Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

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A aprendizagem

Sabendo nós que um país, a Grécia, em tudo parecido com o nosso, está à beira de uma guerra civil ou pelo menos caos social de grandes dimensões – sendo os grandes responsáveis a classe política grega que se recusa terminantemente a servir o seu povo, pôr os instrumentos democráticos de que dispõe em acção e, em suma, renegar uma dívida que foi em muito acrescida pela mera especulação exterior e não pela acumulação interna – todos em Portugal parecem tirar algumas lições sobre o que se passou e ainda pode passar. Para o governo em funções (eu dei-lhes 18 meses de vida quando tomaram posse mas a este ritmo, e dependendo da evolução internacional, posso muito bem ter que rever esse número em baixa) a lição é clara e unívoca: domínio social dos seus patrocinadores económicos ganha prioridade a todo o custo (já que podem não ter tempo de implementar ou inutilizar tudo o que desejam) nem que destruam irremediavelmente o partido a que pertencem como alternativa democrática credível para todo o sempre.

A fome de poder e riqueza corre o risco de deixar 90% das pessoas pelo caminho...

As medidas dividem-se em várias esferas mas não vacilam quanto ao seu propósito. Refazer o país e tudo o que o definiu até este momento de forma essencialmente secreta e antidemocrática (há muito que o seu mandato legítimo foi ultrapassado mas o ritmo reformador só acelera). Quando confrontado com as reservas de uma das pessoas que o colocou onde está (sim é verdade que apenas o parece falar neste momento para salvar o seu legado pessoal face à análise histórica futura, ninguém quer ser conhecido como o último chefe de estado de nenhum regime) o Primeiro-Ministro pura e simplesmente não comenta. Silêncio que mantém sobre a crescente presença angolana em todas as esferas da nossa vida (com fundos derivados de um governo cada vez mais contestado no seu próprio país) A crua realidade é que quem detém poder (ou conivência) suficiente não precisa de prestar contas ao povo. O modelo económico vacila mas ignora-se majestosamente as consequências do que só pode vir a ser um colapso total do consumo (provavelmente acabando em deflação daqui a uns tempos) porque isso afinal de contas até pode ser útil para domar as pessoas e desde que não afecte algumas empresas chave não é relevante – e quem discordar é sumariamente ignorado.

Para uns sim para outro não... e nada mais perverso que vender isto como a ordem natural das coisas.

Não sendo um governo de esquerda é estranho que faça lembrar medidas mais soviéticas que aquelas os próprios comunistas portugueses alguma vez puseram em cima da mesa para a população em geral. Propõe-se o trabalho gratuito do funcionário público para algumas instituições (escolhidas sabe deus por que critério… ), sendo que só num plano imaginário poderá o dito funcionário sentir-se em liberdade de dizer não a esta “proposta”. Quer concorde ou não com a orientação ideológica de algumas organizações será então forçado a “doar” o seu trabalho a elas. Ou seja haverá grupos ideológicos (concordantes com o governo e seus apoiantes socialmente relevantes) que passam a beneficiar de uma força de trabalho gratuita e qualificada. E para terminar, numa nota ainda mais preocupante, tal como na Grécia começamos a ter casos de movimentações neo-nazis que parecem ser mais ou menos toleradas pelas forças de segurança que sendo que é verdade que impediram o confronto também não detiveram, ou sequer identificaram, todos os responsáveis. Estes grupos extremistas estão no céu com esta situação social e começam a apalpar o terreno para ver quanta violência será tolerada por parte de grupos paramilitares ilegais – haverá “caçadas”, lideradas pela extrema-direita armada até aos dentes, pelas ruas de Lisboa e Porto a manifestantes como noutros países?


Free – Lighthouse Family

 

I wish I knew how it would feel to be free
I wish I could break all the chains holding me
I wish I could say all the things that I should say
Say ‘em loud say ‘em clear
For the whole wide world to hear

I wish I could share
All the love that’s in my heart
Remove all the bars that keep us apart
And I wish you could know how it is to be me
Then you’d see and agree that every man should be free

I wish I could be like a bird in the sky
How sweet it would be if I found I could fly
Well I’d soar to the sun and look down at the sea
And I’d sing cos I’d know how it feels to be free

I wish I knew how it would feel to be free
I wish I could break all the chains holding me
And I wish I could say all the things that I wanna say
Say ‘em loud say ‘em clear
For the whole wide world to hear
Say ‘em loud say ‘em clear
For the whole wide world to hear
Say ‘em loud say ‘em clear
For the whole wide world to hear

One love one blood
One life you’ve got to do what you should
One life with each other
Sisters, brothers

One love but we’re not the same
We got to carry each other Carry each other
Wo-ah Wo-ah Wo-ah Wo-ah…

I Wish I knew how it would feel to be free
I Wish I knew how it would feel to be free


A socialização como mentira e fuga

Se calhar o que venho para aqui escrever não vem como um choque para a maioria (ou talvez até venha, a certa altura neste caos torna-se complicado entender a maioria das pessoas) mas a mim choca-me o suficiente para lhe dedicar umas linhas. Os portugueses têm terríveis falhas no que diz respeito à sua ética pública (por oposição ao que fazem na sua vida privada, não interessa nada se reciclam ou gostam de gatinhos… exemplos esses que não passam de tentativas “filosóficas” baratas de fragmentar e privatizar o comportamento político) que os tornou co-autores da sua situação presente e que até este momento (ou em qualquer outro da nossa história) não parecem estar dispostos a fazer uma auto-análise fria que pudesse, com tempo, corrigir a situação. O que me chama mais a atenção é o facto de nada ser verdadeiramente levado a sério (e isto é fenómeno quase único na Europa). Rigorosamente nada consegue ser elevado a um nível superior à conversa de café (daquelas em que depois cada um vai à sua vida depois de ter mandado duas bocas sobre temas que desconhece intencionalmente) e nada foge a esse mecanismo de defesa psicológica primário que é a piada tonta. O mundo colapsa aos pés dos portugueses mas não faz mal porque é sexta e o jantar com os amigos vai-os animar de certeza. Como se no Sábado de manhã o seu mundo não estivesse tão destruído e arruinado como sempre, como se fosse possível uma fuga da realidade através do contacto social. A socialização “excessiva” funciona quase como uma droga de escape que os portugueses não conseguem largar ou pelo menos abrandar o consumo.

A segurança de saber que os nossos pares não podem estar todos errados...

Esta socialização extrema não só inibe a ansiedade face ao desconhecido mas, como qualquer pensamento de grupo, tende a inibir a individualidade e o desejo de diferenciação. De certa forma grande parte da população poderia ser comparada a adolescentes que apenas querem assegurar a sua pertença ao “grupo” (seja ele qual for) e a perpetuação das poucas coisas que realmente os definem (daí nesta sociedade a individualidade genuína, complexa por definição, ser estigmatizada como excentricidade ou mesmo loucura, conforme o caso e o grau de ameaça à estrutura socioeconómica como um todo). Neste verdadeiro submundo que criámos para nós próprios (e onde certos grupos gostam de nos manter, entretidos com personalidades vácuas e inconsequentes de carácter) vigoram certas regras muito próprias. É por isso que a palavra do português (até num contexto puramente de negócios) vale tão pouco. Ele espera mentir e que o receptor da mensagem entenda que ele está a mentir e aja de acordo com essa informação. A seriedade nem é tomada como opção. O mesmo se aplica à política onde se fazem as “escolhas menos más”, mais uma vez a ideia de existir um projecto sério (nem que seja em potência) nem sequer entra na mente do eleitor. É um jogo de mentiras que se estende dos palacetes de Sintra e Cascais até ao nível mais corriqueiro do camionista a tomar uma cerveja com os amigos na tasca.

Já tirou a maçã para poder finalmente descobrir quem você é?

Claro que tudo isto nos torna, aos olhos de turistas e nacionais mais optimistas (ou bem servidos), uns tipos castiços com uma cultura interessante de explorar. O problema caro leitor é que isto não é um safari ou uma expedição antropológica, são as nossas vidas. O tecido da realidade social foi tão corroído pela nossa incapacidade de lidar com a verdade (e daí o recurso sistemático à mentira a todos os níveis) que corre o risco de se desfazer com um sopro forte. O grupo social, que é onde todos parecem procurar refúgio, não pode afogar as nossas mágoas porque as partilha e não nos pode salvar porque em primeiro lugar não quer mudança e em segundo partilha a mesma triste sina que nós. Ninguém se salva. Mais importante que isso, o grupo não nos pode fornecer um álibi moral. A nossa responsabilidade nunca será diluída pela multidão. Somos responsáveis pelo que acontece no nosso país. Somos responsáveis pelas acções que tomamos e por aquelas que não tomamos. Ou aceitamos responder perante o tribunal da história (que não quer desculpas! Quer factos e razões para o actual estado de coisas) ou não merecemos sequer, o pouco poder simbólico que nos concederam, o voto.

PS: Sei que para a maioria das pessoas colocar as coisas nestes termos (obrigações de “ética pública” ou “honra pessoal”) é algo incompreensível, nem sequer entendem os termos em que se faz a discussão, mas eu não poderia ser “eu” sem valorizar estes elementos e dizer estas coisas.


Mass Destruction – Faithless

 

Whether long-range weapon or suicide bomber
Wicked mind is a weapon of mass destruction
Whether soaraway Sun or BBC 1
Misinformation is a weapon of mass destruct
You coulda Caucasian or a poor Asian
Racism is a weapon of mass destruction
Whether inflation or globalization
Fear is a weapon of mass destruction

My dad came into my room holding his hat
I knew he was leaving,
He sat on my bed told me some facts.
Son, I have a duty, calling on me
You and your sister be brave my little soldier
And don’t forget all I told ya
You’re the mister of the house now remember this
And when you wake up in the morning give ya momma a kiss
Then I had to say goodbye
In the morning woke momma with a kiss on each eyelid,
Even though I’m only a kid
Certain things can’t be hid
Momma grabbed me
Held me like I was made of gold
But left her inner stories untold
I said, momma it will be alright
When daddy comes home, tonight

[CHORUS]
Whether Halliburton, Enron or anyone
Greed is a weapon of mass destruction

We need to find courage, overcome
Inaction is a weapon of mass destruction (x3)

My story stops here, let’s be clear,
This scenario is happening everywhere.
And you ain’t going to nirvana or far-vana,
you’re coming right back here to live out your karma.
With even more drama than previously, seriously.
Just how many centuries have we been
waiting for someone else to make us free?
And we refuse to see
that people overseas suffer just like we:
Bad leadership and ego’s unfettered and free
Who feed on the people they’re supposed to lead
I don’t need good people to pray and wait
For the lord to make it all straight.
There’s only now, do it right.
‘Cos I don’t want your daddy, leaving home tonight

[CHORUS]
Whether Halliburton Enron or anyone
Greed is a weapon of mass destruction

We need to find courage, overcome
Inaction is a weapon of mass destruction (x3)


O imposto que não deverá ver a luz do dia

Com um título destes quase que daria vontade de celebrar! Pela primeira vez, em memória viva, um imposto seria pensado mas não aplicado. Mas como o leitor cauteloso já adivinha trata-se apenas de uma pequena ironia da minha parte. Falo claro do “imposto sobre os ricos” que supostamente estaria a ser considerado por este governo depois de muito pressionado quer por outros sectores quer pelos próprios eventos internacionais. As elites portuguesas viram-se apanhadas numa onda de responsabilidade social e não sabem como sair da situação de forma mais ou menos airosa sem criar, ainda mais, conflito social e ressentimento. O que este debate provavelmente irá começar propor é um aumento do IRS para o último escalão mas claro que isso seria enganador porque esses não são os ricos, como aliás explica muito claramente Carvalho da Silva neste pequeno comentário; no caso dos verdadeiramente ricos os seus rendimentos são inconstantes, móveis, só taxados ocasionalmente e nunca com impostos sobre o trabalho. Mas o que está verdadeiramente em discussão não é uma questão de fiscalidade ou legalidade mas sim de solidariedade nacional e civismo. Se não sair nada, que realmente nivele o fardo económico e social da crise, desta iniciativa o povo português sentir-se-á, ainda mais, abandonado e traído pelas suas elites económicas e perceberá de uma vez por todas que os interesses desta mesma elite divergem, enquanto classe social, dos do resto do país.

Estamos todos no mesmo barco, mas uns parece que têm colete salva vidas

Não sei se Marc Ferro tem razão quando afirma que o ressentimento é o motor da história mas corremos o sério risco de o vir a descobrir se não houver uma grande sensibilidade a gerir este tema e capacidade de cedência por parte de quem tem ainda margem de manobra económica pois como o historiador afirma o ressentimento é um fenómeno circular que se alimenta a si próprio numa espiral de violência: “O ressentimento não é apanágio daqueles que no início identificámos como vítimas: escravos, classes oprimidas, povos vencidos, etc. A investigação descobre que, simultânea ou alternadamente, o ressentimento pode afectar, inibir não apenas uma das partes em causa, mas as duas. O caso da reacção que se segue a uma revolução é óbvio, mas os percursos deste tipo são múltiplos e variados”(1). Ou seja é algo no qual se pode controlar o inicio mas nunca o fim. Uma verdadeira roleta russa civilizacional. Duvido muito que os milionários portugueses tenham o alcance (ou a preocupação) para ver as coisas nestes termos mas para quem quer continuar a ter um país, mais ou menos, funcional convém ter uma perspectiva mais alargada.

Claramente sofrem de má publicidade e de falta de meios de resposta...

Percebo até certo ponto a complacência deste grupo social privilegiado. Há já muito tempo que ninguém os desafia verdadeiramente da sua posição de dominância e dada a cultura nacional de abuso sobre os que ocupam uma posição hierárquica ou socialmente inferior muitos não conseguem sequer conceber mentalmente a possibilidade de um dia terem uma resposta que não seja canalizada através dos novos meios de protesto inútil. Mas em todos os grupos chega sempre uma altura em que fica claro se os membros permanecerão todos juntos e lutam lado a lado ou se haverá traições e quintas colunas. Tenho receio de já conhecer o destino do caso português, a nossa história e tradições parecem conspirar contra nós.

(1)    Ferro, Marc; O Ressentimento na História; Editorial Teorema, 2009; página 192


Desilusões perigosas

Acho fantástico que se as pessoas pela primeira vez em décadas comecem a dar sinais de vida cívica, ou pública, e estejam já a preparar uma nova manifestação contra precariedade e todo o sistema que a mantém. Mostra que pelo menos ainda não estão completamente apáticos face ao que lhes está a ser imposto. Mas há graves problemas com a mentalidade que este tipo de iniciativa incentiva. Em primeiro lugar quase que dá a entender que isto é um passeio de Domingo em que até dá para ser divertido – o objectivo de qualquer movimentação social séria não é que as pessoas que nele participam estejam divertidas, para isso o sistema já proporciona, com uma vasta gama de preços e gostos, entretimento para todos; a intenção seria quebrar precisamente esse circulo vicioso diversão com aparência de contestação. Em segundo lugar, e isto é o mais importante, estas primeiras manifestações populares estão destinadas ao fracasso. Quando se sai para a rua é para das duas uma, ou fazer uma exigência concreta ou forçar alguém a abandonar o cargo. Neste caso não há nada disso no cardápio. É uma manifestação apenas por manifestação. Nada é pedido em concreto e como tal nada pode ser oferecido, não existem possibilidades negociais quando não há exigências concretas.

Brincamos?

Se me estivesse a sentir particularmente cínico diria que estão a cansar intencionalmente as pessoas com eventos que não podem pela sua natureza e organização (ou falta dela) produzir resultados reais com o objectivo de as imunizar a iniciativas que possam surgir, mais tarde, com algum potencial de sucesso e de mudança. Criar uma boa dose de desilusão com a vida pública (no verdadeiro sentido da palavra, de participação na Pólis, directamente e não apenas de forma afastada e inconstante como a nossa cultura política nos forçou) nas novas gerações para depois facilitar uma imposição de conformismo. Esperemos que não seja o caso e eu esteja apenas algo pessimista. Esperemos que se trate antes de um acordar de responsabilidade cívica por parte de pessoas que quase que se esqueciam que faziam parte de uma comunidade política. Mas por este ponto de vista convém então refrear, e muito, as esperanças que se possam ter sobre este primeiro tipo de iniciativas. Não vão dar em nada concreto, nem é suposto darem em nada (tal como pode comprovar pelo que aconteceu lá fora).

Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes...

No imediato o que há mesmo a esperar é que a continuação do teatrinho das “reformas” e da seriedade intocável. E da “enorme” preocupação com a despesa pública. Ou pelo menos aquela parte que é destinada à redistribuição social, fomento da economia real e manutenção de serviços públicos suficientes que nos permitam pelo menos aspirar ainda a ser um país senão do primeiro mundo pelo menos do segundo.


O jogo das palavras

Quem estiver farto de fazer o sudoku ou as palavras cruzadas do semanário pode sempre optar por abrir o dito jornal (ou ligar a tv, ou ler um blog de um daqueles senhores “respeitáveis”, a escolha é sua, como sempre, caro consumidor de produtos substitutos) e tentar seguir o role de medidas e contra medidas que nos estão a ser prescritas mais depressa do que conseguimos processar. Se for uma alma intrépida até pode ler as medidas em detalhe e depois a pouca crítica real que existe mas deixe-me resumir-lhe aqui tudo que vai encontrar e o que não vai encontrar porque ninguém lhe quer contar (ser portador de más notícias num clima que se quer de optimismo artificial tende a ser muito mal visto): se não pertence à elite socioeconómica deste país eis o que o espera nos tempos mais próximos:

1)      Empobrecimento pela via da diminuição das suas receitas.

2)      Empobrecimento pelo aumento da carga fiscal.

3)      Empobrecimento pela exclusão de serviços públicos.

4)      Empobrecimento pelo aumento das suas despesas obrigatórias.

5)      Empobrecimento causado por possível despedimento ou corte salarial (que vai aceitar para não perder o emprego).

6)      Empobrecimento geral para subsidiar o sistema de capitalismo rendeiro (o que se chamariam impostos extraordinários ou taxas extra cobradas pelas próprias entidades não verificadas ou controladas).

Ainda não leu tudo sobre o tema? 🙂

E deve ter noção que, dado o modelo económico para o qual estamos orientados, este empobrecimento é para ser permanente. Não recuperável. Ou seja a classe média como você a entende provavelmente chegou ao fim. Mas não se preocupe, se o seu rendimento ainda o qualifica para essa categoria o tempo tratará de o desgastar o suficiente para já não ser esse o caso. Bem-vindo à nova pobreza (que é bastante parecida com antiga tirando no facto de ninguém admitir que ela existe em doses industriais e crescentes). Os quilos de papel que não leu (ou leu e nesse caso parabéns pela paciência necessária para ler tanto material inútil) visam todos comunicar isto sem o dizerem realmente e claro enfiando doses colossais de “esperança” e “fé” e outras palavras que dão às pessoas quando não se quer criar muito pânico. E agora que já sabe o que as palavras querem dizer e percebe que isto não é um jogo o que tenciona fazer?

Já escolheu? Ou melhor... já percebeu que existem escolhas?


Os perigosos marginais

Que nos dizem compor de forma exclusiva as multidões puseram várias cidades do Reino Unido a ferro e fogo. Ou pelo menos as partes comerciais, e, no fundo, é isso a única coisa que interessa, a sacrossanta propriedade empresarial (diferente da meramente privada) e os seus fluxos de libras, e daí a tentativa de penalizar brutalmente os participantes. Resumindo para ficarmos todos entendidos, estamos autorizados a protestar no Ocidente desde que esse protesto não tenha qualquer efeito concreto. A partir do momento que coloca algo em risco, especialmente o fluxo económico, os cidadãos em causa quase perdem o estatuto de humanos e são atacados de todas as formas possíveis e imaginárias até se transforem apenas em exemplos repressivos sobre o que acontece a quem não é um “cidadão responsável”. Na Roma Antiga os seis mil soldados de Espártaco que sobrevieram à terceira Guerra Servil (70 A.C.) foram crucificados ao longo da Via Ápia (de Cápua a Roma) como exemplo, hoje evoluímos temos todo um sistema judicial para punir os revoltosos sem derramar uma gota de sangue. Que humano, higiénico e civilizado da nossa parte.

A fusão entre espectáculo e justiça

Todo o contexto destas revoltas está a ser ignorado e estão a dar às massas (especialmente uma ex-classe média que não percebeu que amanhã poderão ser eles nessa situação) um espectáculo de punição e agressão como elas sempre adoraram. Não saberemos se isto conterá a insatisfação crescente ou simplesmente criar uma barreira de medo adicional a todos os cidadãos. Mas de algumas coisas temos certezas. As pessoas que estão a ser tratadas como lixo humano e ignoradas não vão a lado nenhum. O número de pessoas que integra este grupo não pára de crescer (e só pode aumentar com a gravidade da crise económica que vivemos e aquela que ainda está para vir e se vai ter o seu coração na Ásia). E por fim qualquer barreira de medo pode ser ultrapassada quando as condições se deterioram o suficiente. Por isso as populações europeias têm que reflectir muito bem sobre que tipo de sociedades querem ou estão dispostos a ter e a que preço.

Somos livres de ser iguais, livres de não escolher, livres de produzir o que nos mandam. Viva a Liberdade!

Num aspecto puramente humano é deprimente ver como as pessoas embarcam tão depressa na desumanização dos seus concidadãos assim que os seus reflexos de Pavlov são activados ao verem alguns inconvenientes às suas vidinhas. Deixam de ver todas as perspectivas que não sejam punitivas e preferem esquecer as causas de tudo isto o mais cedo possível. Como se estas pessoas não existissem nem nunca tivessem existido. Rezem para não vir um dia ter que estar nesta situação e verem-se incluídos no grupo dos “delinquentes”.


O papel da ideologia na política

Em termos que leigos entendam o papel da ideologia na vida política portuguesa (incluindo os comentadores oficiosos que se multiplicam como coelhos) é zero. Isso mesmo, ZERO. Nenhum. Nada. Nulo. Não existente. É por isso que a grande maioria dos portugueses que se tentam informar sobre política, ideologia, economia, estudos sociais e demais temas fundamentais para ter uma boa cultura geral continuam a não entender quase nada do que se passa ou então só percebem muito esporadicamente o que se passa. Como pode isto ser verdade pergunta o leitor? Deixe-me explicar.

A procura eterna do eleitor pela verdade...

Em certos círculos da classe média (deveria dizer talvez ex-classe média já que o cinto vai continuar a apertar e vários milhões vão deixar de pertencer a esse grupo nos próximos anos) está em desuso olhar para os interesses pessoais dos actores políticos (incluindo TODOS os que usam a esfera pública – políticos, empresários, jornalistas, etc). É de mau tom (mesmo déclassé) olhar para as contas bancárias ou os negócios alheios e não há comentador prestável que hesite em comparar tal atitude a um voyeurismo sexual. O problema é que obviamente saber que um conselheiro de um líder político tem interesse na privatização ou adjudicação não é o mesmo que perguntar com quem dorme. A primeira equivale a saber se os seus interesses estão do lado do Estado e o segundo a mera cusquice de velha de aldeia. Assim sendo as pessoas que seguem a actualidade parecem acreditar que as pessoas existem num vácuo, que são compostas apenas de ideias e não de interesses, contas bancárias, casas de férias e carros desportivos.

O jornalismo e comentário de qualidade.

Dado este grau de inocência é impossível que o cidadão médio, que se considera informado, entenda as mil e uma reviravoltas da vida pública portuguesa. As acções são tomadas em negociações privadas (quanto mais não seja porque fisicamente empresários, políticos e quadros de “elite” vivem próximos uns dos outros e convivem nos mesmos locais) e depois alguém tenta adaptar conceitos ideológicos ao que foi decidido – é por isso que para a mesma decisão podemos encontrar justificações ideológicas diferentes conforme o partido que a tomar. Não há coerência nenhuma porque não é esse o objectivo. Não há respeito pelos compromissos do passado porque esses só foram assumidos aparentemente para defender interesses meio ocultos. O interesse pessoal é a única lei da vida pública portuguesa.


Afinal não somos diferentes

Londres

Parece que finalmente, e já não era sem tempo, algumas pessoas começam a acordar para o que deveria ser óbvio. As diferenças nos países da Europa Ocidental e do Sul são superficiais. Londres está em chamas e em rebelião aberta contra o poder central. A crise do modelo político-económico é inegável (a julgar pelas chamas e violência que são argumentos bastante fortes – eu sei que por cá as autoridades preferem as opiniões higiénicas dos comentadores do costume mas, às vezes, a realidade vence mesmo esta nova forma de censura) e o que aconteceu na Grécia, na Irlanda e em Portugal vai acontecer noutros sítios nalguns casos com ainda mais violência. As autoridades governamentais, neste caso em Londres, fazem o costume, apelos à calma quer controlem ou não a situação, econdenam unilateralmente a violência como se os combates na rua fossem entre vários grupos manifestantes e não uma miniguerra urbana entre as forças policiais e os descontentes. A crença profunda Downing Street parece ter nascido no coração de outro regime, se repetirmos algo vezes suficientes as pessoas acabam por acreditar: Os responsáveis são só meia dúzia de criminosos de resto tudo está bem. Tudo está bem. Tudo está bem…

Atenas

Por cá ainda estamos a alguma distância de cenas destas (apesar de estar convencido que lá chegaremos como o devido desenrolar desta peça de teatro) quanto mais não seja porque ainda só há um mês é que começámos a apanhar com a Doutrina de Choque que nos querem impor. Haverá dissabores em meses futuros, reclamações para o ar, chega o natal e a Igreja (como boa aliada do poder que sempre foi) irá pôr água na fervura e no próximo ano é que as coisas vão mesmo aquecer quando se perceber que o poço dos sacrifícios pedidos não só não tem fundo como continuará a haver um conjunto de iluminados (com as melhores credenciais familiares e profissionais como se quer em Portugal) que continuará a gritar aos quatro ventos que a culpa é da falta de brutalidade das reformas aplicadas (fazendo lembrar os frades dominicanos da inquisição a avisarem que é preciso queimar mais hereges até a ira de Deus ser aplacada). A situação vai rapidamente ficar insustentável especialmente nos grandes centros urbanos. E aí veremos então se a violência que caracterizou a vida pública portuguesa nos últimos séculos desapareceu por completo, como nos querem fazer acreditar desde 1933, ou se somos os mesmos do costume e quando encostados à parede, e sem outras soluções, fazemos algo para nos defendermos e nesse caso poderão até surgir respostas piores que estas.

Madrid

Até esse altura ficamos com o triste espectáculo das capitais europeias a desintegrarem-se uma a uma e a transforem-se em espécies de zonas militarizadas com cada vez mais limitações à mobilidade de acção e opinião dos cidadãos – que se começam a questionar o que estão a ver ou a versão oficial dos eventos passam a ser descritos nos media e comunicados oficiais como “os poucos e perigosos delinquentes”.


None of us are free – Solomon Burke

One, two, three

Well you better listen my sister’s and brothers,
‘Cause if you do you can hear
There are voices still calling across the years.
And they’re all crying across the ocean,
And they’re cryin across the land,
And they will till we all come to understand.

None of us are free.
None of us are free.
None of us are free, if one of us are chained.
None of us are free.

And there are people still in darkness,
And they just can’t see the light.
If you don’t say it’s wrong then that says it right.
We got try to feel for each other, let our brother’s know that we care.
Got to get the message, send it out loud and clear.

None of us are free.
None of us are free.
None of us are free, if one of us are chained.
None of us are free.

It’s a simple truth we all need, just to hear and to see.
None of us are free, if one of us is chained.
None of us are free.
Now I swear your salvation isn’t too hard too find,
None of us can find it on our own. (On our own)
We’ve got to join together in sprirt, heart and mind.
So that every soul who’s suffering will know they’re not alone.

Oh, none of us are free.
None of us are free, yo
None of us are free, if one of us are chained.
None of us are free.

If you just look around you,
Your gonna see what I say.
Cause the world is getting smaller each passing day. (Passing day)
Now it’s time to start making changes,
And it’s time for us all to realize,
That the truth is shining real bright right before our eyes. (Before our eyes)

None of us are free.
None of us are free.
None of us are free, if one of us is chained.
None of us are free.

Oh, none of us are free.
None, none, none of us (None of us are free)
Oh, none one of us
(None of us are free, if one of us is chained) Well, well,
Well, once again

(None of us are free) None of us are free
(None of us are free) None of us are free
(None of us are free, if one of us is chained) One of us, none of us, one of us

(None of us are free) Lord, have mercy
(None of us are free) Oh, let me save you
(None of us are free, if one of us is chained)
If one of us is chained, none of us are free.
Well, I gotta tell about it

(None of us are free) Oh, ma ma ma
(None of us are free) Ma ma Lord
None of us are free, if one of us is chained.
None of us are free.

None of us, none of us, none of us are free.
None of us are free.
None of us are free, if one of us is chained.
None of us are free.

None of us are free.
None of us are free, no
None of us are free, (if one of us is chained), oh, Lord
(None of us are free) oh, Lord

None of us are free.
(None of us are free)
None of us are free, if one of us is chained.
None of us are free.


Sinal de aviso

É preciso ter sempre muita sensibilidade ao falar de situações como a que ocorreu recentemente na Noruega para não cair em dois erros. O primeiro é a insensibilidade a quem passou a um verdadeiro inferno, especialmente o que não sobreviveram (os meus pêsames estão com as suas famílias e entes queridos). O segundo é cair numa reacção histérica que serve apenas para exteriorizar todos os medos, justificados ou injustificados, que sentimos sem prestar atenção suficiente ao que está mesmo em causa. Temos que ser sensíveis, pausados e realistas.

Prefiro pensar na Noruega sempre desta forma

Eu tenho que admitir que tenho uma grande dificuldade em acreditar que isto se trate de um acto isolado de alguém doente. Que esta pessoa tem problemas não está em discussão mas parece que falamos de um nível de acumulação de informação e até de treino que não seria atingido facilmente sozinho (mesmo com generosos recursos de tempo e dinheiro) além de que para um tipo de acção deste tipo (tão politicamente carregada e cheia previsões de conflitos futuros) fica claro esta pessoa não se via como estando sozinha e muito menos isolado, ou seja, não era uma cruzada pessoal. Já para não falar no factor motivação, é muito complicado alguém entrar num conflito físico sem motivação constante por parte de alguém ou alguma coisa. Parecem existir bastantes pontas soltas no que toca ao atacante e às suas possíveis ligações, mas dado que estamos no início das investigações teremos que ver o que surge.

Outra Cruzada há uns anos...

Igualmente preocupante é a identificação que este senhor faz de tendências a nível Europeu (representadas por forças políticas consideradas como potencialmente aliadas ou úteis à sua causa – algumas claramente são injustiçadas nesta listagem) para um uso sistemático de violência contra alguns alvos de estimação. É de perguntar o porquê da renitência em vários países de perseguir as ligações de alguns destes movimentos entre si e os detalhes das suas actividades – ao contrário do que fazem com os suspeitos de terrorismo islâmico. Falamos de distracção? Uma ameaça claramente subestimada ou algo pior? Será que por os membros destas organizações (e outras não listadas) serem europeus há medo de bater a algumas portas? São filhos de alguém? Ou há simpatias de membros de em alguns governos europeus por este tipo de ideologia e está-se a permitir que floresça? Se isto for um cenário provável então o que se quererá fomentar a longo prazo com esta tolerância selectiva e quem o estará a permitir?

Ainda outra cruzada... afinal é recorrente...

É preciso alertar sempre os cidadãos que todos os governos adoram que se crie um clima de medo porque isso gera menos perguntas e procedimentos de segurança mais directos e menos responsáveis (perceba-se: com menos garantias para qualquer pessoa que seja vista como “de risco” seja porque critério for). Ao contrário do ditado popular não é só quem deve que teme. Um sistema de informação extremamente invasivo coloca o cidadão mais pacato nas mãos de alguns serviços do estado (de ligações partidárias entre outras) ou mesmo de empresas privadas subcontratadas (um sector em crescimento explosivo). Cuidado com todas as organizações, públicas ou privadas, que nos negam as nossas autonomias para nosso próprio bem e protecção.

Está a ser observado. Para sua própia segurança claro.


Notas sobre a privatização como modelo social

A)     Todos os serviços privatizados cujo novos custos, imputados ao consumidor, irão aumentar (quer como consequência da privatização quer como prelúdio para a mesma) só farão sentido se existir poupança suficiente para cobrir a diferença de custo.

A sociedade do risco

B)      Mesmo com a taxa de poupança a subir isso não dá certezas de continuidade ao serviço já as medidas de austeridade vão cortar essa poupança e que a maioria que usufrui dos serviços já não consegue acumular qualquer tipo de poupança na situação actual (cerca de 48% do portugueses estão neste grupo dos “sem popança”).

Another one bites the dust...

C)      Podemos limitar então os serviços recém-privatizados apenas aqueles que podem cumprir os novos preçários e nesse caso ficamos com um grande número de excluídos, sem alternativas, e um grupo que sacrifica as poucas poupanças que conseguiu fazer para manter um estilo de vida próximo de uma classe média. De qualquer forma ficam todos com as contas a zero.

Os novos pobres

D)     Se for aceitável excluir cerca de metade da população portuguesa de alguns serviços básicos, como por exemplo os transportes, então caminhamos no sentido do meu anterior post, o isolamento progressivo de algumas classes de pessoas, a sua limitação profissional, de liberdade de movimentos e autonomia cultural.

Podem sempre andar...

E)      Quando o número de excluídos provar ser demasiado grande (e será) poderá existir pressão para resolver a situação e a alternativa mais fácil de propor é subsidiar a empresa privada que fornece o serviço. Logo quer o cidadão que perdeu a poupança acumulada quer o que se viu temporariamente excluído do serviço privatizado irão pagar indirectamente, através de impostos, não só o custo do serviço/produto como também uma margem de rentabilidade a ser negociada com a empresa que deixa de ter que lidar com o factor risco ao se tornar uma fonte de rendas.

Quem entra e quem sai...

F)      Este processo começou há quase 20 anos sem nunca desacelerar e caberá aos cidadãos pensar sobre as suas situações pessoais, assumirem uma posição e tornarem-na clara. Se não o fizerem alguém voltará a tomar essas decisões por eles.