõe em acção e, em suma, renegar uma dívida que foi em muito acrescida pela mera especulação exterior e não pela acumulação interna – todos em Portugal parecem tirar algumas lições sobre o que se passou e ainda pode passar. Para o governo em funções (eu dei-lhes 18 meses de vida quando tomaram posse mas a este ritmo, e dependendo da evolução internacional, posso muito bem ter que rever esse número em baixa) a lição é clara e unívoca: domínio social dos seus patrocinadores económicos ganha prioridade a todo o custo (já que podem não ter tempo de implementar ou inutilizar tudo o que desejam) nem que destruam irremediavelmente o partido a que pertencem como alternativa democrática credível para todo o sempre.

A fome de poder e riqueza corre o risco de deixar 90% das pessoas pelo caminho...

As medidas dividem-se em várias esferas mas não vacilam quanto ao seu propósito. Refazer o país e tudo o que o definiu até este momento de forma essencialmente secreta e antidemocrática (há muito que o seu mandato legítimo foi ultrapassado mas o ritmo reformador só acelera). Quando confrontado com as reservas de uma das pessoas que o colocou onde está (sim é verdade que apenas o parece falar neste momento para salvar o seu legado pessoal face à análise histórica futura, ninguém quer ser conhecido como o último chefe de estado de nenhum regime) o Primeiro-Ministro pura e simplesmente não comenta. Silêncio que mantém sobre a crescente presença angolana em todas as esferas da nossa vida (com fundos derivados de um governo cada vez mais contestado no seu próprio país) A crua realidade é que quem detém poder (ou conivência) suficiente não precisa de prestar contas ao povo. O modelo económico vacila mas ignora-se majestosamente as consequências do que só pode vir a ser um colapso total do consumo (provavelmente acabando em deflação daqui a uns tempos) porque isso afinal de contas até pode ser útil para domar as pessoas e desde que não afecte algumas empresas chave não é relevante – e quem discordar é sumariamente ignorado.

Para uns sim para outro não... e nada mais perverso que vender isto como a ordem natural das coisas.

Não sendo um governo de esquerda é estranho que faça lembrar medidas mais soviéticas que aquelas os próprios comunistas portugueses alguma vez puseram em cima da mesa para a população em geral. Propõe-se o trabalho gratuito do funcionário público para algumas instituições (escolhidas sabe deus por que critério… ), sendo que só num plano imaginário poderá o dito funcionário sentir-se em liberdade de dizer não a esta “proposta”. Quer concorde ou não com a orientação ideológica de algumas organizações será então forçado a “doar” o seu trabalho a elas. Ou seja haverá grupos ideológicos (concordantes com o governo e seus apoiantes socialmente relevantes) que passam a beneficiar de uma força de trabalho gratuita e qualificada. E para terminar, numa nota ainda mais preocupante, tal como na Grécia começamos a ter casos de movimentações neo-nazis que parecem ser mais ou menos toleradas pelas forças de segurança que sendo que é verdade que impediram o confronto também não detiveram, ou sequer identificaram, todos os responsáveis. Estes grupos extremistas estão no céu com esta situação social e começam a apalpar o terreno para ver quanta violência será tolerada por parte de grupos paramilitares ilegais – haverá “caçadas”, lideradas pela extrema-direita armada até aos dentes, pelas ruas de Lisboa e Porto a manifestantes como noutros países?


O Mini Panóptico

À medida que o mal-estar avança na sociedade portuguesa e os sinais começam a não ser disfarçáveis (mesmo com o controlo da esmagadora maioria dos canais de informação) isto tem como consequência directa que as forças que tomaram o Estado como ferramenta de poder pessoal começam a ficar de alerta – afinal de contas parece que ficaram assustados quando uma só central sindical (supostamente a morrer como todos os sindicatos, ou assim os seus homens de mão têm prometido há mais de 20 anos… que lentamente iriam apagar a representação colectiva do mapa laboral português) consegue movimentar 180 mil pessoas só em Lisboa e Porto sem haver nenhuma medida em concreto como alvo. Vamos ser claros: as necessidades deste grupo de poder, desta elite se quisermos (no sentido de efectivamente comandarem poder não do representarem excelência), não vão diminuir com o tempo. O modelo económico que escolheram baseado em rendas semifeudais e acordos mútuos de partilha de mercados vão continuar a ter quebras por muito que usem o chicote nos seus funcionários ou por muito que forcem os seus servos políticos a criar legislação favorável a si. A razão é simples nenhuma nação pode ser moderna e civilizada sem uma grande classe média. Nenhuma economia deste tipo pode prosperar sem o poder de compra dessa mesma classe média cujo consumo não pode ser substituído em volume ou variedade pelo consumo de uma classe privilegiada minoritária, por muito abastada que seja. E ao condenar a classe média com a defesa sem excepções do interesse privado e mesquinho, estes grupos, selaram o seu próprio destino do qual ninguém, nem o Estado que tanto se esforçaram para tornar uma criatura sua, os pode salvar. A decadência seguida da inexistência.

Meus caros o fato pode ser Gucci mas a corda aperta e enforca à mesma...

Ou assim o temem. Pelo menos os mais previdentes das elites – e há alguns. Se os mecanismos normais não funcionam está na altura de entrarem os extraordinários. O que se chamaria noutros tempos a santíssima trindade: vigilância, censura e repressão. Já está no ar a ordem de começar a apertar a vigilância e a preparar as outras duas, só não sabemos que forma irão escolher para estas medidas. Provavelmente, sendo isto Portugal, vai-se começar com jogos linguísticos. O que engloba a liberdade de expressão (os que são imunes à crítica), quem engloba (licenciar ou pelo menos registar qualquer pessoa que emita uma opinião pública), criar nomes aos novos críticos; descamisados, incapazes, preguiçosos e sem talento para o cidadão médio que se recusar a venerar ao altar do regime;  hooligans, vândalos e escumalha se forem manifestantes no campo; traidores e demagogos se usarem o campo intelectual e criminosos e terroristas para os que puserem mesmo em risco a estabilidade e integridade física do sistema. Depois de findo este processo de recriação de todo um conjunto de pessoas podemos ter uma verdadeira caça ao dissidente usando todos os meios que a tecnologia moderna proporciona e o estado português usa.

Em teoria temos tudo garantido na realidade depende do uso que quiser fazer da maquinaria do poder...

Mesmo havendo sinais do exterior em como se deveria ir contra as políticas que estão a ser tomadas em vários campos a elite nacional está demasiado comprometida… Até de um ponto de vista quase que emocional são incapazes de mudar os seus ódios seculares, os seus sentimentos indevidos de superioridade face ao cidadão normal (noutros países situações similares levaram a extremos…), a sua forma de gerir os negócios ou mesmo a sua forma de domínio social. Preferem trazer todo o edifício abaixo a abrir mão de um só grão de areia que seja. Promete verdadeiramente ser um conflito sem remorso, piedade ou qualquer possibilidade de negociação.


Mass Destruction – Faithless

 

Whether long-range weapon or suicide bomber
Wicked mind is a weapon of mass destruction
Whether soaraway Sun or BBC 1
Misinformation is a weapon of mass destruct
You coulda Caucasian or a poor Asian
Racism is a weapon of mass destruction
Whether inflation or globalization
Fear is a weapon of mass destruction

My dad came into my room holding his hat
I knew he was leaving,
He sat on my bed told me some facts.
Son, I have a duty, calling on me
You and your sister be brave my little soldier
And don’t forget all I told ya
You’re the mister of the house now remember this
And when you wake up in the morning give ya momma a kiss
Then I had to say goodbye
In the morning woke momma with a kiss on each eyelid,
Even though I’m only a kid
Certain things can’t be hid
Momma grabbed me
Held me like I was made of gold
But left her inner stories untold
I said, momma it will be alright
When daddy comes home, tonight

[CHORUS]
Whether Halliburton, Enron or anyone
Greed is a weapon of mass destruction

We need to find courage, overcome
Inaction is a weapon of mass destruction (x3)

My story stops here, let’s be clear,
This scenario is happening everywhere.
And you ain’t going to nirvana or far-vana,
you’re coming right back here to live out your karma.
With even more drama than previously, seriously.
Just how many centuries have we been
waiting for someone else to make us free?
And we refuse to see
that people overseas suffer just like we:
Bad leadership and ego’s unfettered and free
Who feed on the people they’re supposed to lead
I don’t need good people to pray and wait
For the lord to make it all straight.
There’s only now, do it right.
‘Cos I don’t want your daddy, leaving home tonight

[CHORUS]
Whether Halliburton Enron or anyone
Greed is a weapon of mass destruction

We need to find courage, overcome
Inaction is a weapon of mass destruction (x3)


Manobras de contenção

Por toda a Europa multiplicam-se as tentativas de acalmar o que pareceu ser um onda de agressão espontânea direccionada contra os grandes desequilíbrios sociais que se estão a construir de forma semiautoritária (sem submeter o grosso desta transferência de riqueza a referendos e outros métodos de escrutínio da opinião pública). Sobre a capa de se querer evitar a desagregação social (como se o facto de as pessoas se unirem para contestar o que está a acontecer não fosse prova do contrário) está-se a aplicar ora medidas repressivas ora medidas de distracção ou acalmia para continuar todo o processo até ao seu fim (o chicote e a cenoura para o burro não parar de vez). A parte mais deprimente de todo o processo é como tentam desviar as pessoas para o protesto banal e ineficaz que acaba por ter os mesmos efeitos do conformismo mais apático à face da Terra.

Mais uma enorme escolha desprovida de qualquer significado ou consequência.

Em Espanha andam todos distraídos, em véspera de eleições, com uma visita do papa, líder de uma Igreja que nunca teve pudor em dizer quem apoiava (a visita vai ter direito à presença da família real outra entidade completamente partidária e que serve, na opinião de muitos espanhóis, juntamente com a Igreja da baluarte do conservadorismo espanhol e do que resta do legado franquista). Ou seja não só as pessoas têm direito a um espectáculo público como também a comício para irem bem orientadas para as urnas (claro que tudo é feito sobre a mais estrita neutralidade legalista mas isso só mostra o lado perverso de se prestar atenção exclusivamente à formalidade – não haverá provavelmente uma palavra partidária directa nos discursos mas para bom entendedor…). Parece que, tal como na Noruega (só coincidências…), havia um plano de atentado (envolvendo por pelo menos um devoto cristão conservador) ao que poderia ser considerado a ala liberal do país (neste caso os que se opunham a que o Estado Espanhol arcasse com um cêntimo do custo desta visita papal). Neste caso, felizmente, foi possível evitar uma desgraça e apanharam-no antes que pudesse fazer estragos.

"Gangs isolados", "vandalismo" é o que mais se gosta de usar... e que tal: combate urbano e rebelião popular?

Pelo Reino Unido a técnica continua a ser a pálida imitação da baronesa Thatcher que o primeiro-ministro David Cameron parece empenhado em prosseguir. É prisões para os revoltosos e para quem “publicitou/incitou” a revolta. Ficamos sem saber se as tvs também serão multadas e os seus jornalistas principais encarcerados. Ou são apenas determinadas opiniões sobre o tema que dão direito a ir preso? Será mesmo que a causa de uma semana de caos urbano no Reino Unido pertence realmente a dois miúdos que usaram uns slogans? Quando se tornar muito incómodo também se fecharão as redes sociais e blogs como no médio oriente? Ficamos também sem saber qual é a moral de um governo que prende jovens adultos nestes casos mas permite que os seus “cidadãos mais respeitáveis”  investir (de forma legal) em armas proibidas. Será que irão colocar a cara dos presidentes dos Conselhos de Administração destes bancos em ecrãs ao longo de Londres para os encontrar e identificar? Em Portugal ficamos sem saber muito bem quando é que apoio ou palavras de ordem serão criminalizadas (esperemos não chegar a tanto porque as penalizações pessoais por emitir opiniões de qualquer ordem já são pesadas o suficiente). De qualquer forma ficamos a saber que a última reforma do governo prepara-se para criar mais 40000 desempregados (e neste ambiente económico são permanentes) como “dano colateral”. Estranha forma de contribuir para a estabilidade.


O aristocrata e a plebe

David Cameron, primeiro-ministro inglês, ex-aluno de Eton, milionário, primo da rainha e casado com a herdeira de um título nobiliárquico propõe mais violência para lidar com a crise económica do país. Se não aceitam a bem perder tudo aceitarão a mal, à sombra de um poder policial total. A plebe, um misto de revoltados contra um sistema que os abandonou para morrerem e desintegrados, é pintada como já não se via desde os dias de Margaret Thatcher (ou melhor Lady Thatcher porque pelas suas medidas “heróicas” de violência contra o seu próprio povo e uma guerra de brincar nas Malvinas foi promovida a baronesa). São duros, burros, porcos e maus de forma universal como se quer numa boa demonização. Não há qualquer motivo para cometerem tais actos e o facto de serem vítimas de um dos maiores programas de choque da Europa é um facto completamente alheio a tudo isto. O sistema económico britânico praticamente colapsa (basta ver o estado do seu sector bancário) e isto não teria consequências nas pessoas. Que se assume que aceitariam ser reduzidas a uma pobreza humilhante (seriam socialmente anuladas) sem abrir a boca ou perturbar os cavalheiros e damas de bom nome e estatuto social.

Os cidadãos produtivos...

A imagem é convenientemente simplista como as pessoas tendem a gostar. O cavalheiro das boas famílias que defende a lei e a ordem a todo custo contra uns vilões que só falta serem descritos como fisicamente deformados (porque até tentativas de vender isto como fenómeno só racial já houve e falharam – tudo menos assumir as ramificações económicas). Independentemente dos excessos cometidos numa raiva cega, por quem já nada tem a perder, quem está de fora não deve engolir os mitos que parecem estar a ser criados por políticos que querem a sua própria imagem de “durões” – já que em em popularidade não conseguem e o seu governo só existe por um erro de cálculo dos Liberais Democratas que mais mês menos mês devem abandonar a coligação. Uma situação periclitante para o seu poder e imagem pessoais que exige uma resposta brutal que fique na memória das pessoas: “Os restauradores da Ordem”. A quem vê as coisas apenas pelos meios de comunicação oficiais pede-se o discernimento de ler entre as linhas da versão oficial que nos é filtrada. Isto parece ser mais complicado, feio e classista do que nos está a ser dado a entender. Além de estar a criar o precedente de usar as próprias forças de segurança (ou mesmo militares) contra a a própria população.


Eventos efémeros

Na sequência do horror que assolou a Noruega (cujas conclusões toda a Europa ainda está a digerir) houve uma reacção espontânea da sociedade civil e o número de inscrições nos partidos políticos pela parte dos mais jovens disparou. É um gesto simbólico forte. Mostra que apesar dos terror e da vulnerabilidade, que é partilhada por todas as sociedades livres, têm que manter um sistema normal a funcionar e não se podem deixar tomar pela paranóia securitária e isolacionista.

Para os que não sobreviveram ao horror.

Mas passado o calor do momento e o sentimento, de se ter contribuído de forma positiva para algo, vão permanecer na política Norueguesa todos os factores que levaram estes jovens a ignorá-la ou desprezá-la até este momento. E irão fazer-se sentir com cada vez mais força até os levarem ao abandono ou indiferença (a posição inicial). Eventos traumáticos, a menos que repetidos de forma frequente para criação de uma “mentalidade de cerco”, nunca poderão ser o suficiente para regenerar um sistema político. Isto é ainda mais válido para o caso de países como Portugal onde a juventude aprendeu sabiamente a manter-se à margem da vida partidária de forma a evitar a manipulação ou o engano constantes. Os princípios cívicos não são muitos mas a própria ganância os informa que sem verem a sua estrela “patrocinada” a política é um beco sem saída de onde pode sair tudo menos ideias e soluções.

Parece que estamos à espera de uma coisa destas para recomeçar mesmo a sério....

Isto tem tudo ligação. Um sistema político que não permite participação genuína (o voto é mais formal que outra coisa) e que não permite brilhar quem tem esse potencial (e aqui poderíamos dizer que o mal é de Portugal como um todo e não apenas do mundo da política) está condenado a uma fria formalidade que só poderá significar o seu fim ou fraqueza extrema prolongada. Além de criar respostas extremistas a este estado de coisas como se viu no Norte da Europa recentemente (e se bem investigado provavelmente descobririam redes destas espalhadas pela Europa).Nós por cá nem o nosso momento de união nacional tivemos (ainda bem), frágil e de curta duração que costumam ser, o que quer dizer que o efeito de fragmentação que esta forma de gerir o país está a causar poderá ser mais rápida por cá que noutros lugares. Este conservadorismo em todas as frentes está a sufocar a nação.


Sinal de aviso

É preciso ter sempre muita sensibilidade ao falar de situações como a que ocorreu recentemente na Noruega para não cair em dois erros. O primeiro é a insensibilidade a quem passou a um verdadeiro inferno, especialmente o que não sobreviveram (os meus pêsames estão com as suas famílias e entes queridos). O segundo é cair numa reacção histérica que serve apenas para exteriorizar todos os medos, justificados ou injustificados, que sentimos sem prestar atenção suficiente ao que está mesmo em causa. Temos que ser sensíveis, pausados e realistas.

Prefiro pensar na Noruega sempre desta forma

Eu tenho que admitir que tenho uma grande dificuldade em acreditar que isto se trate de um acto isolado de alguém doente. Que esta pessoa tem problemas não está em discussão mas parece que falamos de um nível de acumulação de informação e até de treino que não seria atingido facilmente sozinho (mesmo com generosos recursos de tempo e dinheiro) além de que para um tipo de acção deste tipo (tão politicamente carregada e cheia previsões de conflitos futuros) fica claro esta pessoa não se via como estando sozinha e muito menos isolado, ou seja, não era uma cruzada pessoal. Já para não falar no factor motivação, é muito complicado alguém entrar num conflito físico sem motivação constante por parte de alguém ou alguma coisa. Parecem existir bastantes pontas soltas no que toca ao atacante e às suas possíveis ligações, mas dado que estamos no início das investigações teremos que ver o que surge.

Outra Cruzada há uns anos...

Igualmente preocupante é a identificação que este senhor faz de tendências a nível Europeu (representadas por forças políticas consideradas como potencialmente aliadas ou úteis à sua causa – algumas claramente são injustiçadas nesta listagem) para um uso sistemático de violência contra alguns alvos de estimação. É de perguntar o porquê da renitência em vários países de perseguir as ligações de alguns destes movimentos entre si e os detalhes das suas actividades – ao contrário do que fazem com os suspeitos de terrorismo islâmico. Falamos de distracção? Uma ameaça claramente subestimada ou algo pior? Será que por os membros destas organizações (e outras não listadas) serem europeus há medo de bater a algumas portas? São filhos de alguém? Ou há simpatias de membros de em alguns governos europeus por este tipo de ideologia e está-se a permitir que floresça? Se isto for um cenário provável então o que se quererá fomentar a longo prazo com esta tolerância selectiva e quem o estará a permitir?

Ainda outra cruzada... afinal é recorrente...

É preciso alertar sempre os cidadãos que todos os governos adoram que se crie um clima de medo porque isso gera menos perguntas e procedimentos de segurança mais directos e menos responsáveis (perceba-se: com menos garantias para qualquer pessoa que seja vista como “de risco” seja porque critério for). Ao contrário do ditado popular não é só quem deve que teme. Um sistema de informação extremamente invasivo coloca o cidadão mais pacato nas mãos de alguns serviços do estado (de ligações partidárias entre outras) ou mesmo de empresas privadas subcontratadas (um sector em crescimento explosivo). Cuidado com todas as organizações, públicas ou privadas, que nos negam as nossas autonomias para nosso próprio bem e protecção.

Está a ser observado. Para sua própia segurança claro.