Já estamos em guerra, simplesmente isso não foi comunicado à maioria.

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Notas “Filosóficas”

Eu admito que acho engraçado ler o que os intelectuais da nossa praça (até os auto-exilados em condições paradisíacas nas melhores cidades Europeias) têm a dizer sobre o país do qual supostamente ainda fazem parte. A erudição extra deve ajudar a criar perspectivas novas  e vivificantes que quebrem os moldes meramente técnicos em que todos os organismos inevitavelmente caem com o tempo. Foi nesse espírito que dei uma espreitadela ao micro texto de Eduardo Lourenço (apenas uma pequena amostra do que pelos vistos foi um discurso numa conferência). Devo dizer que parecia que estava a ler um discurso com o “best of” de Cavaco Silva: muita esperança, “a Europa há de se levantar” e “isto não pode durar para sempre“. Admito que também vemos uns quantos toques eurocêntricos de necessidade Sebastianista de relevância a nível mundial (não houve referências a um Quinto Império, felizmente, porque fica realmente mal a um intelectual que se quer internacional) portanto não é só repetições de uma mesma fonte.

Não há melhor aviso a fazer.

É profundamente irritante ver estas pessoas que supostamente têm uma enorme responsabilidade moral em nos informar e abrir perspectivas (o “Intelectual” como arquétipo é isso mesmo, alguém que se desliga da sociedade, em termos por exemplo dos seus interesses privados, para depois de pensar sobre ela poder voltar com novas visões, alguém que assume algum grau profundidade de pensamento que a maioria não está nem capacitada nem motivada para fazer) mas no entanto o que acabamos por ter é o debitar do que,na minha modesta opinião, são meras trivialidades que qualquer aluno médio de 1º ano de faculdade nos poderia dizer. Fora a conversa de “optimismos” e a noção que parece estar subjacente a todo o texto de “temos que aguentar o que for necessário, o que nos ordenarem” ficamos reduzidos a uma proposta de um federalismo mais solto como modelo Europeu (como se houvesse escolha num mundo que não aceita ceder soberanias e em que ninguém quer uma Europa a uma só velocidade) e a espantosa conclusão que se a Grécia cair outros se seguirão incluindo nós (até alguém com sérias dificuldades em entender conceitos económicos ou de teoria social poderia ter chegado a esta conclusão, basta entender o conceito de bola de neve).

Sem comentários...

Em suma. Pessoalmente defendo que textos destes não merecem publicação. Desculpe-me o autor, desculpe-me o jornalista e desculpe-me o jornal (sei que estão no direito de fazerem o que quiserem mas eu também penso estar no direito e dever de comentar livremente) mas a verdade é que são apenas trivialidades aparentemente misturadas com uma mensagem sub-reptícia de alguma submissão popular (não consigo identificar se isto se deve ao que o autor diz ou à edição do seu texto) à visão dos sábios nas suas torres de marfim (o que em Portugal é juntar a fome com a vontade de comer já que sempre tivemos uma adoração por tecnocratas, especialmente se afectarem uma falsa modéstia semi-provinciana (como o nosso ex-ditador que criou o “template”), e uma vontade de obedecer para evitar a responsabilização pessoal). No século XXI exige-se muito mais de um intelectual de primeira linha que isto. Quanto mais não seja porque as necessidades são maiores.

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O Mini Panóptico

À medida que o mal-estar avança na sociedade portuguesa e os sinais começam a não ser disfarçáveis (mesmo com o controlo da esmagadora maioria dos canais de informação) isto tem como consequência directa que as forças que tomaram o Estado como ferramenta de poder pessoal começam a ficar de alerta – afinal de contas parece que ficaram assustados quando uma só central sindical (supostamente a morrer como todos os sindicatos, ou assim os seus homens de mão têm prometido há mais de 20 anos… que lentamente iriam apagar a representação colectiva do mapa laboral português) consegue movimentar 180 mil pessoas só em Lisboa e Porto sem haver nenhuma medida em concreto como alvo. Vamos ser claros: as necessidades deste grupo de poder, desta elite se quisermos (no sentido de efectivamente comandarem poder não do representarem excelência), não vão diminuir com o tempo. O modelo económico que escolheram baseado em rendas semifeudais e acordos mútuos de partilha de mercados vão continuar a ter quebras por muito que usem o chicote nos seus funcionários ou por muito que forcem os seus servos políticos a criar legislação favorável a si. A razão é simples nenhuma nação pode ser moderna e civilizada sem uma grande classe média. Nenhuma economia deste tipo pode prosperar sem o poder de compra dessa mesma classe média cujo consumo não pode ser substituído em volume ou variedade pelo consumo de uma classe privilegiada minoritária, por muito abastada que seja. E ao condenar a classe média com a defesa sem excepções do interesse privado e mesquinho, estes grupos, selaram o seu próprio destino do qual ninguém, nem o Estado que tanto se esforçaram para tornar uma criatura sua, os pode salvar. A decadência seguida da inexistência.

Meus caros o fato pode ser Gucci mas a corda aperta e enforca à mesma...

Ou assim o temem. Pelo menos os mais previdentes das elites – e há alguns. Se os mecanismos normais não funcionam está na altura de entrarem os extraordinários. O que se chamaria noutros tempos a santíssima trindade: vigilância, censura e repressão. Já está no ar a ordem de começar a apertar a vigilância e a preparar as outras duas, só não sabemos que forma irão escolher para estas medidas. Provavelmente, sendo isto Portugal, vai-se começar com jogos linguísticos. O que engloba a liberdade de expressão (os que são imunes à crítica), quem engloba (licenciar ou pelo menos registar qualquer pessoa que emita uma opinião pública), criar nomes aos novos críticos; descamisados, incapazes, preguiçosos e sem talento para o cidadão médio que se recusar a venerar ao altar do regime;  hooligans, vândalos e escumalha se forem manifestantes no campo; traidores e demagogos se usarem o campo intelectual e criminosos e terroristas para os que puserem mesmo em risco a estabilidade e integridade física do sistema. Depois de findo este processo de recriação de todo um conjunto de pessoas podemos ter uma verdadeira caça ao dissidente usando todos os meios que a tecnologia moderna proporciona e o estado português usa.

Em teoria temos tudo garantido na realidade depende do uso que quiser fazer da maquinaria do poder...

Mesmo havendo sinais do exterior em como se deveria ir contra as políticas que estão a ser tomadas em vários campos a elite nacional está demasiado comprometida… Até de um ponto de vista quase que emocional são incapazes de mudar os seus ódios seculares, os seus sentimentos indevidos de superioridade face ao cidadão normal (noutros países situações similares levaram a extremos…), a sua forma de gerir os negócios ou mesmo a sua forma de domínio social. Preferem trazer todo o edifício abaixo a abrir mão de um só grão de areia que seja. Promete verdadeiramente ser um conflito sem remorso, piedade ou qualquer possibilidade de negociação.


Golias e o défice de atenção

Esta administração americana é uma criatura curiosa. Nascida de uma promessa de mudança que era perfeitamente incapaz de cumprir (quanto mais não seja pela forma que o processo eleitoral americano toma) e que de facto nunca tentou, de forma séria, implementar. Apelou a todos os grupos que tinham queixas legítimas contra os republicanos (e a lista é imensa…) e na altura de decidir o que seria mesmo feito chamou os mesmos senhores do costume, de WallStreet, à Casa Branca para cozinharem uma solução que salvasse a “economia”. Nesta altura temos que definir o que é a economia; não deveria ser necessário definir o que se entende por este simples termo mas nos tempos que correm em que os discípulos de Friedman controlam instituições estatais, económicas e mesmo de ensino (incluindo em Portugal onde monetarismo passa por ser quase teoria económica universal) não temos outra escolha. É bastante simples, a economia inclui todas as actividades de bens ou serviços que não sejam de mera natureza financeira (cujo único papel saudável é como auxiliar de outras actividades), ou seja que pertençam à economia real, que acrescentem valor e que acima de tudo não sejam meros jogos especulativos (perdão modelos econométricos altamente fiáveis…). A solução está mais ou menos à vista e tem tudo a ver com Portugal. Foi decidido que os reguladores falharam (ou seja o Estado foi denegrido sem se entenda que muitos reguladores da economia americana não são estatais, mas representativos da indústria em causa) e que o povo americano se tinha endividado irresponsavelmente e teria que pagar o preço por isso (já ouviu isto noutro lado qualquer não é verdade? Parece que deve ter seguido um mesmo memorando para vários países).

O grande ícone da miséria global

Não tendo resolvido os seus problemas internos (nem pode resolver sem mudar estrategicamente o grupo de pessoas que quer privilegiar, ou seja, sem voltar a apoiar a classe média em detrimento dos 10% mais ricos da nação coisa que não está para breve a julgar pelos sinais) virou-se agressivamente para o exterior (e digo agressivamente porque qualquer potência anterior teria tentado fixar fronteiras e fortificar o interior antes de mais expedições diplomáticas, comerciais ou militares) e quis resolver o conflito na Palestina acabando apenas por irritar os dois lados ao ponto de ninguém o querer como mediador. Os israelitas ficaram furiosos de ele querer considerar as suas fronteiras de 1967 (à altura da Guerra dos Seis Dias) como referência e os palestinianos desconfiados não só da independência do negociador como da sua falta de vontade para forçar Israel às tais fronteiras com as quais se tinha publicamente comprometido. Também não conseguiu dar resolução a este impasse e é pouco provável que o venha a fazer mas claro que isso não impediu a administração de iniciar mais uma iniciativa internacional de grande envergadura. Agora envolveu-se, directa e indirectamente, numa série de processos de “democratização” do Médio-Oriente e Norte de África sem ter anunciado muito bem em que se justificava (recuso-me sequer a discutir a questão dos direitos humanos num país que não cumpre a própria promessa de fechar centros de tortura). Há várias formas de interpretar isto mas existem duas que parecem mais interessantes.

A fantástica teoria das redes sociais como motores ou meios de revoluções é das noções mais divertidas e ridículas que tenho encontrado nos últimos tempos. É bom para o ego de quem tem o rabo no sofá, carrega num botão e depois quer dizer que fez uma revolução 🙂

Cenário 1 (o mais provável): Obama está a continuar uma política que vem desde o inicio do seu país que é a exportação do seu modelo político como forma de dominação cultural e política de novos territórios que passam a estar ligados a todos os níveis a uma nova metrópole. E escolhe esta altura porque provavelmente é a última hipótese que os Estados Unidos terão nas próximas décadas de fazer ameaças militares em muitos pontos geográficos de forma simultânea e serem levados a sério, ou seja, antes que a dívida esmagadora e o valor real do dólar venham a público e arrastem o país para uma relativa impotência internacional e um grau de caos interno considerável. Pode haver também ambições quanto à implementação no terreno do AFRICOM como posto avançado permanente na região.

Cenário 2 (menos provável mas estrategicamente mais ambicioso): Sabe à partida que nenhum destes regimes tem qualquer hipótese de sobrevivência se forem desligados da “máquina” e o único objectivo disto é não só criar sementes de um determinado grupo de ideias (pró-americanas) como deixar metade da região de tal forma dividida internamente que isto resulte numa série de conflitos internacionais e guerras civis de longa duração que ninguém conseguirá gerir. Pondo as coisas de forma estratégica, estando fragilizados na sua capacidade de projectar poder a todas as regiões interessantes negam o acesso a essas regiões a todos os outros jogadores por pelo menos alguns anos ou décadas.

would you like to supersize that?

Para tornar as coisas interessantes vamos ter umas eleições americanas daqui a relativamente pouco tempo e mudando ou não de presidente será interessante testar estas hipóteses aqui expostas e verificar a progressão (ou abandono) da classe média local. Sinais do que nos espera.


Quem manda aqui

O governo alemão fez hoje uma séria ameaça a um outro Estado-Membro da União Europeia (deve ser a primeira vez desde a segunda guerra mundial que a Alemanha ameaça sanções, mesmo que sejam de natureza económica, de forma directa e unilateral contra outro país europeu). A Grécia vai ser deixada à deriva a não ser que se assine uma rendição incondicional aos seus credores internacionais (nomeadamente a Alemanha) independentemente das suas razões para a não implementação de certas medidas (como por exemplo sistematicamente o FMI propor cópias de sistemas anglo-saxónicos e nórdicos em países que não têm nem a mesma cultura, história ou funcionamento – há razões para os sistemas terem evoluído de forma diferente e também há razões para alguns executivos europeus e sectores empresariais associados estarem tão desejosos de seguir a receita). Essencialmente Wolfgang Schaeuble (ministro das finanças alemão) entregou aos gregos a sua versão do mapa cor-de-rosa deixando no ar a ameaça da falência do país, o caos social (como se eles não estivessem já a viver nessas condições e esse tipo de ameaça tivesse peso) e possível instabilidade geopolítica na região (para quem está mais desatento: militarmente a Grécia é uma potência regional algo relevante) que teria que ser colmatada por outra potência, benemérita claro, que por acaso tivesse interesse em expandir a sua influência na região (conseguem lembrar-se de alguém?). Nem é preciso dizer que isto serve de aviso a todos os outros países que estão ou possam vir a estar no mesmo barco, ou se faz à Alemã ou não se faz de todo e deixa-se as nações “aliadas” cair como dominós.

Alguém é servido? Uma dose de realidade para alguém?

Claro que há razões para a Alemanha estar a tomar estas atitudes leoninas. Em primeiro lugar conseguiram “raptar” (aliciar talvez seja um termo mais correcto) a França para o seu lado oferecendo-se para tapar as graves falhas económicas do país em troca do seu apoio político incondicional (indispensável nesta fase). Em segundo lugar sabem que a posição que ocupam nos mercados mundiais só pode decair com o tempo (os mercados emergentes têm consistentemente substituído a produção industrial alemã em quase tudo, começaram pela indústria pesada e agora já estão nos componentes de plástico – há mesmo produtos que são totalmente tecnologia alemã mas que não são de facto produzidos na Alemanha, ou sequer na Europa) o que quer dizer que o seu poder negocial está provavelmente num ponto máximo ou próximo disso. A altura ideal de estabelecer um novo equilíbrio continental, que os beneficia naturalmente. Em terceiro, e último, lugar as novas gerações alemãs têm uma mentalidade curiosa que por um lado já não está refém do complexo de culpa do período nazi e que por outro lado compreendeu muito bem que a dinâmica das nações continua a ser uma de conflito descarado, aberto quando a disparidade de poder é significativa (assegurando simultaneamente uma vitória rápida e um espólio compensador) ou discreto e económico quando o primeiro tipo de abordagem levaria a resultados incertos ou com custos demasiado elevados. Nesse aspecto são quase único na Europa já que muitos, especialmente os países periféricos, levam mesmo a ideia de algum grau de irmandade europeia a sério.

Para quem ainda não percebeu: nós não somos o futuro.

O que é talvez mais estranho é que estas declarações venham no seguimento da admissão, da própria chanceler, que se o Euro falhar a Europa, como projecto, está condenada. O que significaria mais uma vez o regresso a um manto de retalhos políticos mais ou menos frágeis contra outras potências (próximas ou distantes, antigas ou emergentes) e quase impossíveis de controlar ou coordenar. Dado este facto a arrogância de Schaeuble parece um pouco deslocada já que parece que quem tem as cartas na mão são os gregos, que podem fazer este castelo de cartas cair de um só sopro. É um bluff bem atempado (mesmo na altura da Grécia receber outro pagamento) mas parece não ter mesmo qualquer substância já que em termos de perdas geoestratégicas seriam os alemães a pagar a factura mais elevada a longo prazo e a ver as suas esperanças de relevância global esmagadas ou pelo menos seriamente danificadas e adiadas.


O fortalecimento das barreiras sociais

Não houve qualquer surpresa nas medidas anunciadas hoje pelo governo e muito menos em descobrir sobre quem vão incidir: o que ainda existe da classe média (caso não tenham percebido o IRS só taxa quem tem mesmo um emprego, ou seja, trabalha… ou seja não tem uma empresa para declarar que recebe um salário mínimo recebendo o grosso do bolo em dividendos ou outra figura legal equivalente ainda mais obscura). Como estava previsto impostos de herança sobre grandes fortunas ficaram na gaveta, tributar ganhos financeiros nem pensar, taxar propriedades acima de determinado valor (e falamos na ordem dos milhões por isso guardem as lágrimas derramadas em nome destas almas danadas que seriam penalizadas) nem está em cima da mesa para discussão. Claro que tivemos direito a um frenesim mediático o dia todo onde os comentadores bem domesticados comunicam a inevitabilidade das medidas e a sua justiça. A raiva que alguns sentem (resultado dos maus tratos e impotência total) é canalizada para meia dúzia de gritos semi-histéricos na Tv ou rádio, sem grande efeito, e ainda esta semana a maquinaria do Estado e grupos económicos privados associados começará, não só a respirar de alívio, como a implementar tudo o que foi “corajosamente” decidido.

A preocupação e cuidado humano que os nossos gloriosos mestres demonstram para connosco é comovente!

Outras medidas mais de longo prazo também vão começar a fazer efeito e a corroer o tecido social como por exemplo o facto de as bases dos serviços de educação (quando não mesmo a filosofia subjacente ao próprio conceito de educação) estarem essencialmente a ser demolidas em várias frentes. Num lado as creches são entregues a privados que usarão a partir deste momento trabalho voluntário (antes tinham mesmo que contratar profissionais mas pelos vistos em Portugal só algumas crianças é que merecem a atenção de pessoas devidamente treinadas o resto pode ficar nas mãos de amadores bem intencionados). Isto essencialmente vai degradar as condições de trabalho nesta área, já complicada, ao ponto de as tornar impossíveis (afinal de contas se legalmente posso lá ter alguém gratuitamente porque iria pagar?). Noutra frente da mesma batalha sacrifica-se completamente qualquer qualidade de ensino em nome de umas economias miseráveis e mal explicadas – dá a impressão que o objectivo de tudo isto é não só o de parar o elevador social (que já estava fora de serviço há mais de uma década) como de o desligar de vez e barricar as escadas contra qualquer intruso. As turmas aumentam, a pressão sobre os técnicos aumenta, a escola é partidarizada ainda mais e quase 40000 técnicos superiores ficam no desemprego. Outros países aproveitaram as suas grandes crises para criar grandes reformas na educação, em Portugal tomam-se medidas que só poderão contribuir para solidificar o sistema de castas sociais.

Se está a ler este blogue então tenho o triste dever de o informar que provavelmente estará do lado de fora da muralha…

Tudo indica que não haverá solidariedade entre classes sociais em Portugal. Esta muralha da China financeira e legal (e suspeito que mais tarde policial) já estabeleceu (em toda a sinceridade talvez seja melhor dizer que apenas clarificou já que o processo não foi iniciado hoje) aqueles que são os eleitos que pertencem ao “Império Celeste” e aqueles que pertencem às tribos bárbaras tributárias deste grande ponto de emanação de “ordem”. Esquecem-se, ou preferem esquecer, que do outro lado da barreira que criam pode nascer um grande Khan…

“Eu sou o castigo de Deus… se não tivessem cometido grandes pecados, Deus não teria enviado um tão severo castigo como eu sobre vocês.” – frase atribuida a Gengis Khan


Desilusões perigosas

Acho fantástico que se as pessoas pela primeira vez em décadas comecem a dar sinais de vida cívica, ou pública, e estejam já a preparar uma nova manifestação contra precariedade e todo o sistema que a mantém. Mostra que pelo menos ainda não estão completamente apáticos face ao que lhes está a ser imposto. Mas há graves problemas com a mentalidade que este tipo de iniciativa incentiva. Em primeiro lugar quase que dá a entender que isto é um passeio de Domingo em que até dá para ser divertido – o objectivo de qualquer movimentação social séria não é que as pessoas que nele participam estejam divertidas, para isso o sistema já proporciona, com uma vasta gama de preços e gostos, entretimento para todos; a intenção seria quebrar precisamente esse circulo vicioso diversão com aparência de contestação. Em segundo lugar, e isto é o mais importante, estas primeiras manifestações populares estão destinadas ao fracasso. Quando se sai para a rua é para das duas uma, ou fazer uma exigência concreta ou forçar alguém a abandonar o cargo. Neste caso não há nada disso no cardápio. É uma manifestação apenas por manifestação. Nada é pedido em concreto e como tal nada pode ser oferecido, não existem possibilidades negociais quando não há exigências concretas.

Brincamos?

Se me estivesse a sentir particularmente cínico diria que estão a cansar intencionalmente as pessoas com eventos que não podem pela sua natureza e organização (ou falta dela) produzir resultados reais com o objectivo de as imunizar a iniciativas que possam surgir, mais tarde, com algum potencial de sucesso e de mudança. Criar uma boa dose de desilusão com a vida pública (no verdadeiro sentido da palavra, de participação na Pólis, directamente e não apenas de forma afastada e inconstante como a nossa cultura política nos forçou) nas novas gerações para depois facilitar uma imposição de conformismo. Esperemos que não seja o caso e eu esteja apenas algo pessimista. Esperemos que se trate antes de um acordar de responsabilidade cívica por parte de pessoas que quase que se esqueciam que faziam parte de uma comunidade política. Mas por este ponto de vista convém então refrear, e muito, as esperanças que se possam ter sobre este primeiro tipo de iniciativas. Não vão dar em nada concreto, nem é suposto darem em nada (tal como pode comprovar pelo que aconteceu lá fora).

Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes...

No imediato o que há mesmo a esperar é que a continuação do teatrinho das “reformas” e da seriedade intocável. E da “enorme” preocupação com a despesa pública. Ou pelo menos aquela parte que é destinada à redistribuição social, fomento da economia real e manutenção de serviços públicos suficientes que nos permitam pelo menos aspirar ainda a ser um país senão do primeiro mundo pelo menos do segundo.


Manobras de contenção

Por toda a Europa multiplicam-se as tentativas de acalmar o que pareceu ser um onda de agressão espontânea direccionada contra os grandes desequilíbrios sociais que se estão a construir de forma semiautoritária (sem submeter o grosso desta transferência de riqueza a referendos e outros métodos de escrutínio da opinião pública). Sobre a capa de se querer evitar a desagregação social (como se o facto de as pessoas se unirem para contestar o que está a acontecer não fosse prova do contrário) está-se a aplicar ora medidas repressivas ora medidas de distracção ou acalmia para continuar todo o processo até ao seu fim (o chicote e a cenoura para o burro não parar de vez). A parte mais deprimente de todo o processo é como tentam desviar as pessoas para o protesto banal e ineficaz que acaba por ter os mesmos efeitos do conformismo mais apático à face da Terra.

Mais uma enorme escolha desprovida de qualquer significado ou consequência.

Em Espanha andam todos distraídos, em véspera de eleições, com uma visita do papa, líder de uma Igreja que nunca teve pudor em dizer quem apoiava (a visita vai ter direito à presença da família real outra entidade completamente partidária e que serve, na opinião de muitos espanhóis, juntamente com a Igreja da baluarte do conservadorismo espanhol e do que resta do legado franquista). Ou seja não só as pessoas têm direito a um espectáculo público como também a comício para irem bem orientadas para as urnas (claro que tudo é feito sobre a mais estrita neutralidade legalista mas isso só mostra o lado perverso de se prestar atenção exclusivamente à formalidade – não haverá provavelmente uma palavra partidária directa nos discursos mas para bom entendedor…). Parece que, tal como na Noruega (só coincidências…), havia um plano de atentado (envolvendo por pelo menos um devoto cristão conservador) ao que poderia ser considerado a ala liberal do país (neste caso os que se opunham a que o Estado Espanhol arcasse com um cêntimo do custo desta visita papal). Neste caso, felizmente, foi possível evitar uma desgraça e apanharam-no antes que pudesse fazer estragos.

"Gangs isolados", "vandalismo" é o que mais se gosta de usar... e que tal: combate urbano e rebelião popular?

Pelo Reino Unido a técnica continua a ser a pálida imitação da baronesa Thatcher que o primeiro-ministro David Cameron parece empenhado em prosseguir. É prisões para os revoltosos e para quem “publicitou/incitou” a revolta. Ficamos sem saber se as tvs também serão multadas e os seus jornalistas principais encarcerados. Ou são apenas determinadas opiniões sobre o tema que dão direito a ir preso? Será mesmo que a causa de uma semana de caos urbano no Reino Unido pertence realmente a dois miúdos que usaram uns slogans? Quando se tornar muito incómodo também se fecharão as redes sociais e blogs como no médio oriente? Ficamos também sem saber qual é a moral de um governo que prende jovens adultos nestes casos mas permite que os seus “cidadãos mais respeitáveis”  investir (de forma legal) em armas proibidas. Será que irão colocar a cara dos presidentes dos Conselhos de Administração destes bancos em ecrãs ao longo de Londres para os encontrar e identificar? Em Portugal ficamos sem saber muito bem quando é que apoio ou palavras de ordem serão criminalizadas (esperemos não chegar a tanto porque as penalizações pessoais por emitir opiniões de qualquer ordem já são pesadas o suficiente). De qualquer forma ficamos a saber que a última reforma do governo prepara-se para criar mais 40000 desempregados (e neste ambiente económico são permanentes) como “dano colateral”. Estranha forma de contribuir para a estabilidade.


O aristocrata e a plebe

David Cameron, primeiro-ministro inglês, ex-aluno de Eton, milionário, primo da rainha e casado com a herdeira de um título nobiliárquico propõe mais violência para lidar com a crise económica do país. Se não aceitam a bem perder tudo aceitarão a mal, à sombra de um poder policial total. A plebe, um misto de revoltados contra um sistema que os abandonou para morrerem e desintegrados, é pintada como já não se via desde os dias de Margaret Thatcher (ou melhor Lady Thatcher porque pelas suas medidas “heróicas” de violência contra o seu próprio povo e uma guerra de brincar nas Malvinas foi promovida a baronesa). São duros, burros, porcos e maus de forma universal como se quer numa boa demonização. Não há qualquer motivo para cometerem tais actos e o facto de serem vítimas de um dos maiores programas de choque da Europa é um facto completamente alheio a tudo isto. O sistema económico britânico praticamente colapsa (basta ver o estado do seu sector bancário) e isto não teria consequências nas pessoas. Que se assume que aceitariam ser reduzidas a uma pobreza humilhante (seriam socialmente anuladas) sem abrir a boca ou perturbar os cavalheiros e damas de bom nome e estatuto social.

Os cidadãos produtivos...

A imagem é convenientemente simplista como as pessoas tendem a gostar. O cavalheiro das boas famílias que defende a lei e a ordem a todo custo contra uns vilões que só falta serem descritos como fisicamente deformados (porque até tentativas de vender isto como fenómeno só racial já houve e falharam – tudo menos assumir as ramificações económicas). Independentemente dos excessos cometidos numa raiva cega, por quem já nada tem a perder, quem está de fora não deve engolir os mitos que parecem estar a ser criados por políticos que querem a sua própria imagem de “durões” – já que em em popularidade não conseguem e o seu governo só existe por um erro de cálculo dos Liberais Democratas que mais mês menos mês devem abandonar a coligação. Uma situação periclitante para o seu poder e imagem pessoais que exige uma resposta brutal que fique na memória das pessoas: “Os restauradores da Ordem”. A quem vê as coisas apenas pelos meios de comunicação oficiais pede-se o discernimento de ler entre as linhas da versão oficial que nos é filtrada. Isto parece ser mais complicado, feio e classista do que nos está a ser dado a entender. Além de estar a criar o precedente de usar as próprias forças de segurança (ou mesmo militares) contra a a própria população.


O não debate

Deveria talvez dizer outro “não debate” porque com a corrida às privatizações (perdão penso que actualmente o termo é “reformas”) que se está a fazer começa a ser complicado ter noção de quantas coisas estão em cima da mesa e de quem está a tomar decisões sobre o quê (reparem que neste caso o destino da empresa, RTP, é decidido por comissão – para minimizar a responsabilidade de cada um?) – aparentemente não há qualquer autoridade central que esteja a coordenar estas mudanças radicais da sociedade portuguesa, simplesmente grupos dispersos que obedecem a um mesmo interesse. Isto é a via mais fácil de mudar seja o que for sem ter que dar contas a ninguém. Já que nunca se tomou formalmente uma decisão de mudança radical de paradigma social não tem que se justificar o que está a acontecer aos bochechos. O primeiro ministro não assume responsabilidade pelo novo paradigma. Os ministros responsáveis de cada área muito menos (aliás muitos deles escudam-se atrás de uma suposta independência tecnocrática quando basta olhar para os CVs deles para perceber que tal é perfeitamente impossível). As comissões dividem ao máximo a carga moral e apenas recomendam acções. Parece que é tudo muito difuso mas cada dia que passa os portugueses acordam para um país ligeiramente diferente: mais pobre, menos livre, mais medroso, mais dependente das elites, e acima de tudo um país onde não fomos ouvidos sobre nada.

E claro que tudo tem que ser rápido para não nos dar tempo sequer de respirar. Suponho que assim seja porque a partir do Natal os próprios reconhecem que começarão a ter oposição séria – daquela nas ruas e nos locais de trabalho, não daquela que vem do gigantesco logro a que chamamos parlamento e que nunca atinge nada real. Não gosto deste tipo de pensamento, de política de rua, mas quando as instituições políticas, que deveriam ser o cerne da nossa comunidade Pública, estão mortas ou quase que conspiram contra o seu próprio povo não a posso considerar ilegítima (seria o mesmo que considerar a Revolução Francesa ilegítima porque não seguiu os canais próprios do regime absolutista). Cada dia duas reformas pelo menos. Uma verdadeira corrida em que nem sabemos quem são os corredores ou qual é o prémio. Só quando tudo for irreversível é que nos mostrarão a obra completa e irreversível do Novo Portugal (pelas “obras” parece pode vir a ficar surpreendentemente parecido a outra coisa que também se dizia “Novo”). Quando for tarde demais para reagir aí sim saberemos tudo. Tudo menos a quem atribuir responsabilidades claro.


O que me dava esperança e ânimo

O líder máximo da nação vem pedir-nos, nas suas palavras: “…este é o momento para recuperar forças e ânimo para um novo ano, que será de grande exigência mas que deverá também ser, como tanto desejamos, de coragem e de esperança”. E não discordando que este pode vir a ser um momento chave na história recente do nosso país tenho que dizer que vai ser preciso mais que boa vontade para criar essa esperança e ânimo. Uma base racional. Porque se essa base não existir o que se está a pedir é a permissividade total. No sentido de contribuir para a construção dessa base racional tomei a liberdade de sugerir 12 pontos que me parecem vitais para restaurar qualquer aparência de credibilidade junto do cidadão normal (ia a dizer classe média mas actualmente já não estou seguro que o cidadão normal seja de classe média… e os que ainda o são parecem ter os dias contados…).

"Blood alone moves the wheels of history"

1)      Ver 90% da classe política dos últimos 30 anos irradiada da vida pública. Por manifesta incompetência.

2)      Ver legislação sobre corrupção que tivesse hipóteses reais de ser mesmo aplicada e poder condenar alguém (ou seja que não fosse quase impossível fazer prova dos crimes de corrupção e tráfico de influências).

3)      Ter um sistema de protecção laboral que aplica mesmo as medidas de protecção do trabalhador em vez de ser completamente remisso (para quem duvida da relevância disto: façam um inquérito junto aos trabalhadores temporários para descobrir a última vez que uma inspecção passou a pente fino as empresas onde estão colocados ou que detêm o seu contrato).

4)      Ver um sistema de capitalismo livre em que as oportunidades de negócio dependem mesmo de ser empreendedor e não dos contactos junto das pessoas certas.

5)      Ver implementada imediatamente uma lei que proibisse qualquer empresa de deter mais de um meio de comunicação.

6)      Ver implementado um programa maciço de educação cívica para cada português finalmente ter uma ideia do sistema que criaram para o prender. Seguido de preferência de um referendo a 2/3 anos.

7)      Ver as entidades para a concorrência ganharem vida.

8)      Ver as entidades para a regulamentação e verificação da actividade económica ganharem vida.

9)      Ver o sector especulativo da economia pagar os mesmos sacrifícios que são exigidos a todos os outros. Seria o primeiro a defendê-los se mostrassem uma gota de responsabilidade social.

10)   Restringir ao máximo financiamentos empresariais aos partidos.

11)   Impedir durante pelo menos 7 anos qualquer eleito de ocupar cargo no sector privado depois da sua saída da vida pública. Com a mesma legislação a aplicar-se a funcionários públicos detentores de informação chave para o interesse nacional.

12)   Registo público das relações familiares de todo e qualquer membro do governo e/ou consultor tal como uma relação completa de bens familiares.


Eventos efémeros

Na sequência do horror que assolou a Noruega (cujas conclusões toda a Europa ainda está a digerir) houve uma reacção espontânea da sociedade civil e o número de inscrições nos partidos políticos pela parte dos mais jovens disparou. É um gesto simbólico forte. Mostra que apesar dos terror e da vulnerabilidade, que é partilhada por todas as sociedades livres, têm que manter um sistema normal a funcionar e não se podem deixar tomar pela paranóia securitária e isolacionista.

Para os que não sobreviveram ao horror.

Mas passado o calor do momento e o sentimento, de se ter contribuído de forma positiva para algo, vão permanecer na política Norueguesa todos os factores que levaram estes jovens a ignorá-la ou desprezá-la até este momento. E irão fazer-se sentir com cada vez mais força até os levarem ao abandono ou indiferença (a posição inicial). Eventos traumáticos, a menos que repetidos de forma frequente para criação de uma “mentalidade de cerco”, nunca poderão ser o suficiente para regenerar um sistema político. Isto é ainda mais válido para o caso de países como Portugal onde a juventude aprendeu sabiamente a manter-se à margem da vida partidária de forma a evitar a manipulação ou o engano constantes. Os princípios cívicos não são muitos mas a própria ganância os informa que sem verem a sua estrela “patrocinada” a política é um beco sem saída de onde pode sair tudo menos ideias e soluções.

Parece que estamos à espera de uma coisa destas para recomeçar mesmo a sério....

Isto tem tudo ligação. Um sistema político que não permite participação genuína (o voto é mais formal que outra coisa) e que não permite brilhar quem tem esse potencial (e aqui poderíamos dizer que o mal é de Portugal como um todo e não apenas do mundo da política) está condenado a uma fria formalidade que só poderá significar o seu fim ou fraqueza extrema prolongada. Além de criar respostas extremistas a este estado de coisas como se viu no Norte da Europa recentemente (e se bem investigado provavelmente descobririam redes destas espalhadas pela Europa).Nós por cá nem o nosso momento de união nacional tivemos (ainda bem), frágil e de curta duração que costumam ser, o que quer dizer que o efeito de fragmentação que esta forma de gerir o país está a causar poderá ser mais rápida por cá que noutros lugares. Este conservadorismo em todas as frentes está a sufocar a nação.