Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

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O Elemento Democrático

A democracia, questão vital para qualquer país poder ser considerado para membro da União Europeia, está a dar uma dor de cabeça forte às elites económicas mundiais. Com o governo grego a ter que devolver o poder á sua população (era claro que se não o fizesse o próprio executivo seria removido forçosamente por iniciativa popular ou mesmo militar) começam a tocar sinais de alarme noutros sítios. Penso que não se trata tanto de um caso que o que está em causa seja o valor da dívida mas sim o princípio da recuperação da soberania nacional mesmo quando se tem 26 outros países do mesmo clube a sabotar essa tentativa de restabelecimento de justiça. Se a Grécia o fez então outros países, que ainda não tenham sido “castrados” politicamente, podem decidir fazer o mesmo (ou algo similar) e pura e simplesmente cumprir com as suas obrigações éticas, teoricamente, enquanto governos democráticos, e ouvir a população em questões chave que podem condicionar o desenvolvimento e nível de vida nacional durante décadas. Há claramente uma ameaça de derrocada do bloco de unidade artificial que Alemanha, França e FMI criaram.

Podem cair como dominós...

Claro que isto teve o seu preço e as chefias militares gregas foram substituídas para evitar a possibilidade de golpe (podem cansar-se de ficar à espera de um referendo que de momento ainda só está prometido) sendo que a credibilidade e prestígio dos oficiais substituídos só pode ter crescido e a sua autoridade moral, provavelmente, continuará intacta para efectuar as acções que forem necessárias (os burocratas de todos os países tendem a esquecer-se que as organizações não são apenas os organigramas que têm pendurados na parede). Em Portugal o governo começa a ficar preocupado com este estado de coisas porque, juntamente com várias entidades internacionais, investiu muito dos partidos e de algumas pessoas numa reforma radical do país seguindo o modelo grego. Ou seja, completamente à revelia do seu povo está a reconstruir o país à imagens dos seus ideólogos favoritos mudando radicalmente a natureza do estado, dos cargos públicos, das obrigações sociais, do nível de vida médio, do poder económico, das próprias relações sociais e acima de tudo da distribuição de poder entre classes e grupos. Isto é um verdadeiro golpe palaciano disfarçado de tecnocracia e obrigações internacionais.

Parecem existir dúvidas...

E é normal que comecem a estar preocupados. O prometido milagre dos conselheiros económicos que vieram de fora (pertençam ou não ao governo) não só não ocorreu como não houve qualquer recuperação de credibilidade económica internacional como, pior que tudo o resto, a situação social está a degenerar-se tão depressa que pode ameaçar o ritmo louco das reformas previstas. Um país na bancarrota não está em disposição de ouvir falar em sacrifícios da parte de quem não os partilha. Como avisei há já algum tempo Portugal chegará ao próximo Verão/Outono como um país bloqueado e parado perante o mesmo dilema que tem afligido a Grécia e que parece agora ir dar os primeiros passos numa solução credível.


A aprendizagem

Sabendo nós que um país, a Grécia, em tudo parecido com o nosso, está à beira de uma guerra civil ou pelo menos caos social de grandes dimensões – sendo os grandes responsáveis a classe política grega que se recusa terminantemente a servir o seu povo, pôr os instrumentos democráticos de que dispõe em acção e, em suma, renegar uma dívida que foi em muito acrescida pela mera especulação exterior e não pela acumulação interna – todos em Portugal parecem tirar algumas lições sobre o que se passou e ainda pode passar. Para o governo em funções (eu dei-lhes 18 meses de vida quando tomaram posse mas a este ritmo, e dependendo da evolução internacional, posso muito bem ter que rever esse número em baixa) a lição é clara e unívoca: domínio social dos seus patrocinadores económicos ganha prioridade a todo o custo (já que podem não ter tempo de implementar ou inutilizar tudo o que desejam) nem que destruam irremediavelmente o partido a que pertencem como alternativa democrática credível para todo o sempre.

A fome de poder e riqueza corre o risco de deixar 90% das pessoas pelo caminho...

As medidas dividem-se em várias esferas mas não vacilam quanto ao seu propósito. Refazer o país e tudo o que o definiu até este momento de forma essencialmente secreta e antidemocrática (há muito que o seu mandato legítimo foi ultrapassado mas o ritmo reformador só acelera). Quando confrontado com as reservas de uma das pessoas que o colocou onde está (sim é verdade que apenas o parece falar neste momento para salvar o seu legado pessoal face à análise histórica futura, ninguém quer ser conhecido como o último chefe de estado de nenhum regime) o Primeiro-Ministro pura e simplesmente não comenta. Silêncio que mantém sobre a crescente presença angolana em todas as esferas da nossa vida (com fundos derivados de um governo cada vez mais contestado no seu próprio país) A crua realidade é que quem detém poder (ou conivência) suficiente não precisa de prestar contas ao povo. O modelo económico vacila mas ignora-se majestosamente as consequências do que só pode vir a ser um colapso total do consumo (provavelmente acabando em deflação daqui a uns tempos) porque isso afinal de contas até pode ser útil para domar as pessoas e desde que não afecte algumas empresas chave não é relevante – e quem discordar é sumariamente ignorado.

Para uns sim para outro não... e nada mais perverso que vender isto como a ordem natural das coisas.

Não sendo um governo de esquerda é estranho que faça lembrar medidas mais soviéticas que aquelas os próprios comunistas portugueses alguma vez puseram em cima da mesa para a população em geral. Propõe-se o trabalho gratuito do funcionário público para algumas instituições (escolhidas sabe deus por que critério… ), sendo que só num plano imaginário poderá o dito funcionário sentir-se em liberdade de dizer não a esta “proposta”. Quer concorde ou não com a orientação ideológica de algumas organizações será então forçado a “doar” o seu trabalho a elas. Ou seja haverá grupos ideológicos (concordantes com o governo e seus apoiantes socialmente relevantes) que passam a beneficiar de uma força de trabalho gratuita e qualificada. E para terminar, numa nota ainda mais preocupante, tal como na Grécia começamos a ter casos de movimentações neo-nazis que parecem ser mais ou menos toleradas pelas forças de segurança que sendo que é verdade que impediram o confronto também não detiveram, ou sequer identificaram, todos os responsáveis. Estes grupos extremistas estão no céu com esta situação social e começam a apalpar o terreno para ver quanta violência será tolerada por parte de grupos paramilitares ilegais – haverá “caçadas”, lideradas pela extrema-direita armada até aos dentes, pelas ruas de Lisboa e Porto a manifestantes como noutros países?


O modelo insustentável

Ao longo do pouco tempo que este governo tem estado em funções (depois do que deve ter sido uma tomada de posse em tempo record e um número imbatível de decretos por dia) já se começa a ter uma ideia de qual é a Grande Estratégia que têm para o país. Devemos trabalhar para nos transformarmos nas Filipinas da Europa. Salários baixos permanentemente, educação mediana (com tendência a baixar drasticamente em poucas gerações), corrupção galopante (nenhum governo que se diga determinado a combater a corrupção pode permitir que aberrações fiscais como a Zona Franca da Madeira continuem a funcionar) e uma economia essencialmente virada para nichos de mercado de exportação e pouco preocupada (ou melhor, perfeitamente indiferente) em satisfazer as necessidades nacionais. É verdade que ainda não estamos bem ao nível que nos parecem querer colocar, faltam uns quantos toques de brutalidade policial, violações à privacidade, destruição do conceito de cidadania, criação de um clima de apatia e medo mas a verdade é que parecemos determinados em dar largos passos para preencher essas graves lacunas no nosso novo perfil internacional.

Bem-vindo ao paraíso, se tiver uns milhões a mais.

Este modelo, de um ponto de vista meramente económico, era irrealista desde o dia em que foi concebido visto que as exportações nunca poderiam crescer ao nível desejado tendo o euro como moeda e muito menos sem se reduzir o trabalhador médio ao nível salarial de um servo da gleba do século XI – e por muito que se faça para baixar o nível de vida médio e o salário a verdade é que nunca seriamos competitivos com os mercados asiáticos. Mas, para quem o desenhou, tinha outras vantagens que penso que terão contribuído a ter sido adoptado. Em primeiro lugar joga com todos os complexos de superioridade das nossas elites. Promete reduzir de forma brutal o que eles consideram ser o poder abusivo do servo, perdão assalariado, em reclamar direitos legais e coloca-o a todos os níveis na dependência do seu patrono (talvez “senhor” ou “amo” sejam mais adequados à nova realidade). Em segundo lugar mantém todo o país como aquilo que sempre desejaram que fosse, uma coutada privada de algumas famílias que tudo podem e que são absolutamente intocáveis (a todos os níveis). E finalmente drena as massas de energia que poderiam usar para combater a sua situação sem ter que recorrer ao modelo clássico de integração dos melhores. É um circulo perfeito e inquebrável, pelo menos em teoria.

Parece que das duas uma... ou se esqueceu que os próximos em tribunal poderiam ser eles próprios ou não têm intenções de largar o poder. Nunca. Será que também teremos responsabilidade criminal por outras coisas? E que tal um julgamento por juri sorteado da população geral? Não? Porquê?

Supostamente era isto que nos iria impedir de acabar como a Grécia (como se a Grécia, entre outros, em termos populares não estivesse anos-luz à nossa em frente em reivindicação). Não era acabar com o chocante facto de a esmagadora maioria das empresas de grade dimensão praticarem elisão fiscal numa escala que é, pelos vistos, só moralmente criminosa já que os lacaios políticos criaram as aberturas certas em termos de fuga financeira legal (empresários esses que não têm qualquer pudor em vir a público dar lições de moral sobre ética e o funcionamento do estado ou o que as classes desfavorecidas merecem) que nos podia levar a uma situação melhor. Não caro leitor. Era o modelo de desenvolvimento de emulação de um país disfuncional de terceiro ou quarto mundo. Volto a dizer que estas reformas políticas têm muito de agenda de domínio social para certos grupos e que até o que se está a querer vender como medidas de responsabilização e moralização da vida política nas mãos de algumas pessoas podem acabar em simples vendettas pessoais e políticas com vista a perpetuar o poder partidário e acima de tudo a preponderância pessoal dos controladores destas redes de influência.


A Nova Pirâmide Social

Não que algum partido que tenha estado no governo tenha tido realmente boas intenções para com a área da educação mas esta coligação está realmente está a distinguir-se por levar as iniciativas de todos os outros à sua conclusão lógica: a transformação total do Ensino Público numa espécie de gueto onde se despejam ao abandono os filhos de quem não é “relevante” (caso esteja em dúvida se não está no percentil dos 10%, ou mesmo 5%, mais ricos do país então não é relevante para este sistema – e os seus filhos terão que se resignar a serem baixas numa guerra cultural não declarada). Os cortes que estão nesta altura previstos para o sector são o triplo (sim leu bem, o triplo!!) daquilo que até foi acordado quando recebemos o empréstimo à banca, do FMI e UE, que todos temos que pagar sabe-se lá como. Isto não tem qualquer justificação racional. Nem pode ter tendo em conta que este ministro da área passou a vida a criticar o anterior governo por “falsificar resultados” (com facilitismos). Se, supostamente, tinha problemas que, antes das eleições eram catastróficos, eles serão resolvidos com esta solução que o que faz é despedir 30000 professores e cortar o triplo da verba requerida? Além destas medidas que ultrapassam largamente o meramente draconiano, são genuinamente punitivas do sector da Educação Pública, ainda ficamos na dúvida sobre a validade do concurso que colocou os professores que sobraram, havendo suspeita de irregularidades (não que acredito por um segundo que qualquer investigação revele seja o que for mas de qualquer fica o alerta dos sindicatos).

O problema é que as pessoas já não fazem isto às nossas elites e eles, naturalmente, sentem-se ultrajados. Como se atrevem os campónios a não fazer o beija-mão? Já não bastava perder o título nobiliárquico e agora isto…

Para onde podemos caminhar com um cenário destes? Bem não será muito complicado adivinhar que o objectivo parece ser duplo. Por um lado a destruição da Educação Pública seguida de um mega processo de privatização das áreas do ensino mais apetecíveis deixando as zonas “problemáticas” nas mãos do que sobrar do Ministério da Educação (ou melhor ainda, se se quiser mesmo espalhar o caos total, colocar as escolas sob a tutela camarária). Após isto entramos num período de grande segmentação social dos alunos (se esse processo já hoje é visível imaginem depois disto tudo) em vários tipos diferentes de estabelecimentos e claro com o famoso cheque ensino o financiamento aberto de organizações religiosas elitistas que continuam a poder rejeitar qualquer aluno com base em qualquer critério imaginável. Avançando tudo estaremos perante um processo de segmentação populacional e engenharia social como já não se via desde os dias de ouro do Império Britânico. É o fim total da mobilidade social por via legal e ética.

Um novo slogan para as nossas elites? Podem acrescentar debaixo do brasão de família.

Dado que sempre considerei que acima de tudo os objectivos das elites portuguesas eram sociais e culturais, antes de serem económicos (basta ver o ineficaz sistema de cunhas que vigora com uma pujança nunca antes vista no sector privado – o objectivo não é capitalizar os ganhos ou maximizar o lucro, o objectivo é promover uma estrutura de poder com as “pessoas certas”), não é de estranhar que se use a crise para tapar o que, eu penso que, será um dos principais legados deste governo e o sistema político que está a compactuar com isto (o silêncio de alguns sectores é ensurdecedor). Com a ameaça de não querermos ser Gregos estão a ir conseguindo impor as coisas, pouco a pouco, mesmo quando no epicentro político e financeiro do mundo se começa repensar este tipo de políticas e a credibilidade deste tipo de elites.


O Mini Panóptico

À medida que o mal-estar avança na sociedade portuguesa e os sinais começam a não ser disfarçáveis (mesmo com o controlo da esmagadora maioria dos canais de informação) isto tem como consequência directa que as forças que tomaram o Estado como ferramenta de poder pessoal começam a ficar de alerta – afinal de contas parece que ficaram assustados quando uma só central sindical (supostamente a morrer como todos os sindicatos, ou assim os seus homens de mão têm prometido há mais de 20 anos… que lentamente iriam apagar a representação colectiva do mapa laboral português) consegue movimentar 180 mil pessoas só em Lisboa e Porto sem haver nenhuma medida em concreto como alvo. Vamos ser claros: as necessidades deste grupo de poder, desta elite se quisermos (no sentido de efectivamente comandarem poder não do representarem excelência), não vão diminuir com o tempo. O modelo económico que escolheram baseado em rendas semifeudais e acordos mútuos de partilha de mercados vão continuar a ter quebras por muito que usem o chicote nos seus funcionários ou por muito que forcem os seus servos políticos a criar legislação favorável a si. A razão é simples nenhuma nação pode ser moderna e civilizada sem uma grande classe média. Nenhuma economia deste tipo pode prosperar sem o poder de compra dessa mesma classe média cujo consumo não pode ser substituído em volume ou variedade pelo consumo de uma classe privilegiada minoritária, por muito abastada que seja. E ao condenar a classe média com a defesa sem excepções do interesse privado e mesquinho, estes grupos, selaram o seu próprio destino do qual ninguém, nem o Estado que tanto se esforçaram para tornar uma criatura sua, os pode salvar. A decadência seguida da inexistência.

Meus caros o fato pode ser Gucci mas a corda aperta e enforca à mesma...

Ou assim o temem. Pelo menos os mais previdentes das elites – e há alguns. Se os mecanismos normais não funcionam está na altura de entrarem os extraordinários. O que se chamaria noutros tempos a santíssima trindade: vigilância, censura e repressão. Já está no ar a ordem de começar a apertar a vigilância e a preparar as outras duas, só não sabemos que forma irão escolher para estas medidas. Provavelmente, sendo isto Portugal, vai-se começar com jogos linguísticos. O que engloba a liberdade de expressão (os que são imunes à crítica), quem engloba (licenciar ou pelo menos registar qualquer pessoa que emita uma opinião pública), criar nomes aos novos críticos; descamisados, incapazes, preguiçosos e sem talento para o cidadão médio que se recusar a venerar ao altar do regime;  hooligans, vândalos e escumalha se forem manifestantes no campo; traidores e demagogos se usarem o campo intelectual e criminosos e terroristas para os que puserem mesmo em risco a estabilidade e integridade física do sistema. Depois de findo este processo de recriação de todo um conjunto de pessoas podemos ter uma verdadeira caça ao dissidente usando todos os meios que a tecnologia moderna proporciona e o estado português usa.

Em teoria temos tudo garantido na realidade depende do uso que quiser fazer da maquinaria do poder...

Mesmo havendo sinais do exterior em como se deveria ir contra as políticas que estão a ser tomadas em vários campos a elite nacional está demasiado comprometida… Até de um ponto de vista quase que emocional são incapazes de mudar os seus ódios seculares, os seus sentimentos indevidos de superioridade face ao cidadão normal (noutros países situações similares levaram a extremos…), a sua forma de gerir os negócios ou mesmo a sua forma de domínio social. Preferem trazer todo o edifício abaixo a abrir mão de um só grão de areia que seja. Promete verdadeiramente ser um conflito sem remorso, piedade ou qualquer possibilidade de negociação.


A servidão subsidiada

Quando pensamos que as coisas não podem piorar ou que não podem sair mais ideias absurdas de um governo eles tendem a surpreender-nos, pela negativa, e insistem em lançar mais pacotes todas as semanas que fariam os anjos chorar. Com um desemprego real que deve rondar os cerca de 1 milhão de trabalhadores (as estatísticas mais simpáticas que circulam tendem a excluir um certo número de categorias de pessoas que ainda são, de facto e para todos os efeitos, trabalhadores sem ocupação) vai ser lançado um novo programa piloto que visa pagar às empresas para empregar quem não tem ocupação há mais de 6 meses. Sim leram bem. As empresas vão passar a ser pagas a 420 euros mensais por cada desempregado de longo-prazo que “acolherem” (o mesmo que o dito desempregado recebe de subsídio). Não há qualquer referência ao nível de qualificação do desempregado o que provavelmente quer dizer que são pagos todos pelo mesmo valor, ou seja, é possível desde o momento em que este programa for lançado que uma empresa seja paga para obter um técnico qualificado que precisa de qualquer forma. O dito técnico no entanto é forçado a aceitar uma remuneração abaixo do salário mínimo (porque afinal de contas é contabilizado como uma compensação social e não um salário – como é bonito brincar com as palavras).

As saudades que a pobreza abjecta do antigamente gera no sector conservador…

Mesmo sendo anunciado como uma espécie de programa de estágios de longa duração qualquer pessoa que tenha tido o mais leve contacto, directo ou indirecto, com essa instituição (o estágio profissional) sabe que isso em Portugal equivale a um carrossel que não garante nem emprego nem futuro a ninguém (e agora pelos vistos nem salário, só uma mísera prestação social). No dia que sai um estagiário entra outro para a mesma vaga sendo o lugar nunca preenchido e nunca entrando ninguém para os quadros da empresa – agora claro passa a existir a vantagem de não se tratar de jovens de 21 anos mas sim de, potencialmente, técnicos que já têm anos de formação, experiência e hábitos de trabalho. A ser realmente implementado nesta fase piloto (a 35000 desempregados de longo termo, ou seja, cerca de 3,5% da população de desempregados reais) e a não existir contestação suficiente corremos o sério risco de isto se tornar a forma de contratação preferencial em Portugal nas próximas décadas (alguém acredita que o empresário português não vai abusar e esticar este regime até ao limite?).

Como todos sabemos as ajudas estatais a certos sectores servem apenas o bem comum! E quem diz o contrário não sabe os sacrifícios exigidos aos nossos magnatas especulativos…

Claro que nos próximos dias e semanas estão previstas dezenas (nas palavras do ministro da economia) de novas medidas nesta área e se fossemos algo cautelosos poderíamos dizer que quase que parece que se quer diluir o efeito mediático que uma bomba destas poderia ter na sociedade. Mas para o caso de isto não passar o crivo da opinião pública já foram lançadas para o ar novas ameaças quanto à gravidade crescente da crise e como consequência lógica, não explícita, a necessidade do trabalhador se sujeitar ainda mais, o que pode incluir adicar do conceito de salário, aceitar a prestação social como substituto e ainda subsidiar (provavelmente através de impostos indiscriminados ao consumo) as empresas que lucram como este novo sistema. É curioso que em medidas que era suposto ajudarem o cidadão comum (esta nem na teoria ajuda mas está a ser vendida como tal) este governo propõe-se gastar a fabulosa soma de 100 milhões de euros mas no entanto está mais que disposto a enterrar a título perdido 12 mil milhões num sistema bancário que cavou a sua própria sepultura. Até nestas coisas se vê o que é realmente importante.

 

Adivinhem quem está de volta?

Ps: Entretanto os factos estranhos ou quase que intimidatórios não se limitam a esta medida laboral, temos mesmo uma semana em grande. Temos o sector televisivo estatal a misteriosamente abster-se de licitar conteúdos de audiências garantidas, aparecem, mais uma vez em alturas chave, estudos que visam reforçar a normalidade da ideia de privatização de certas áreas vitais e é dado mais um passo de agressividade conservadora religiosa que silenciosamente cria as bases sociais para poder voltar em toda a sua força – mais um passo na reconstrução da sua legitimidade pública.


Quem manda aqui

O governo alemão fez hoje uma séria ameaça a um outro Estado-Membro da União Europeia (deve ser a primeira vez desde a segunda guerra mundial que a Alemanha ameaça sanções, mesmo que sejam de natureza económica, de forma directa e unilateral contra outro país europeu). A Grécia vai ser deixada à deriva a não ser que se assine uma rendição incondicional aos seus credores internacionais (nomeadamente a Alemanha) independentemente das suas razões para a não implementação de certas medidas (como por exemplo sistematicamente o FMI propor cópias de sistemas anglo-saxónicos e nórdicos em países que não têm nem a mesma cultura, história ou funcionamento – há razões para os sistemas terem evoluído de forma diferente e também há razões para alguns executivos europeus e sectores empresariais associados estarem tão desejosos de seguir a receita). Essencialmente Wolfgang Schaeuble (ministro das finanças alemão) entregou aos gregos a sua versão do mapa cor-de-rosa deixando no ar a ameaça da falência do país, o caos social (como se eles não estivessem já a viver nessas condições e esse tipo de ameaça tivesse peso) e possível instabilidade geopolítica na região (para quem está mais desatento: militarmente a Grécia é uma potência regional algo relevante) que teria que ser colmatada por outra potência, benemérita claro, que por acaso tivesse interesse em expandir a sua influência na região (conseguem lembrar-se de alguém?). Nem é preciso dizer que isto serve de aviso a todos os outros países que estão ou possam vir a estar no mesmo barco, ou se faz à Alemã ou não se faz de todo e deixa-se as nações “aliadas” cair como dominós.

Alguém é servido? Uma dose de realidade para alguém?

Claro que há razões para a Alemanha estar a tomar estas atitudes leoninas. Em primeiro lugar conseguiram “raptar” (aliciar talvez seja um termo mais correcto) a França para o seu lado oferecendo-se para tapar as graves falhas económicas do país em troca do seu apoio político incondicional (indispensável nesta fase). Em segundo lugar sabem que a posição que ocupam nos mercados mundiais só pode decair com o tempo (os mercados emergentes têm consistentemente substituído a produção industrial alemã em quase tudo, começaram pela indústria pesada e agora já estão nos componentes de plástico – há mesmo produtos que são totalmente tecnologia alemã mas que não são de facto produzidos na Alemanha, ou sequer na Europa) o que quer dizer que o seu poder negocial está provavelmente num ponto máximo ou próximo disso. A altura ideal de estabelecer um novo equilíbrio continental, que os beneficia naturalmente. Em terceiro, e último, lugar as novas gerações alemãs têm uma mentalidade curiosa que por um lado já não está refém do complexo de culpa do período nazi e que por outro lado compreendeu muito bem que a dinâmica das nações continua a ser uma de conflito descarado, aberto quando a disparidade de poder é significativa (assegurando simultaneamente uma vitória rápida e um espólio compensador) ou discreto e económico quando o primeiro tipo de abordagem levaria a resultados incertos ou com custos demasiado elevados. Nesse aspecto são quase único na Europa já que muitos, especialmente os países periféricos, levam mesmo a ideia de algum grau de irmandade europeia a sério.

Para quem ainda não percebeu: nós não somos o futuro.

O que é talvez mais estranho é que estas declarações venham no seguimento da admissão, da própria chanceler, que se o Euro falhar a Europa, como projecto, está condenada. O que significaria mais uma vez o regresso a um manto de retalhos políticos mais ou menos frágeis contra outras potências (próximas ou distantes, antigas ou emergentes) e quase impossíveis de controlar ou coordenar. Dado este facto a arrogância de Schaeuble parece um pouco deslocada já que parece que quem tem as cartas na mão são os gregos, que podem fazer este castelo de cartas cair de um só sopro. É um bluff bem atempado (mesmo na altura da Grécia receber outro pagamento) mas parece não ter mesmo qualquer substância já que em termos de perdas geoestratégicas seriam os alemães a pagar a factura mais elevada a longo prazo e a ver as suas esperanças de relevância global esmagadas ou pelo menos seriamente danificadas e adiadas.


Enquanto os segredos continuam secretos

Parece existir um certo esforço concertado no sentido de forçar a nossa atenção nos escândalos ligados às secretas que parece exceder o normal ou recomendável. Não faço ideia do que se passou ou não passou mas isso passa ao lado da questão central. Qualquer investigação real a este tema será secreta (surpresa!) e como tal o cidadão que anda tão consumido em descobrir meia dúzia de teias de corrupção e tráfico de influência vai ficar na mesma, às escuras. O curioso é que ainda não parecem ter percebido que mesmo que o inquérito fosse sério, e competente, e houvesse coragem de publicar resultados, e prosseguir para julgamento e consequências políticas estes dois tipos de crime são: 1) tolerados moralmente pela maioria da população, basta ver o comportamento eleitoral na política local e 2) Impossíveis (ou quase) de fazer prova em processo judicial. Ou seja o resultado final de tudo isto só pode ser um silêncio ensurdecedor quanto aos factos em questão seguido de um vazio de consequências. Assim sendo não era melhor ir olhando para outras coisas que não estão a ocupar o “prime time”?

O cidadão bem informado a ler informação devidamente uniformizada.

Como o facto de a banca estar a fazer exigências superiores a 400 milhões de euros ao Estado para que este pague a dívida de uma concessionária de auto-estradas (aqui não há preocupação com a despesa? Pagamos como contribuintes quando entidades privadas nos mandam? Pelas razões que lhes apetecem? Não se investigam como esta “dívida” foi adquirida?). Como o facto de a sua prestação de casa ter subido 15 euros em média em Julho (e continuar a sua escalada ascendente). Como o facto de os serviços públicos essenciais para a sobrevivência humana continuarem a ser vendidos a um ritmo tão alucinante que nos impede de acompanhar o que se passa com cada processo. Como o facto de dentro da União Europeia continuarmos a sofrer pressões enormes para destruir o que resta das nossas protecções laborais (eu sinceramente não sei o que ainda existirá para “liberalizar”… acabar com o salário mínimo? Acabar com o horário máximo semanal? Mais cortes salariais arbitrários? Acabar com o contrato de trabalho de todo e ser pago ao dia ou à hora? Ceder o nosso voto à entidade que nos emprega??). Como o facto dos preços dos combustíveis continuam completamente desregulados e continuarem a subir sem a opinião pública ter noção se existirá qualquer relação entre o preço e o custo real?

Quanto mais se fala de algo mais urgente é dar a impressão que esse algo é real. Conhece palavra mais usada que "liberdade"?

Afinal há muito mais a acontecer a que não é dado nem metade do destaque do processo das secretas. Coisas que o afectam a si de forma clara, imediata e permanente. Basta prestar um pouco de atenção e deixar as histórias “reluzentes” dos espiões das quais você, caro leitor, nunca irá saber nada de relevante. Olhe para a sua vida e não deixe que o distraiam ou choquem ao ponto da apatia. A sua voz devia estar a ser ouvida e tida em conta na maioria (senão todos) destes temas e no entanto foi remetido para um papel marginal de ser sem cidadania plena cujo único dever é pagar e cuja única demonstração de patriotismo aceitável é bater palmas a este sistema.


O imposto que não deverá ver a luz do dia

Com um título destes quase que daria vontade de celebrar! Pela primeira vez, em memória viva, um imposto seria pensado mas não aplicado. Mas como o leitor cauteloso já adivinha trata-se apenas de uma pequena ironia da minha parte. Falo claro do “imposto sobre os ricos” que supostamente estaria a ser considerado por este governo depois de muito pressionado quer por outros sectores quer pelos próprios eventos internacionais. As elites portuguesas viram-se apanhadas numa onda de responsabilidade social e não sabem como sair da situação de forma mais ou menos airosa sem criar, ainda mais, conflito social e ressentimento. O que este debate provavelmente irá começar propor é um aumento do IRS para o último escalão mas claro que isso seria enganador porque esses não são os ricos, como aliás explica muito claramente Carvalho da Silva neste pequeno comentário; no caso dos verdadeiramente ricos os seus rendimentos são inconstantes, móveis, só taxados ocasionalmente e nunca com impostos sobre o trabalho. Mas o que está verdadeiramente em discussão não é uma questão de fiscalidade ou legalidade mas sim de solidariedade nacional e civismo. Se não sair nada, que realmente nivele o fardo económico e social da crise, desta iniciativa o povo português sentir-se-á, ainda mais, abandonado e traído pelas suas elites económicas e perceberá de uma vez por todas que os interesses desta mesma elite divergem, enquanto classe social, dos do resto do país.

Estamos todos no mesmo barco, mas uns parece que têm colete salva vidas

Não sei se Marc Ferro tem razão quando afirma que o ressentimento é o motor da história mas corremos o sério risco de o vir a descobrir se não houver uma grande sensibilidade a gerir este tema e capacidade de cedência por parte de quem tem ainda margem de manobra económica pois como o historiador afirma o ressentimento é um fenómeno circular que se alimenta a si próprio numa espiral de violência: “O ressentimento não é apanágio daqueles que no início identificámos como vítimas: escravos, classes oprimidas, povos vencidos, etc. A investigação descobre que, simultânea ou alternadamente, o ressentimento pode afectar, inibir não apenas uma das partes em causa, mas as duas. O caso da reacção que se segue a uma revolução é óbvio, mas os percursos deste tipo são múltiplos e variados”(1). Ou seja é algo no qual se pode controlar o inicio mas nunca o fim. Uma verdadeira roleta russa civilizacional. Duvido muito que os milionários portugueses tenham o alcance (ou a preocupação) para ver as coisas nestes termos mas para quem quer continuar a ter um país, mais ou menos, funcional convém ter uma perspectiva mais alargada.

Claramente sofrem de má publicidade e de falta de meios de resposta...

Percebo até certo ponto a complacência deste grupo social privilegiado. Há já muito tempo que ninguém os desafia verdadeiramente da sua posição de dominância e dada a cultura nacional de abuso sobre os que ocupam uma posição hierárquica ou socialmente inferior muitos não conseguem sequer conceber mentalmente a possibilidade de um dia terem uma resposta que não seja canalizada através dos novos meios de protesto inútil. Mas em todos os grupos chega sempre uma altura em que fica claro se os membros permanecerão todos juntos e lutam lado a lado ou se haverá traições e quintas colunas. Tenho receio de já conhecer o destino do caso português, a nossa história e tradições parecem conspirar contra nós.

(1)    Ferro, Marc; O Ressentimento na História; Editorial Teorema, 2009; página 192


A demolição prossegue a bom ritmo

Se há algo que não me canso de repetir neste blogue é que o governo tem pressa. Tem pressa em legislar. Tem pressa em começar a aplicar. E acima de tudo tem pressa para fechar portas. Há que correr antes que alguém comece a fazer muitas perguntas ou muitas contas que não possam ser afastadas com a ajuda de um “jornalista/entrevistador” simpático como simples trica partidária, má fé, ou ideologia (como se esta última não fosse sequer uma crítica legítima! É quase a proibição formal de falar de modelos de funcionamento de sociedade). Há pressa porque quando esse dia chegar acabou. As portas fecham-se. As pessoas simplesmente bloqueiam todo o funcionamento do Estado e Empresas satélite podendo chegar ao extremo de exigir a reposição de pelo menos parte daquilo que lhes foi retirado sem consentimento. Portanto, como qualquer um pode ver, é do interesse do Estado apressar a transferência de riqueza o máximo possível antes que tal suceda e trave muitas ambições. Agora chegou a vez dos equipamentos sociais (não se enervem desmesuradamente porque chegará a hora de outros sectores).

Não se preocupem... a receita é única e serve para todos.

A fome de oportunidades de rendimento fixo garantido de certas entidades comerciais chega ao ridículo de o Estado só deter neste momento menos de 5% do total destas instituições mas estar previsto o seu quase total desmantelamento. É verdade que é um sector que só pode crescer pois afinal todos queremos o melhor para os nossos filhos e pais mas o que não está a ser equacionado (incompreensivelmente) é o poder económico da classe média. Especialmente o facto de estar em queda livre. A procura pode existir teoricamente mas nunca poderá ser satisfeita pelos privados que ou exigem pagamento directo (que para a maioria é simplesmente impossível em termos de orçamento familiar) ou indirecto (através de subvenções do estado numa altura em que a carga fiscal se aproxima perigosamente daquilo que é possível sustentar como ser humano ainda livre – com a notável excepção das empresas e especialmente do sector especulativo que parecem fazer parte de outra economia, com outras regras e outras exigências que não a sobrevivência do país).

Há temas que é melhor ser mesmo assim... na sombra, no silêncio... sem nunca se perceber muito bem o como e o porquê...

As racionalizações são as banalidades do costume usadas para tapar mais uma transferência colossal de bens e rendimento (e poder social), mais uma suposta eficiência acrescida (em quê pode-se perguntar? – o curioso é que para outros sectores bem menos vitais do estado esse standard parece que se evaporou) que se traduz ou em menos direitos para os utentes ou para os funcionários ou ambos (e o efeito de bola de neve de tudo isto no resto da economia fica, como sempre, enterrado em montanhas de propaganda sobre a superioridade do mercado). Como se isto fosse positivo. Mais engraçado é ver uma das instituições que mais envolvida está no sector social (por razões próprias…) manter um silêncio espantoso sobre este tema gritante ou os detalhes que o rodeiam. O melhor mesmo é mostrar carinhas novas na TV deslumbradas com esplendor da corte em viagem e desejosos de fazer o beija-mão. Muito mais impressionante e evita questões embaraçosas. Já agora para quem estiver curioso o sector em questão vale 5% do PIB. Uma boa maquia não vos parece?


O papel da ideologia na política

Em termos que leigos entendam o papel da ideologia na vida política portuguesa (incluindo os comentadores oficiosos que se multiplicam como coelhos) é zero. Isso mesmo, ZERO. Nenhum. Nada. Nulo. Não existente. É por isso que a grande maioria dos portugueses que se tentam informar sobre política, ideologia, economia, estudos sociais e demais temas fundamentais para ter uma boa cultura geral continuam a não entender quase nada do que se passa ou então só percebem muito esporadicamente o que se passa. Como pode isto ser verdade pergunta o leitor? Deixe-me explicar.

A procura eterna do eleitor pela verdade...

Em certos círculos da classe média (deveria dizer talvez ex-classe média já que o cinto vai continuar a apertar e vários milhões vão deixar de pertencer a esse grupo nos próximos anos) está em desuso olhar para os interesses pessoais dos actores políticos (incluindo TODOS os que usam a esfera pública – políticos, empresários, jornalistas, etc). É de mau tom (mesmo déclassé) olhar para as contas bancárias ou os negócios alheios e não há comentador prestável que hesite em comparar tal atitude a um voyeurismo sexual. O problema é que obviamente saber que um conselheiro de um líder político tem interesse na privatização ou adjudicação não é o mesmo que perguntar com quem dorme. A primeira equivale a saber se os seus interesses estão do lado do Estado e o segundo a mera cusquice de velha de aldeia. Assim sendo as pessoas que seguem a actualidade parecem acreditar que as pessoas existem num vácuo, que são compostas apenas de ideias e não de interesses, contas bancárias, casas de férias e carros desportivos.

O jornalismo e comentário de qualidade.

Dado este grau de inocência é impossível que o cidadão médio, que se considera informado, entenda as mil e uma reviravoltas da vida pública portuguesa. As acções são tomadas em negociações privadas (quanto mais não seja porque fisicamente empresários, políticos e quadros de “elite” vivem próximos uns dos outros e convivem nos mesmos locais) e depois alguém tenta adaptar conceitos ideológicos ao que foi decidido – é por isso que para a mesma decisão podemos encontrar justificações ideológicas diferentes conforme o partido que a tomar. Não há coerência nenhuma porque não é esse o objectivo. Não há respeito pelos compromissos do passado porque esses só foram assumidos aparentemente para defender interesses meio ocultos. O interesse pessoal é a única lei da vida pública portuguesa.


O que me dava esperança e ânimo

O líder máximo da nação vem pedir-nos, nas suas palavras: “…este é o momento para recuperar forças e ânimo para um novo ano, que será de grande exigência mas que deverá também ser, como tanto desejamos, de coragem e de esperança”. E não discordando que este pode vir a ser um momento chave na história recente do nosso país tenho que dizer que vai ser preciso mais que boa vontade para criar essa esperança e ânimo. Uma base racional. Porque se essa base não existir o que se está a pedir é a permissividade total. No sentido de contribuir para a construção dessa base racional tomei a liberdade de sugerir 12 pontos que me parecem vitais para restaurar qualquer aparência de credibilidade junto do cidadão normal (ia a dizer classe média mas actualmente já não estou seguro que o cidadão normal seja de classe média… e os que ainda o são parecem ter os dias contados…).

"Blood alone moves the wheels of history"

1)      Ver 90% da classe política dos últimos 30 anos irradiada da vida pública. Por manifesta incompetência.

2)      Ver legislação sobre corrupção que tivesse hipóteses reais de ser mesmo aplicada e poder condenar alguém (ou seja que não fosse quase impossível fazer prova dos crimes de corrupção e tráfico de influências).

3)      Ter um sistema de protecção laboral que aplica mesmo as medidas de protecção do trabalhador em vez de ser completamente remisso (para quem duvida da relevância disto: façam um inquérito junto aos trabalhadores temporários para descobrir a última vez que uma inspecção passou a pente fino as empresas onde estão colocados ou que detêm o seu contrato).

4)      Ver um sistema de capitalismo livre em que as oportunidades de negócio dependem mesmo de ser empreendedor e não dos contactos junto das pessoas certas.

5)      Ver implementada imediatamente uma lei que proibisse qualquer empresa de deter mais de um meio de comunicação.

6)      Ver implementado um programa maciço de educação cívica para cada português finalmente ter uma ideia do sistema que criaram para o prender. Seguido de preferência de um referendo a 2/3 anos.

7)      Ver as entidades para a concorrência ganharem vida.

8)      Ver as entidades para a regulamentação e verificação da actividade económica ganharem vida.

9)      Ver o sector especulativo da economia pagar os mesmos sacrifícios que são exigidos a todos os outros. Seria o primeiro a defendê-los se mostrassem uma gota de responsabilidade social.

10)   Restringir ao máximo financiamentos empresariais aos partidos.

11)   Impedir durante pelo menos 7 anos qualquer eleito de ocupar cargo no sector privado depois da sua saída da vida pública. Com a mesma legislação a aplicar-se a funcionários públicos detentores de informação chave para o interesse nacional.

12)   Registo público das relações familiares de todo e qualquer membro do governo e/ou consultor tal como uma relação completa de bens familiares.