Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

União Europeia

O Elemento Democrático

A democracia, questão vital para qualquer país poder ser considerado para membro da União Europeia, está a dar uma dor de cabeça forte às elites económicas mundiais. Com o governo grego a ter que devolver o poder á sua população (era claro que se não o fizesse o próprio executivo seria removido forçosamente por iniciativa popular ou mesmo militar) começam a tocar sinais de alarme noutros sítios. Penso que não se trata tanto de um caso que o que está em causa seja o valor da dívida mas sim o princípio da recuperação da soberania nacional mesmo quando se tem 26 outros países do mesmo clube a sabotar essa tentativa de restabelecimento de justiça. Se a Grécia o fez então outros países, que ainda não tenham sido “castrados” politicamente, podem decidir fazer o mesmo (ou algo similar) e pura e simplesmente cumprir com as suas obrigações éticas, teoricamente, enquanto governos democráticos, e ouvir a população em questões chave que podem condicionar o desenvolvimento e nível de vida nacional durante décadas. Há claramente uma ameaça de derrocada do bloco de unidade artificial que Alemanha, França e FMI criaram.

Podem cair como dominós...

Claro que isto teve o seu preço e as chefias militares gregas foram substituídas para evitar a possibilidade de golpe (podem cansar-se de ficar à espera de um referendo que de momento ainda só está prometido) sendo que a credibilidade e prestígio dos oficiais substituídos só pode ter crescido e a sua autoridade moral, provavelmente, continuará intacta para efectuar as acções que forem necessárias (os burocratas de todos os países tendem a esquecer-se que as organizações não são apenas os organigramas que têm pendurados na parede). Em Portugal o governo começa a ficar preocupado com este estado de coisas porque, juntamente com várias entidades internacionais, investiu muito dos partidos e de algumas pessoas numa reforma radical do país seguindo o modelo grego. Ou seja, completamente à revelia do seu povo está a reconstruir o país à imagens dos seus ideólogos favoritos mudando radicalmente a natureza do estado, dos cargos públicos, das obrigações sociais, do nível de vida médio, do poder económico, das próprias relações sociais e acima de tudo da distribuição de poder entre classes e grupos. Isto é um verdadeiro golpe palaciano disfarçado de tecnocracia e obrigações internacionais.

Parecem existir dúvidas...

E é normal que comecem a estar preocupados. O prometido milagre dos conselheiros económicos que vieram de fora (pertençam ou não ao governo) não só não ocorreu como não houve qualquer recuperação de credibilidade económica internacional como, pior que tudo o resto, a situação social está a degenerar-se tão depressa que pode ameaçar o ritmo louco das reformas previstas. Um país na bancarrota não está em disposição de ouvir falar em sacrifícios da parte de quem não os partilha. Como avisei há já algum tempo Portugal chegará ao próximo Verão/Outono como um país bloqueado e parado perante o mesmo dilema que tem afligido a Grécia e que parece agora ir dar os primeiros passos numa solução credível.

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Forças de Mercado

É hilariante ver como quem defendia intransigentemente o pagamento integral da dívida grega vai agora aceitar pacatamente metade desse valor sem mais questões. É a prova que os próprios credores reconhecem que essa dívida não foi acumulada de forma honesta e que mesmo perdendo 50% dela continuarão a ganhar escandalosamente com a quase falência de uma país e o abandono de milhões de pessoas à mais pura selvajaria económica e injustiça social. Mais divertido ainda é ver como um dos principais sorvedouros de dinheiro deste país continua activo e de boa saúde. O desastre BPN foi posto aos pés do anterior governo (cada um que acredite nos contos de fada que quiser…) mas mesmo depois de vendido (a parte saudável – por um preço escandalosamente baixo que levante sérias dúvidas sobre quem definiu os prazos de venda) deixou-nos os activos tóxicos para serem financiados por nós.

Temos que compreender que há pessoas que não podem ser abandonadas à sua sorte... o comum dos mortais não faz mal mas membros das elites económicas? Seria o fim da civilização...

A banca mais uma vez recusa tomar qualquer acção que ajude a arcar com este fardo e levanta uma questão cada vez mais premente: para que serve? Não arca com o seu peso em impostos. Não financia a economia real como devia, pois tem a maioria dos seus activos em empréstimos à habitação e ao consumo. Não aceita um esquema de taxação especial de alguns dos seus accionistas mais ricos cujos ganhos são inteiramente de natureza especulativa. E por fim alguns exigem 12 mil milhões (valor mínimo) do dinheiro que vamos receber do FMI sem dar nada em troca. Dada esta situação começo a perguntar-me se não seria mais saudável para o país simplesmente ter o estado como entidade que concede empréstimos à economia e privados (de forma directa) em vez de termos os bancos como intermediários que não acrescentam nada à equação que não sejam custos e taxas extra ao cidadão (que não recebe nada em troca e ainda paga duas vezes o mesmo valor, uma vez aos estrangeiros em impostos e outra à banca nacional acrescida de uma gorda comissão). Numa altura que se fala de privatizar o que resta da banca estatal eu acho que era de considerar a criação de um modelo de empréstimo estatal directo, com ou sem a Caixa Geral de Depósitos, como forma de aliviar o custo do crédito útil.

Internacionalmente é quase deprimente olhar para a figura que fazem os políticos portugueses que regularmente se vão humilhar ritualmente perante outros líderes europeus (a si próprios e inevitavelmente, por associação, a nós) para dar provas que são mesmo bem mandados (ou “bons alunos” como eufemisticamente os media preferem). Sim estamos em dificuldades mas temos também um poder destruidor dentro da zona euro completamente desproporcional ao peso real da nossa economia o que nos torna perigosos e com mais a perder do que a ganhar com o status quo – a isto dá-se o nome de poder negocial, facto que o nosso governo parece desconhecer. Tudo isto parece passar ao lado das nossas elites (meritocráticas segundo dizem e está na moda) e preferimos continuar a apresentar-nos sem dignidade, orgulho ou honra face a uma Europa cheia de preconceitos contra a Europa do Sul. Queremos ser vistos como bons tecnocratas económicos, fiéis servos dos mecanismos de mercado nem que isso arruíne ainda mais o já muito fraco peso político internacional do país.


A aprendizagem

Sabendo nós que um país, a Grécia, em tudo parecido com o nosso, está à beira de uma guerra civil ou pelo menos caos social de grandes dimensões – sendo os grandes responsáveis a classe política grega que se recusa terminantemente a servir o seu povo, pôr os instrumentos democráticos de que dispõe em acção e, em suma, renegar uma dívida que foi em muito acrescida pela mera especulação exterior e não pela acumulação interna – todos em Portugal parecem tirar algumas lições sobre o que se passou e ainda pode passar. Para o governo em funções (eu dei-lhes 18 meses de vida quando tomaram posse mas a este ritmo, e dependendo da evolução internacional, posso muito bem ter que rever esse número em baixa) a lição é clara e unívoca: domínio social dos seus patrocinadores económicos ganha prioridade a todo o custo (já que podem não ter tempo de implementar ou inutilizar tudo o que desejam) nem que destruam irremediavelmente o partido a que pertencem como alternativa democrática credível para todo o sempre.

A fome de poder e riqueza corre o risco de deixar 90% das pessoas pelo caminho...

As medidas dividem-se em várias esferas mas não vacilam quanto ao seu propósito. Refazer o país e tudo o que o definiu até este momento de forma essencialmente secreta e antidemocrática (há muito que o seu mandato legítimo foi ultrapassado mas o ritmo reformador só acelera). Quando confrontado com as reservas de uma das pessoas que o colocou onde está (sim é verdade que apenas o parece falar neste momento para salvar o seu legado pessoal face à análise histórica futura, ninguém quer ser conhecido como o último chefe de estado de nenhum regime) o Primeiro-Ministro pura e simplesmente não comenta. Silêncio que mantém sobre a crescente presença angolana em todas as esferas da nossa vida (com fundos derivados de um governo cada vez mais contestado no seu próprio país) A crua realidade é que quem detém poder (ou conivência) suficiente não precisa de prestar contas ao povo. O modelo económico vacila mas ignora-se majestosamente as consequências do que só pode vir a ser um colapso total do consumo (provavelmente acabando em deflação daqui a uns tempos) porque isso afinal de contas até pode ser útil para domar as pessoas e desde que não afecte algumas empresas chave não é relevante – e quem discordar é sumariamente ignorado.

Para uns sim para outro não... e nada mais perverso que vender isto como a ordem natural das coisas.

Não sendo um governo de esquerda é estranho que faça lembrar medidas mais soviéticas que aquelas os próprios comunistas portugueses alguma vez puseram em cima da mesa para a população em geral. Propõe-se o trabalho gratuito do funcionário público para algumas instituições (escolhidas sabe deus por que critério… ), sendo que só num plano imaginário poderá o dito funcionário sentir-se em liberdade de dizer não a esta “proposta”. Quer concorde ou não com a orientação ideológica de algumas organizações será então forçado a “doar” o seu trabalho a elas. Ou seja haverá grupos ideológicos (concordantes com o governo e seus apoiantes socialmente relevantes) que passam a beneficiar de uma força de trabalho gratuita e qualificada. E para terminar, numa nota ainda mais preocupante, tal como na Grécia começamos a ter casos de movimentações neo-nazis que parecem ser mais ou menos toleradas pelas forças de segurança que sendo que é verdade que impediram o confronto também não detiveram, ou sequer identificaram, todos os responsáveis. Estes grupos extremistas estão no céu com esta situação social e começam a apalpar o terreno para ver quanta violência será tolerada por parte de grupos paramilitares ilegais – haverá “caçadas”, lideradas pela extrema-direita armada até aos dentes, pelas ruas de Lisboa e Porto a manifestantes como noutros países?


Notas “Filosóficas”

Eu admito que acho engraçado ler o que os intelectuais da nossa praça (até os auto-exilados em condições paradisíacas nas melhores cidades Europeias) têm a dizer sobre o país do qual supostamente ainda fazem parte. A erudição extra deve ajudar a criar perspectivas novas  e vivificantes que quebrem os moldes meramente técnicos em que todos os organismos inevitavelmente caem com o tempo. Foi nesse espírito que dei uma espreitadela ao micro texto de Eduardo Lourenço (apenas uma pequena amostra do que pelos vistos foi um discurso numa conferência). Devo dizer que parecia que estava a ler um discurso com o “best of” de Cavaco Silva: muita esperança, “a Europa há de se levantar” e “isto não pode durar para sempre“. Admito que também vemos uns quantos toques eurocêntricos de necessidade Sebastianista de relevância a nível mundial (não houve referências a um Quinto Império, felizmente, porque fica realmente mal a um intelectual que se quer internacional) portanto não é só repetições de uma mesma fonte.

Não há melhor aviso a fazer.

É profundamente irritante ver estas pessoas que supostamente têm uma enorme responsabilidade moral em nos informar e abrir perspectivas (o “Intelectual” como arquétipo é isso mesmo, alguém que se desliga da sociedade, em termos por exemplo dos seus interesses privados, para depois de pensar sobre ela poder voltar com novas visões, alguém que assume algum grau profundidade de pensamento que a maioria não está nem capacitada nem motivada para fazer) mas no entanto o que acabamos por ter é o debitar do que,na minha modesta opinião, são meras trivialidades que qualquer aluno médio de 1º ano de faculdade nos poderia dizer. Fora a conversa de “optimismos” e a noção que parece estar subjacente a todo o texto de “temos que aguentar o que for necessário, o que nos ordenarem” ficamos reduzidos a uma proposta de um federalismo mais solto como modelo Europeu (como se houvesse escolha num mundo que não aceita ceder soberanias e em que ninguém quer uma Europa a uma só velocidade) e a espantosa conclusão que se a Grécia cair outros se seguirão incluindo nós (até alguém com sérias dificuldades em entender conceitos económicos ou de teoria social poderia ter chegado a esta conclusão, basta entender o conceito de bola de neve).

Sem comentários...

Em suma. Pessoalmente defendo que textos destes não merecem publicação. Desculpe-me o autor, desculpe-me o jornalista e desculpe-me o jornal (sei que estão no direito de fazerem o que quiserem mas eu também penso estar no direito e dever de comentar livremente) mas a verdade é que são apenas trivialidades aparentemente misturadas com uma mensagem sub-reptícia de alguma submissão popular (não consigo identificar se isto se deve ao que o autor diz ou à edição do seu texto) à visão dos sábios nas suas torres de marfim (o que em Portugal é juntar a fome com a vontade de comer já que sempre tivemos uma adoração por tecnocratas, especialmente se afectarem uma falsa modéstia semi-provinciana (como o nosso ex-ditador que criou o “template”), e uma vontade de obedecer para evitar a responsabilização pessoal). No século XXI exige-se muito mais de um intelectual de primeira linha que isto. Quanto mais não seja porque as necessidades são maiores.


A Nova Pirâmide Social

Não que algum partido que tenha estado no governo tenha tido realmente boas intenções para com a área da educação mas esta coligação está realmente está a distinguir-se por levar as iniciativas de todos os outros à sua conclusão lógica: a transformação total do Ensino Público numa espécie de gueto onde se despejam ao abandono os filhos de quem não é “relevante” (caso esteja em dúvida se não está no percentil dos 10%, ou mesmo 5%, mais ricos do país então não é relevante para este sistema – e os seus filhos terão que se resignar a serem baixas numa guerra cultural não declarada). Os cortes que estão nesta altura previstos para o sector são o triplo (sim leu bem, o triplo!!) daquilo que até foi acordado quando recebemos o empréstimo à banca, do FMI e UE, que todos temos que pagar sabe-se lá como. Isto não tem qualquer justificação racional. Nem pode ter tendo em conta que este ministro da área passou a vida a criticar o anterior governo por “falsificar resultados” (com facilitismos). Se, supostamente, tinha problemas que, antes das eleições eram catastróficos, eles serão resolvidos com esta solução que o que faz é despedir 30000 professores e cortar o triplo da verba requerida? Além destas medidas que ultrapassam largamente o meramente draconiano, são genuinamente punitivas do sector da Educação Pública, ainda ficamos na dúvida sobre a validade do concurso que colocou os professores que sobraram, havendo suspeita de irregularidades (não que acredito por um segundo que qualquer investigação revele seja o que for mas de qualquer fica o alerta dos sindicatos).

O problema é que as pessoas já não fazem isto às nossas elites e eles, naturalmente, sentem-se ultrajados. Como se atrevem os campónios a não fazer o beija-mão? Já não bastava perder o título nobiliárquico e agora isto…

Para onde podemos caminhar com um cenário destes? Bem não será muito complicado adivinhar que o objectivo parece ser duplo. Por um lado a destruição da Educação Pública seguida de um mega processo de privatização das áreas do ensino mais apetecíveis deixando as zonas “problemáticas” nas mãos do que sobrar do Ministério da Educação (ou melhor ainda, se se quiser mesmo espalhar o caos total, colocar as escolas sob a tutela camarária). Após isto entramos num período de grande segmentação social dos alunos (se esse processo já hoje é visível imaginem depois disto tudo) em vários tipos diferentes de estabelecimentos e claro com o famoso cheque ensino o financiamento aberto de organizações religiosas elitistas que continuam a poder rejeitar qualquer aluno com base em qualquer critério imaginável. Avançando tudo estaremos perante um processo de segmentação populacional e engenharia social como já não se via desde os dias de ouro do Império Britânico. É o fim total da mobilidade social por via legal e ética.

Um novo slogan para as nossas elites? Podem acrescentar debaixo do brasão de família.

Dado que sempre considerei que acima de tudo os objectivos das elites portuguesas eram sociais e culturais, antes de serem económicos (basta ver o ineficaz sistema de cunhas que vigora com uma pujança nunca antes vista no sector privado – o objectivo não é capitalizar os ganhos ou maximizar o lucro, o objectivo é promover uma estrutura de poder com as “pessoas certas”), não é de estranhar que se use a crise para tapar o que, eu penso que, será um dos principais legados deste governo e o sistema político que está a compactuar com isto (o silêncio de alguns sectores é ensurdecedor). Com a ameaça de não querermos ser Gregos estão a ir conseguindo impor as coisas, pouco a pouco, mesmo quando no epicentro político e financeiro do mundo se começa repensar este tipo de políticas e a credibilidade deste tipo de elites.


Quem manda aqui

O governo alemão fez hoje uma séria ameaça a um outro Estado-Membro da União Europeia (deve ser a primeira vez desde a segunda guerra mundial que a Alemanha ameaça sanções, mesmo que sejam de natureza económica, de forma directa e unilateral contra outro país europeu). A Grécia vai ser deixada à deriva a não ser que se assine uma rendição incondicional aos seus credores internacionais (nomeadamente a Alemanha) independentemente das suas razões para a não implementação de certas medidas (como por exemplo sistematicamente o FMI propor cópias de sistemas anglo-saxónicos e nórdicos em países que não têm nem a mesma cultura, história ou funcionamento – há razões para os sistemas terem evoluído de forma diferente e também há razões para alguns executivos europeus e sectores empresariais associados estarem tão desejosos de seguir a receita). Essencialmente Wolfgang Schaeuble (ministro das finanças alemão) entregou aos gregos a sua versão do mapa cor-de-rosa deixando no ar a ameaça da falência do país, o caos social (como se eles não estivessem já a viver nessas condições e esse tipo de ameaça tivesse peso) e possível instabilidade geopolítica na região (para quem está mais desatento: militarmente a Grécia é uma potência regional algo relevante) que teria que ser colmatada por outra potência, benemérita claro, que por acaso tivesse interesse em expandir a sua influência na região (conseguem lembrar-se de alguém?). Nem é preciso dizer que isto serve de aviso a todos os outros países que estão ou possam vir a estar no mesmo barco, ou se faz à Alemã ou não se faz de todo e deixa-se as nações “aliadas” cair como dominós.

Alguém é servido? Uma dose de realidade para alguém?

Claro que há razões para a Alemanha estar a tomar estas atitudes leoninas. Em primeiro lugar conseguiram “raptar” (aliciar talvez seja um termo mais correcto) a França para o seu lado oferecendo-se para tapar as graves falhas económicas do país em troca do seu apoio político incondicional (indispensável nesta fase). Em segundo lugar sabem que a posição que ocupam nos mercados mundiais só pode decair com o tempo (os mercados emergentes têm consistentemente substituído a produção industrial alemã em quase tudo, começaram pela indústria pesada e agora já estão nos componentes de plástico – há mesmo produtos que são totalmente tecnologia alemã mas que não são de facto produzidos na Alemanha, ou sequer na Europa) o que quer dizer que o seu poder negocial está provavelmente num ponto máximo ou próximo disso. A altura ideal de estabelecer um novo equilíbrio continental, que os beneficia naturalmente. Em terceiro, e último, lugar as novas gerações alemãs têm uma mentalidade curiosa que por um lado já não está refém do complexo de culpa do período nazi e que por outro lado compreendeu muito bem que a dinâmica das nações continua a ser uma de conflito descarado, aberto quando a disparidade de poder é significativa (assegurando simultaneamente uma vitória rápida e um espólio compensador) ou discreto e económico quando o primeiro tipo de abordagem levaria a resultados incertos ou com custos demasiado elevados. Nesse aspecto são quase único na Europa já que muitos, especialmente os países periféricos, levam mesmo a ideia de algum grau de irmandade europeia a sério.

Para quem ainda não percebeu: nós não somos o futuro.

O que é talvez mais estranho é que estas declarações venham no seguimento da admissão, da própria chanceler, que se o Euro falhar a Europa, como projecto, está condenada. O que significaria mais uma vez o regresso a um manto de retalhos políticos mais ou menos frágeis contra outras potências (próximas ou distantes, antigas ou emergentes) e quase impossíveis de controlar ou coordenar. Dado este facto a arrogância de Schaeuble parece um pouco deslocada já que parece que quem tem as cartas na mão são os gregos, que podem fazer este castelo de cartas cair de um só sopro. É um bluff bem atempado (mesmo na altura da Grécia receber outro pagamento) mas parece não ter mesmo qualquer substância já que em termos de perdas geoestratégicas seriam os alemães a pagar a factura mais elevada a longo prazo e a ver as suas esperanças de relevância global esmagadas ou pelo menos seriamente danificadas e adiadas.


Enquanto os segredos continuam secretos

Parece existir um certo esforço concertado no sentido de forçar a nossa atenção nos escândalos ligados às secretas que parece exceder o normal ou recomendável. Não faço ideia do que se passou ou não passou mas isso passa ao lado da questão central. Qualquer investigação real a este tema será secreta (surpresa!) e como tal o cidadão que anda tão consumido em descobrir meia dúzia de teias de corrupção e tráfico de influência vai ficar na mesma, às escuras. O curioso é que ainda não parecem ter percebido que mesmo que o inquérito fosse sério, e competente, e houvesse coragem de publicar resultados, e prosseguir para julgamento e consequências políticas estes dois tipos de crime são: 1) tolerados moralmente pela maioria da população, basta ver o comportamento eleitoral na política local e 2) Impossíveis (ou quase) de fazer prova em processo judicial. Ou seja o resultado final de tudo isto só pode ser um silêncio ensurdecedor quanto aos factos em questão seguido de um vazio de consequências. Assim sendo não era melhor ir olhando para outras coisas que não estão a ocupar o “prime time”?

O cidadão bem informado a ler informação devidamente uniformizada.

Como o facto de a banca estar a fazer exigências superiores a 400 milhões de euros ao Estado para que este pague a dívida de uma concessionária de auto-estradas (aqui não há preocupação com a despesa? Pagamos como contribuintes quando entidades privadas nos mandam? Pelas razões que lhes apetecem? Não se investigam como esta “dívida” foi adquirida?). Como o facto de a sua prestação de casa ter subido 15 euros em média em Julho (e continuar a sua escalada ascendente). Como o facto de os serviços públicos essenciais para a sobrevivência humana continuarem a ser vendidos a um ritmo tão alucinante que nos impede de acompanhar o que se passa com cada processo. Como o facto de dentro da União Europeia continuarmos a sofrer pressões enormes para destruir o que resta das nossas protecções laborais (eu sinceramente não sei o que ainda existirá para “liberalizar”… acabar com o salário mínimo? Acabar com o horário máximo semanal? Mais cortes salariais arbitrários? Acabar com o contrato de trabalho de todo e ser pago ao dia ou à hora? Ceder o nosso voto à entidade que nos emprega??). Como o facto dos preços dos combustíveis continuam completamente desregulados e continuarem a subir sem a opinião pública ter noção se existirá qualquer relação entre o preço e o custo real?

Quanto mais se fala de algo mais urgente é dar a impressão que esse algo é real. Conhece palavra mais usada que "liberdade"?

Afinal há muito mais a acontecer a que não é dado nem metade do destaque do processo das secretas. Coisas que o afectam a si de forma clara, imediata e permanente. Basta prestar um pouco de atenção e deixar as histórias “reluzentes” dos espiões das quais você, caro leitor, nunca irá saber nada de relevante. Olhe para a sua vida e não deixe que o distraiam ou choquem ao ponto da apatia. A sua voz devia estar a ser ouvida e tida em conta na maioria (senão todos) destes temas e no entanto foi remetido para um papel marginal de ser sem cidadania plena cujo único dever é pagar e cuja única demonstração de patriotismo aceitável é bater palmas a este sistema.


Manobras de contenção

Por toda a Europa multiplicam-se as tentativas de acalmar o que pareceu ser um onda de agressão espontânea direccionada contra os grandes desequilíbrios sociais que se estão a construir de forma semiautoritária (sem submeter o grosso desta transferência de riqueza a referendos e outros métodos de escrutínio da opinião pública). Sobre a capa de se querer evitar a desagregação social (como se o facto de as pessoas se unirem para contestar o que está a acontecer não fosse prova do contrário) está-se a aplicar ora medidas repressivas ora medidas de distracção ou acalmia para continuar todo o processo até ao seu fim (o chicote e a cenoura para o burro não parar de vez). A parte mais deprimente de todo o processo é como tentam desviar as pessoas para o protesto banal e ineficaz que acaba por ter os mesmos efeitos do conformismo mais apático à face da Terra.

Mais uma enorme escolha desprovida de qualquer significado ou consequência.

Em Espanha andam todos distraídos, em véspera de eleições, com uma visita do papa, líder de uma Igreja que nunca teve pudor em dizer quem apoiava (a visita vai ter direito à presença da família real outra entidade completamente partidária e que serve, na opinião de muitos espanhóis, juntamente com a Igreja da baluarte do conservadorismo espanhol e do que resta do legado franquista). Ou seja não só as pessoas têm direito a um espectáculo público como também a comício para irem bem orientadas para as urnas (claro que tudo é feito sobre a mais estrita neutralidade legalista mas isso só mostra o lado perverso de se prestar atenção exclusivamente à formalidade – não haverá provavelmente uma palavra partidária directa nos discursos mas para bom entendedor…). Parece que, tal como na Noruega (só coincidências…), havia um plano de atentado (envolvendo por pelo menos um devoto cristão conservador) ao que poderia ser considerado a ala liberal do país (neste caso os que se opunham a que o Estado Espanhol arcasse com um cêntimo do custo desta visita papal). Neste caso, felizmente, foi possível evitar uma desgraça e apanharam-no antes que pudesse fazer estragos.

"Gangs isolados", "vandalismo" é o que mais se gosta de usar... e que tal: combate urbano e rebelião popular?

Pelo Reino Unido a técnica continua a ser a pálida imitação da baronesa Thatcher que o primeiro-ministro David Cameron parece empenhado em prosseguir. É prisões para os revoltosos e para quem “publicitou/incitou” a revolta. Ficamos sem saber se as tvs também serão multadas e os seus jornalistas principais encarcerados. Ou são apenas determinadas opiniões sobre o tema que dão direito a ir preso? Será mesmo que a causa de uma semana de caos urbano no Reino Unido pertence realmente a dois miúdos que usaram uns slogans? Quando se tornar muito incómodo também se fecharão as redes sociais e blogs como no médio oriente? Ficamos também sem saber qual é a moral de um governo que prende jovens adultos nestes casos mas permite que os seus “cidadãos mais respeitáveis”  investir (de forma legal) em armas proibidas. Será que irão colocar a cara dos presidentes dos Conselhos de Administração destes bancos em ecrãs ao longo de Londres para os encontrar e identificar? Em Portugal ficamos sem saber muito bem quando é que apoio ou palavras de ordem serão criminalizadas (esperemos não chegar a tanto porque as penalizações pessoais por emitir opiniões de qualquer ordem já são pesadas o suficiente). De qualquer forma ficamos a saber que a última reforma do governo prepara-se para criar mais 40000 desempregados (e neste ambiente económico são permanentes) como “dano colateral”. Estranha forma de contribuir para a estabilidade.


Afinal não somos diferentes

Londres

Parece que finalmente, e já não era sem tempo, algumas pessoas começam a acordar para o que deveria ser óbvio. As diferenças nos países da Europa Ocidental e do Sul são superficiais. Londres está em chamas e em rebelião aberta contra o poder central. A crise do modelo político-económico é inegável (a julgar pelas chamas e violência que são argumentos bastante fortes – eu sei que por cá as autoridades preferem as opiniões higiénicas dos comentadores do costume mas, às vezes, a realidade vence mesmo esta nova forma de censura) e o que aconteceu na Grécia, na Irlanda e em Portugal vai acontecer noutros sítios nalguns casos com ainda mais violência. As autoridades governamentais, neste caso em Londres, fazem o costume, apelos à calma quer controlem ou não a situação, econdenam unilateralmente a violência como se os combates na rua fossem entre vários grupos manifestantes e não uma miniguerra urbana entre as forças policiais e os descontentes. A crença profunda Downing Street parece ter nascido no coração de outro regime, se repetirmos algo vezes suficientes as pessoas acabam por acreditar: Os responsáveis são só meia dúzia de criminosos de resto tudo está bem. Tudo está bem. Tudo está bem…

Atenas

Por cá ainda estamos a alguma distância de cenas destas (apesar de estar convencido que lá chegaremos como o devido desenrolar desta peça de teatro) quanto mais não seja porque ainda só há um mês é que começámos a apanhar com a Doutrina de Choque que nos querem impor. Haverá dissabores em meses futuros, reclamações para o ar, chega o natal e a Igreja (como boa aliada do poder que sempre foi) irá pôr água na fervura e no próximo ano é que as coisas vão mesmo aquecer quando se perceber que o poço dos sacrifícios pedidos não só não tem fundo como continuará a haver um conjunto de iluminados (com as melhores credenciais familiares e profissionais como se quer em Portugal) que continuará a gritar aos quatro ventos que a culpa é da falta de brutalidade das reformas aplicadas (fazendo lembrar os frades dominicanos da inquisição a avisarem que é preciso queimar mais hereges até a ira de Deus ser aplacada). A situação vai rapidamente ficar insustentável especialmente nos grandes centros urbanos. E aí veremos então se a violência que caracterizou a vida pública portuguesa nos últimos séculos desapareceu por completo, como nos querem fazer acreditar desde 1933, ou se somos os mesmos do costume e quando encostados à parede, e sem outras soluções, fazemos algo para nos defendermos e nesse caso poderão até surgir respostas piores que estas.

Madrid

Até esse altura ficamos com o triste espectáculo das capitais europeias a desintegrarem-se uma a uma e a transforem-se em espécies de zonas militarizadas com cada vez mais limitações à mobilidade de acção e opinião dos cidadãos – que se começam a questionar o que estão a ver ou a versão oficial dos eventos passam a ser descritos nos media e comunicados oficiais como “os poucos e perigosos delinquentes”.


Somos diferentes

Já começou a dança dos espanhóis e italianos com a UE e o FMI. O grito de guerra já foi dado antes pela Irlanda e depois por Portugal: somos diferentes! Não funcionou da primeira vez, não funcionou da segunda e já vai a caminho de não funcionar uma terceira vez. Mas com os egos nacionais, sendo o que são, ninguém nos respectivos países vai querer acreditar que os seus parceiros estratégicos estão dispostos a atirá-los pela ravina abaixo. As racionalizações são demasiado agradáveis para encarar essa alternativa; somos culturalmente relevantes, sem nós a zona Euro sofreria demasiado, temos um passado glorioso, etc.

O passado "glorioso"... ou... "ópio para países irrelevantes"

A continuar por este caminho (e não sabendo a evolução a curto-médio prazo das relações China-EUA ou a resolução da crise de liquidez do governo americano – que penso ser um fenómeno mais aparente que real já que nenhum republicano aceitaria as consequências de tal acção seja em nome de que princípios forem) começarão a aparecer estudos, tudo teórico claro, sobre a hipótese da zona Euro a duas velocidades, ou seja, a Europa a sério e os protectorados e estados vassalos. Penso que até os mais distraídos perceberão que isso seria a morte do projecto Europeu e não apenas do Euro. Ninguém vai aceitar um papel de subordinação formal a um outro estado Europeu. Há demasiada história e demasiadas tensões envolvidas para isso ser sequer considerável e não existem amarras financeiras fortes o suficiente para parar esta dissolução uma vez que tiver começado.  Estamos todos esquecidos que ao longo de 1500 anos o que os Europeus melhor fizeram foi lidar com um mundo de alianças flutuantes, guerras constantes, internas e externas, e acima de tudo a união contra qualquer potência hegemónica que surgisse no continente.

Em nome "de la civilisation"?

A segunda guerra mundial mudou muito mas não muda a essência do ser humano e infelizmente começa a ser uma memória de fraco poder vinculativo. É preciso mais que isto para sobreviver à tempestade. Ser bom aluno não chega. As receitas dos mágicos não funcionam, pelo menos, para a maioria das pessoas. A Grécia é diferente e isso não a salvou, a Irlanda é diferente e isso não a salvou, Portugal é diferente e isso não o salvou… Espanha e Itália são também diferentes e isso não as vai salvar.

Ou será em nome da "Zivilisation"?

O único poder deste seguidismo assegurar a construção de uma cintura periférica de “subúrbios/guetos” miseráveis à volta de Europa Central do qual todos faremos parte independentemente das nossas “tão relevantes” diferenças. As empresas que receberão a sua exploração agradecem a confiança e a carta branca que irão ter para ignorar o próprio povo a que presidem – para os mais formalistas não se preocupem porque continuarão sempre a existir eleições e a aparência de um sistema de justiça porque num mundo visual as aparências contam e muito.

Em nome de uma nova política urbanística, compre dentro das suas possibilidades reais.

Nota: No seguimento das minhas notas sobre a privatização como modelo de desenvolvimento já temos como certo um aumento de mais de 25% para comboios na linha Sintra e 22% para o metro de Lisboa. Isto não pode levar a fechar as pessoas em guetos dos quais nem para trabalhar podem sair??? É isto que queremos das nossas cidades? Uma cópia da Europa? Um centro rico com tudo civilizado e uma periferia fechada sobre si própria e entregue aos lobos servindo apenas para espremer rendimentos?? Podemos ser todos diferentes mas corremos o sério risco de ficar todos fechados em infernos incrivelmente similares.