Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

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O Mini Panóptico

À medida que o mal-estar avança na sociedade portuguesa e os sinais começam a não ser disfarçáveis (mesmo com o controlo da esmagadora maioria dos canais de informação) isto tem como consequência directa que as forças que tomaram o Estado como ferramenta de poder pessoal começam a ficar de alerta – afinal de contas parece que ficaram assustados quando uma só central sindical (supostamente a morrer como todos os sindicatos, ou assim os seus homens de mão têm prometido há mais de 20 anos… que lentamente iriam apagar a representação colectiva do mapa laboral português) consegue movimentar 180 mil pessoas só em Lisboa e Porto sem haver nenhuma medida em concreto como alvo. Vamos ser claros: as necessidades deste grupo de poder, desta elite se quisermos (no sentido de efectivamente comandarem poder não do representarem excelência), não vão diminuir com o tempo. O modelo económico que escolheram baseado em rendas semifeudais e acordos mútuos de partilha de mercados vão continuar a ter quebras por muito que usem o chicote nos seus funcionários ou por muito que forcem os seus servos políticos a criar legislação favorável a si. A razão é simples nenhuma nação pode ser moderna e civilizada sem uma grande classe média. Nenhuma economia deste tipo pode prosperar sem o poder de compra dessa mesma classe média cujo consumo não pode ser substituído em volume ou variedade pelo consumo de uma classe privilegiada minoritária, por muito abastada que seja. E ao condenar a classe média com a defesa sem excepções do interesse privado e mesquinho, estes grupos, selaram o seu próprio destino do qual ninguém, nem o Estado que tanto se esforçaram para tornar uma criatura sua, os pode salvar. A decadência seguida da inexistência.

Meus caros o fato pode ser Gucci mas a corda aperta e enforca à mesma...

Ou assim o temem. Pelo menos os mais previdentes das elites – e há alguns. Se os mecanismos normais não funcionam está na altura de entrarem os extraordinários. O que se chamaria noutros tempos a santíssima trindade: vigilância, censura e repressão. Já está no ar a ordem de começar a apertar a vigilância e a preparar as outras duas, só não sabemos que forma irão escolher para estas medidas. Provavelmente, sendo isto Portugal, vai-se começar com jogos linguísticos. O que engloba a liberdade de expressão (os que são imunes à crítica), quem engloba (licenciar ou pelo menos registar qualquer pessoa que emita uma opinião pública), criar nomes aos novos críticos; descamisados, incapazes, preguiçosos e sem talento para o cidadão médio que se recusar a venerar ao altar do regime;  hooligans, vândalos e escumalha se forem manifestantes no campo; traidores e demagogos se usarem o campo intelectual e criminosos e terroristas para os que puserem mesmo em risco a estabilidade e integridade física do sistema. Depois de findo este processo de recriação de todo um conjunto de pessoas podemos ter uma verdadeira caça ao dissidente usando todos os meios que a tecnologia moderna proporciona e o estado português usa.

Em teoria temos tudo garantido na realidade depende do uso que quiser fazer da maquinaria do poder...

Mesmo havendo sinais do exterior em como se deveria ir contra as políticas que estão a ser tomadas em vários campos a elite nacional está demasiado comprometida… Até de um ponto de vista quase que emocional são incapazes de mudar os seus ódios seculares, os seus sentimentos indevidos de superioridade face ao cidadão normal (noutros países situações similares levaram a extremos…), a sua forma de gerir os negócios ou mesmo a sua forma de domínio social. Preferem trazer todo o edifício abaixo a abrir mão de um só grão de areia que seja. Promete verdadeiramente ser um conflito sem remorso, piedade ou qualquer possibilidade de negociação.

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Golias e o défice de atenção

Esta administração americana é uma criatura curiosa. Nascida de uma promessa de mudança que era perfeitamente incapaz de cumprir (quanto mais não seja pela forma que o processo eleitoral americano toma) e que de facto nunca tentou, de forma séria, implementar. Apelou a todos os grupos que tinham queixas legítimas contra os republicanos (e a lista é imensa…) e na altura de decidir o que seria mesmo feito chamou os mesmos senhores do costume, de WallStreet, à Casa Branca para cozinharem uma solução que salvasse a “economia”. Nesta altura temos que definir o que é a economia; não deveria ser necessário definir o que se entende por este simples termo mas nos tempos que correm em que os discípulos de Friedman controlam instituições estatais, económicas e mesmo de ensino (incluindo em Portugal onde monetarismo passa por ser quase teoria económica universal) não temos outra escolha. É bastante simples, a economia inclui todas as actividades de bens ou serviços que não sejam de mera natureza financeira (cujo único papel saudável é como auxiliar de outras actividades), ou seja que pertençam à economia real, que acrescentem valor e que acima de tudo não sejam meros jogos especulativos (perdão modelos econométricos altamente fiáveis…). A solução está mais ou menos à vista e tem tudo a ver com Portugal. Foi decidido que os reguladores falharam (ou seja o Estado foi denegrido sem se entenda que muitos reguladores da economia americana não são estatais, mas representativos da indústria em causa) e que o povo americano se tinha endividado irresponsavelmente e teria que pagar o preço por isso (já ouviu isto noutro lado qualquer não é verdade? Parece que deve ter seguido um mesmo memorando para vários países).

O grande ícone da miséria global

Não tendo resolvido os seus problemas internos (nem pode resolver sem mudar estrategicamente o grupo de pessoas que quer privilegiar, ou seja, sem voltar a apoiar a classe média em detrimento dos 10% mais ricos da nação coisa que não está para breve a julgar pelos sinais) virou-se agressivamente para o exterior (e digo agressivamente porque qualquer potência anterior teria tentado fixar fronteiras e fortificar o interior antes de mais expedições diplomáticas, comerciais ou militares) e quis resolver o conflito na Palestina acabando apenas por irritar os dois lados ao ponto de ninguém o querer como mediador. Os israelitas ficaram furiosos de ele querer considerar as suas fronteiras de 1967 (à altura da Guerra dos Seis Dias) como referência e os palestinianos desconfiados não só da independência do negociador como da sua falta de vontade para forçar Israel às tais fronteiras com as quais se tinha publicamente comprometido. Também não conseguiu dar resolução a este impasse e é pouco provável que o venha a fazer mas claro que isso não impediu a administração de iniciar mais uma iniciativa internacional de grande envergadura. Agora envolveu-se, directa e indirectamente, numa série de processos de “democratização” do Médio-Oriente e Norte de África sem ter anunciado muito bem em que se justificava (recuso-me sequer a discutir a questão dos direitos humanos num país que não cumpre a própria promessa de fechar centros de tortura). Há várias formas de interpretar isto mas existem duas que parecem mais interessantes.

A fantástica teoria das redes sociais como motores ou meios de revoluções é das noções mais divertidas e ridículas que tenho encontrado nos últimos tempos. É bom para o ego de quem tem o rabo no sofá, carrega num botão e depois quer dizer que fez uma revolução 🙂

Cenário 1 (o mais provável): Obama está a continuar uma política que vem desde o inicio do seu país que é a exportação do seu modelo político como forma de dominação cultural e política de novos territórios que passam a estar ligados a todos os níveis a uma nova metrópole. E escolhe esta altura porque provavelmente é a última hipótese que os Estados Unidos terão nas próximas décadas de fazer ameaças militares em muitos pontos geográficos de forma simultânea e serem levados a sério, ou seja, antes que a dívida esmagadora e o valor real do dólar venham a público e arrastem o país para uma relativa impotência internacional e um grau de caos interno considerável. Pode haver também ambições quanto à implementação no terreno do AFRICOM como posto avançado permanente na região.

Cenário 2 (menos provável mas estrategicamente mais ambicioso): Sabe à partida que nenhum destes regimes tem qualquer hipótese de sobrevivência se forem desligados da “máquina” e o único objectivo disto é não só criar sementes de um determinado grupo de ideias (pró-americanas) como deixar metade da região de tal forma dividida internamente que isto resulte numa série de conflitos internacionais e guerras civis de longa duração que ninguém conseguirá gerir. Pondo as coisas de forma estratégica, estando fragilizados na sua capacidade de projectar poder a todas as regiões interessantes negam o acesso a essas regiões a todos os outros jogadores por pelo menos alguns anos ou décadas.

would you like to supersize that?

Para tornar as coisas interessantes vamos ter umas eleições americanas daqui a relativamente pouco tempo e mudando ou não de presidente será interessante testar estas hipóteses aqui expostas e verificar a progressão (ou abandono) da classe média local. Sinais do que nos espera.


O teatrinho

Se há instituição que me enche o peito com um sentimento profundo de futilidade é o actual Parlamento. Percebo perfeitamente a sua base teórica (por isso abstenham-se de comentários juristas mal intencionados) mas o problema é que conheço ainda melhor a sua base prática. O concreto. A realidade diga-se assim. Em primeiro lugar é preciso quebrar o mito que o poder reside neste órgão. Não somos um regime representativo parlamentar mas sim um regime representativo governamental, o poder (e não se limita apenas à iniciativa) está a pender todo para o mesmo lado. É verdade que quando a constituição foi escrita houve receios de repetir a história da I República (muito maior rotatividade de ministérios e incapacidade de formular planos a longo prazo) e como tal criaram-se mecanismos de maior estabilidade governamental (que deixa para todos os efeitos de ter que prestar contas ao Parlamento a não ser para efeitos de relações públicas). Mas a história não acaba aqui. Seguimos também uma tendência mundial de centralização do poder nos governos em detrimento de corpos deliberativos mais vastos e, na maior parte dos casos, mais truculentos. Porque acedemos a isso? É simples, sentimos medo. As nossas economias viram-se fragilizadas logo nos anos 80 (e agora estão para todos os efeitos defuntas), a tecnologia começou a lançar fantasmas inquietantes (especialmente nos campos da vigilância, nano, e manipulação biológica), o modelo social foi feito entrar em colapso e como tal, surpresa das surpresas, perdemos quase todas as âncoras que nos ligavam à nossa realidade quotidiana. Nesse pânico popular foi lida (por especialistas interessados em ler isso mesmo) uma situação de crise que necessariamente requereria uma concentração cada vez maior de poderes, e como em qualquer crise os opositores tendem a ser pintados ou como utópicos ou traidores que não querem saber do futuro da nação mas que em qualquer dos casos devem não só ser forçosamente removidos das proximidades do poder como lhes deve ser negada credibilidade de discurso e se possível até voz própria. Se tudo isto lhe soa vagamente familiar, mas não consegue associar a nada de concreto em Portugal é porque ao contrário de cá, onde fazemos estas coisas pela calada da noite, tivemos oportunidade de assistir a este processo ao vivo e a cores nos EUA. Está mais que claro qual foi o lado que ganhou a discussão.

Os artistas deviam ser obrigados a usar os acessórios da profissão para identificação fácil.

Dito isto tudo fica estabelecido que a credibilidade de um governo que tudo pode (mesmo que se insira nos limites constitucionais) está dependente do eleitor ter percepção que precisa deste tipo de órgão de soberania e que qualquer outro seria ineficaz. Ou seja está dependente de nos fazer crer, à semelhança de Gottfried Leibniz, que este é o melhor dos mundos. É o possível. A crise, claro, teve o seu efeito e veio precipitar muitos fenómenos que até aqui eram só latentes (negação sistemática de informação por questões de “segurança”, persecução de uma política externa oposta ao que é dito internamente, persecução de interesses económicos hostis ao país que se governa, etc). Foi um enorme catalisador não só da ideia do governo todo-poderoso e em quem depositamos as nossas esperanças (e ponto vital é que seja só nele!) de salvação dos desastres seculares que nos afligem. E aqui entra o nosso pobre Parlamento.

Ao contrário da maioria não achei que estivesse a faltar ao respeito á instituição...

Um vestígio de século XIX que tenta a todo o custo manter a honra de veneráveis tradições de debate, estéril e pré-determinado, e nos últimos anos se viu reduzido a um palco de esquina onde podemos assistir em directo (sempre em directo… não fossemos perder pitada) à leitura de tediosos e enormes textos montados nas melhores consultoras políticas (acreditem que dada a qualidade técnica não estou a tecer grande elogio) de forma a tentar maximizar o efeito positivo em quem ouve (assumindo que não morre de tédio antes ou que entende o que está a ser dito). Fora isto não tem qualquer papel reconhecível pelo comum dos cidadãos. Podem apontar a função de fiscalização mas como bem sabemos as comissões são o que se cria quando ninguém quer assumir responsabilidade pelo resultado final (além do factor óbvio: os resultados são votados de acordo com a cor partidária logo são indistinguíveis de um inquérito governamental tirando mais uma vez o efeito positivo em termos de percepção do público). Sendo então um órgão eminentemente visual (como se pode confirmar pelas leituras dos discursos em directo sobre os temas quentes e o acompanhar dos trabalhos das comissões em tempo real) parece que chegámos ao que constitui a função nuclear deste órgão presente: é uma forma de precipitar a catarse nacional quando nada se quer fazer de concreto. Uma espécie de versão moderna de um rito de sacrifício aos deuses de bodes expiatórios (representando simbolicamente as falhas do grupo). Por tudo isto é bem possível que estejamos a entrar numa época de um Estado de Excepção permanente que só poderá tornar-se mais óbvio à medida que as medidas aplicadas se tornam mais cruas e a falta de limites do seu poder mais nua.


Manobras de contenção

Por toda a Europa multiplicam-se as tentativas de acalmar o que pareceu ser um onda de agressão espontânea direccionada contra os grandes desequilíbrios sociais que se estão a construir de forma semiautoritária (sem submeter o grosso desta transferência de riqueza a referendos e outros métodos de escrutínio da opinião pública). Sobre a capa de se querer evitar a desagregação social (como se o facto de as pessoas se unirem para contestar o que está a acontecer não fosse prova do contrário) está-se a aplicar ora medidas repressivas ora medidas de distracção ou acalmia para continuar todo o processo até ao seu fim (o chicote e a cenoura para o burro não parar de vez). A parte mais deprimente de todo o processo é como tentam desviar as pessoas para o protesto banal e ineficaz que acaba por ter os mesmos efeitos do conformismo mais apático à face da Terra.

Mais uma enorme escolha desprovida de qualquer significado ou consequência.

Em Espanha andam todos distraídos, em véspera de eleições, com uma visita do papa, líder de uma Igreja que nunca teve pudor em dizer quem apoiava (a visita vai ter direito à presença da família real outra entidade completamente partidária e que serve, na opinião de muitos espanhóis, juntamente com a Igreja da baluarte do conservadorismo espanhol e do que resta do legado franquista). Ou seja não só as pessoas têm direito a um espectáculo público como também a comício para irem bem orientadas para as urnas (claro que tudo é feito sobre a mais estrita neutralidade legalista mas isso só mostra o lado perverso de se prestar atenção exclusivamente à formalidade – não haverá provavelmente uma palavra partidária directa nos discursos mas para bom entendedor…). Parece que, tal como na Noruega (só coincidências…), havia um plano de atentado (envolvendo por pelo menos um devoto cristão conservador) ao que poderia ser considerado a ala liberal do país (neste caso os que se opunham a que o Estado Espanhol arcasse com um cêntimo do custo desta visita papal). Neste caso, felizmente, foi possível evitar uma desgraça e apanharam-no antes que pudesse fazer estragos.

"Gangs isolados", "vandalismo" é o que mais se gosta de usar... e que tal: combate urbano e rebelião popular?

Pelo Reino Unido a técnica continua a ser a pálida imitação da baronesa Thatcher que o primeiro-ministro David Cameron parece empenhado em prosseguir. É prisões para os revoltosos e para quem “publicitou/incitou” a revolta. Ficamos sem saber se as tvs também serão multadas e os seus jornalistas principais encarcerados. Ou são apenas determinadas opiniões sobre o tema que dão direito a ir preso? Será mesmo que a causa de uma semana de caos urbano no Reino Unido pertence realmente a dois miúdos que usaram uns slogans? Quando se tornar muito incómodo também se fecharão as redes sociais e blogs como no médio oriente? Ficamos também sem saber qual é a moral de um governo que prende jovens adultos nestes casos mas permite que os seus “cidadãos mais respeitáveis”  investir (de forma legal) em armas proibidas. Será que irão colocar a cara dos presidentes dos Conselhos de Administração destes bancos em ecrãs ao longo de Londres para os encontrar e identificar? Em Portugal ficamos sem saber muito bem quando é que apoio ou palavras de ordem serão criminalizadas (esperemos não chegar a tanto porque as penalizações pessoais por emitir opiniões de qualquer ordem já são pesadas o suficiente). De qualquer forma ficamos a saber que a última reforma do governo prepara-se para criar mais 40000 desempregados (e neste ambiente económico são permanentes) como “dano colateral”. Estranha forma de contribuir para a estabilidade.


Os perigosos marginais

Que nos dizem compor de forma exclusiva as multidões puseram várias cidades do Reino Unido a ferro e fogo. Ou pelo menos as partes comerciais, e, no fundo, é isso a única coisa que interessa, a sacrossanta propriedade empresarial (diferente da meramente privada) e os seus fluxos de libras, e daí a tentativa de penalizar brutalmente os participantes. Resumindo para ficarmos todos entendidos, estamos autorizados a protestar no Ocidente desde que esse protesto não tenha qualquer efeito concreto. A partir do momento que coloca algo em risco, especialmente o fluxo económico, os cidadãos em causa quase perdem o estatuto de humanos e são atacados de todas as formas possíveis e imaginárias até se transforem apenas em exemplos repressivos sobre o que acontece a quem não é um “cidadão responsável”. Na Roma Antiga os seis mil soldados de Espártaco que sobrevieram à terceira Guerra Servil (70 A.C.) foram crucificados ao longo da Via Ápia (de Cápua a Roma) como exemplo, hoje evoluímos temos todo um sistema judicial para punir os revoltosos sem derramar uma gota de sangue. Que humano, higiénico e civilizado da nossa parte.

A fusão entre espectáculo e justiça

Todo o contexto destas revoltas está a ser ignorado e estão a dar às massas (especialmente uma ex-classe média que não percebeu que amanhã poderão ser eles nessa situação) um espectáculo de punição e agressão como elas sempre adoraram. Não saberemos se isto conterá a insatisfação crescente ou simplesmente criar uma barreira de medo adicional a todos os cidadãos. Mas de algumas coisas temos certezas. As pessoas que estão a ser tratadas como lixo humano e ignoradas não vão a lado nenhum. O número de pessoas que integra este grupo não pára de crescer (e só pode aumentar com a gravidade da crise económica que vivemos e aquela que ainda está para vir e se vai ter o seu coração na Ásia). E por fim qualquer barreira de medo pode ser ultrapassada quando as condições se deterioram o suficiente. Por isso as populações europeias têm que reflectir muito bem sobre que tipo de sociedades querem ou estão dispostos a ter e a que preço.

Somos livres de ser iguais, livres de não escolher, livres de produzir o que nos mandam. Viva a Liberdade!

Num aspecto puramente humano é deprimente ver como as pessoas embarcam tão depressa na desumanização dos seus concidadãos assim que os seus reflexos de Pavlov são activados ao verem alguns inconvenientes às suas vidinhas. Deixam de ver todas as perspectivas que não sejam punitivas e preferem esquecer as causas de tudo isto o mais cedo possível. Como se estas pessoas não existissem nem nunca tivessem existido. Rezem para não vir um dia ter que estar nesta situação e verem-se incluídos no grupo dos “delinquentes”.


O não debate

Deveria talvez dizer outro “não debate” porque com a corrida às privatizações (perdão penso que actualmente o termo é “reformas”) que se está a fazer começa a ser complicado ter noção de quantas coisas estão em cima da mesa e de quem está a tomar decisões sobre o quê (reparem que neste caso o destino da empresa, RTP, é decidido por comissão – para minimizar a responsabilidade de cada um?) – aparentemente não há qualquer autoridade central que esteja a coordenar estas mudanças radicais da sociedade portuguesa, simplesmente grupos dispersos que obedecem a um mesmo interesse. Isto é a via mais fácil de mudar seja o que for sem ter que dar contas a ninguém. Já que nunca se tomou formalmente uma decisão de mudança radical de paradigma social não tem que se justificar o que está a acontecer aos bochechos. O primeiro ministro não assume responsabilidade pelo novo paradigma. Os ministros responsáveis de cada área muito menos (aliás muitos deles escudam-se atrás de uma suposta independência tecnocrática quando basta olhar para os CVs deles para perceber que tal é perfeitamente impossível). As comissões dividem ao máximo a carga moral e apenas recomendam acções. Parece que é tudo muito difuso mas cada dia que passa os portugueses acordam para um país ligeiramente diferente: mais pobre, menos livre, mais medroso, mais dependente das elites, e acima de tudo um país onde não fomos ouvidos sobre nada.

E claro que tudo tem que ser rápido para não nos dar tempo sequer de respirar. Suponho que assim seja porque a partir do Natal os próprios reconhecem que começarão a ter oposição séria – daquela nas ruas e nos locais de trabalho, não daquela que vem do gigantesco logro a que chamamos parlamento e que nunca atinge nada real. Não gosto deste tipo de pensamento, de política de rua, mas quando as instituições políticas, que deveriam ser o cerne da nossa comunidade Pública, estão mortas ou quase que conspiram contra o seu próprio povo não a posso considerar ilegítima (seria o mesmo que considerar a Revolução Francesa ilegítima porque não seguiu os canais próprios do regime absolutista). Cada dia duas reformas pelo menos. Uma verdadeira corrida em que nem sabemos quem são os corredores ou qual é o prémio. Só quando tudo for irreversível é que nos mostrarão a obra completa e irreversível do Novo Portugal (pelas “obras” parece pode vir a ficar surpreendentemente parecido a outra coisa que também se dizia “Novo”). Quando for tarde demais para reagir aí sim saberemos tudo. Tudo menos a quem atribuir responsabilidades claro.


O que me dava esperança e ânimo

O líder máximo da nação vem pedir-nos, nas suas palavras: “…este é o momento para recuperar forças e ânimo para um novo ano, que será de grande exigência mas que deverá também ser, como tanto desejamos, de coragem e de esperança”. E não discordando que este pode vir a ser um momento chave na história recente do nosso país tenho que dizer que vai ser preciso mais que boa vontade para criar essa esperança e ânimo. Uma base racional. Porque se essa base não existir o que se está a pedir é a permissividade total. No sentido de contribuir para a construção dessa base racional tomei a liberdade de sugerir 12 pontos que me parecem vitais para restaurar qualquer aparência de credibilidade junto do cidadão normal (ia a dizer classe média mas actualmente já não estou seguro que o cidadão normal seja de classe média… e os que ainda o são parecem ter os dias contados…).

"Blood alone moves the wheels of history"

1)      Ver 90% da classe política dos últimos 30 anos irradiada da vida pública. Por manifesta incompetência.

2)      Ver legislação sobre corrupção que tivesse hipóteses reais de ser mesmo aplicada e poder condenar alguém (ou seja que não fosse quase impossível fazer prova dos crimes de corrupção e tráfico de influências).

3)      Ter um sistema de protecção laboral que aplica mesmo as medidas de protecção do trabalhador em vez de ser completamente remisso (para quem duvida da relevância disto: façam um inquérito junto aos trabalhadores temporários para descobrir a última vez que uma inspecção passou a pente fino as empresas onde estão colocados ou que detêm o seu contrato).

4)      Ver um sistema de capitalismo livre em que as oportunidades de negócio dependem mesmo de ser empreendedor e não dos contactos junto das pessoas certas.

5)      Ver implementada imediatamente uma lei que proibisse qualquer empresa de deter mais de um meio de comunicação.

6)      Ver implementado um programa maciço de educação cívica para cada português finalmente ter uma ideia do sistema que criaram para o prender. Seguido de preferência de um referendo a 2/3 anos.

7)      Ver as entidades para a concorrência ganharem vida.

8)      Ver as entidades para a regulamentação e verificação da actividade económica ganharem vida.

9)      Ver o sector especulativo da economia pagar os mesmos sacrifícios que são exigidos a todos os outros. Seria o primeiro a defendê-los se mostrassem uma gota de responsabilidade social.

10)   Restringir ao máximo financiamentos empresariais aos partidos.

11)   Impedir durante pelo menos 7 anos qualquer eleito de ocupar cargo no sector privado depois da sua saída da vida pública. Com a mesma legislação a aplicar-se a funcionários públicos detentores de informação chave para o interesse nacional.

12)   Registo público das relações familiares de todo e qualquer membro do governo e/ou consultor tal como uma relação completa de bens familiares.


Treinou-se a juventude portuguesa para o quê?

No regime da “outra senhora” sabíamos com certeza completa que o objectivo de qualquer processo educativo e de socialização tinha que desembocar sempre na dupla: 1) criar católicos passivos e 2)carne para canhão para a manutenção do regime (e não falo só da guerra mas também de todo o sistema económico e social). Mas entretanto passaram quase quatro décadas e estará talvez na altura de avaliar o que se fez com o plano de educação das juventudes portuguesas. A resposta é necessariamente ambígua. Em termos de acesso a uma educação formal semidecente a grandes números de pessoas deram-se passos de gigante que permitem uma abertura mental impensável há poucas décadas pode ser esse o factor que impeça o país de se radicalizar ainda mais à medida que as coisas se forem deteriorando. Mas do outro lado da moeda está uma qualidade técnica nem sempre ao nível que seria desejável (por favor não leiam nisto um apoio às cátedras de Coimbrãs do antigamente…) e uma total falta de orientação dos jovens para as suas áreas de talento e depois planos para lidar com esse talento em termos profissionais (abandonar tudo o que não é a engenharia ao deserto é quase suicida).

Objectivo: servir o regime do útero à cova.

Em termos sociais “criminalizou-se” a acção colectiva e o conceito de ter algum ideal (os rótulos podem ir desde sonhadores, comunas, retrógrados, estúpidos ou, quando partem da fina flor da nossa sociedade, tapam-se em sarcasmos mais ou menos delicados para os outros membros do grupo apreciarem a subtileza da estalada social). O resultado em qualquer caso foi (e é) sempre o mesmo, a ostracização quase total de quem não aderisse às novidades que nos chegavam pelas mãos dos monetaristas, liberais, anarco-capitalistas, conservadores sociais entre tantos outros micro grupos que devido ao seu peso económico e influência social desproporcionais conseguiram dominar completamente a agenda mediática e cultural. O resultado foram gerações inteiras de indivíduos completamente fragmentados pelos seus desejos. Isolados socialmente restou-lhes a via do progresso material que nós bem sabemos como acabou pelo que nos rodeia no dia a dia. Ou seja, educação deficiente, muitas vezes em carreiras erradas e frustrantes, sem ideias ou sequer a crença que um ideal é possível, sem sentido de pertença a qualquer grupo (a começar pelo que mais importa, o país). Só podemos concluir que fomos quase que vítimas de um programa de experimentação social em larga escala. A tal engenharia social que só se tentava do outro lado da cortina de ferro. Qual o objectivo desta manipulação? Ainda não percebeu leitor?

Não pense muito na vida..... "eat drink and be merry for tomorrow we die"

Para nada mudar. Um laboratório em como limitar uma revolução ou qualquer onda de impacto dela resultante. Senão veja. Há liberdade de reunião mas a maioria é condicionada a nunca se associar a não ser por obrigação ou ganho imediato (sublinho o imediato). O único ideal que foi permitido sobreviver neste bombardeamento de propaganda conservadora? A Igreja Católica pois claro (nunca repararam na pobreza religiosa de Portugal? Tão poucas religiões representadas… e quase sempre só as mais reaccionárias é que aparecem…), o resto serve para ser demonizado como hedonista, niilista ou lunático. Existe um mercado laboral “livre” mas o poder está todo do lado patronal. Existe uma economia de mercado mas a iniciativa privada, fora de meia dúzia de exemplos, nada vale sem contactos. Não quero com isto dramatizar e dizer que nada mudou para melhor mas é preciso ter noção que esses benefícios, os que ainda existem, estão a escorrer pelos dedos como areia e não vão voltar independentemente das promessas que sejam feitas.


Eventos efémeros

Na sequência do horror que assolou a Noruega (cujas conclusões toda a Europa ainda está a digerir) houve uma reacção espontânea da sociedade civil e o número de inscrições nos partidos políticos pela parte dos mais jovens disparou. É um gesto simbólico forte. Mostra que apesar dos terror e da vulnerabilidade, que é partilhada por todas as sociedades livres, têm que manter um sistema normal a funcionar e não se podem deixar tomar pela paranóia securitária e isolacionista.

Para os que não sobreviveram ao horror.

Mas passado o calor do momento e o sentimento, de se ter contribuído de forma positiva para algo, vão permanecer na política Norueguesa todos os factores que levaram estes jovens a ignorá-la ou desprezá-la até este momento. E irão fazer-se sentir com cada vez mais força até os levarem ao abandono ou indiferença (a posição inicial). Eventos traumáticos, a menos que repetidos de forma frequente para criação de uma “mentalidade de cerco”, nunca poderão ser o suficiente para regenerar um sistema político. Isto é ainda mais válido para o caso de países como Portugal onde a juventude aprendeu sabiamente a manter-se à margem da vida partidária de forma a evitar a manipulação ou o engano constantes. Os princípios cívicos não são muitos mas a própria ganância os informa que sem verem a sua estrela “patrocinada” a política é um beco sem saída de onde pode sair tudo menos ideias e soluções.

Parece que estamos à espera de uma coisa destas para recomeçar mesmo a sério....

Isto tem tudo ligação. Um sistema político que não permite participação genuína (o voto é mais formal que outra coisa) e que não permite brilhar quem tem esse potencial (e aqui poderíamos dizer que o mal é de Portugal como um todo e não apenas do mundo da política) está condenado a uma fria formalidade que só poderá significar o seu fim ou fraqueza extrema prolongada. Além de criar respostas extremistas a este estado de coisas como se viu no Norte da Europa recentemente (e se bem investigado provavelmente descobririam redes destas espalhadas pela Europa).Nós por cá nem o nosso momento de união nacional tivemos (ainda bem), frágil e de curta duração que costumam ser, o que quer dizer que o efeito de fragmentação que esta forma de gerir o país está a causar poderá ser mais rápida por cá que noutros lugares. Este conservadorismo em todas as frentes está a sufocar a nação.


Desautorizações

Freitas do Amaral vê-se excluído do debate sobre as golden shares; É uma notícia tão simples mas que acaba por ter tanto para comentar para quem estiver atento.

A)     O Parlamento está a discutir algo que já foi aprovado e aplicado o que significa que nem uma formalidade é. Trata-se mesmo de fingir que existem processos parlamentares que até são úteis.

"...it is a tale Told by an idiot, full of sound and fury, Signifying nothing"

B)      Não adianta dizerem que iniciaram este processo de privatizações para não sobrecarregar o Estado com funções secundárias porque se as empresas não fossem interessantes comercialmente ou tivessse a mais leve dificuldade os accionistas tudo fariam para atrair algum tipo de intervenção do estado.

Finalmente a justiça prevalece... hmm... uma pergunta... a justiça não era cega?

C)      Freitas do Amaral parece ter sido excluído porque recentemente se manifestou contra a perda de autonomia nacional que as golden shares e privatizações inevitavelmente representam.

Bravo! Vossas Senhorias são verdadeiramente a luz que nos ilumina!

D)     Mesmo em processos de decisão que só existem no papel começa a perceber-se que só poderá ter voz quem concordar com a corrente dominante. Ou seja até o ter opiniões diversas de forma pública começa a ser desencorajado.

"...I must tell you that their liberty and freedom consists in having government.... It is not their having a share in the government; that is nothing appertaining unto them. A subject and a sovereign are clean different things."

E)      Uma vergonha para TODOS os partidos sujeitarem o país a este simulacro de participação popular e opinião livre.